OPINIÃO
19/02/2014 11:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Primeiro jogador abertamente gay pode entrar na NFL este ano

Michael Sam, o defensive end da Universidade do Missouri, declarou-se abertamente homossexual exatamente um mês antes do Draft. Mas as reações não foram unânimes entre jogadores.

A NFL -- Liga Nacional de Futebol (Americano) -- está prestes a realizar o seu tradicional Draft, o processo de recrutamento em três rodadas de jogadores vindos do futebol universitário para a liga profissional. Os Draft Days são celebrados por torcedores e pela mídia, realizados no Radio City Music Hall, em Manhattan, NY.

Jogadores escolhidos na primeira rodada vão para o palco da casa de shows sob aplausos por uma plateia enfurecida e são recebidos pelo Comissário Goodell, gestor-máximo da NFL e considerado um dos homens mais poderosos do esporte. Este ano isso ocorrerá entre 8 e 10 de maio.

O Draft é uma coisa grande para o futebol americano. E, este ano, um time provavelmente irá selecionar o primeiro jogador *abertamente* gay da história da NFL.

E isso é sensacional.

Michael Sam, "defensive end" da Universidade do Missouri, declarou-se abertamente homossexual, exatamente um mês antes do Draft. Ele foi escolhido o jogador defensivo do ano da SEC, atualmente a melhor e mais disputada conferência do futebol americano universitário, e o membro mais valioso dos Mizzou Tigers. Detalhe: seus colegas de time já sabiam. Mais que isso, a comunidade em torno da universidade não tem poupado esforços para mostrar seu apreço.

Jogadores gays na NFL não são novidade. Em 1975, David Kopay -- depois de aposentado -- se declarou homossexual. Alguns jogadores, também aposentados, seguiram seus passos. Mas até hoje, nenhum jogador se declarou gay durante sua carreira. E nenhum teve a coragem de Michael Sam de se afirmar abertamente gay *antes* de iniciar sua carreira profissional, correndo o risco de acabar com ela antes de começar.

Logo após a declaração, vários executivos de times profissionais manifestaram publicamente apoio a Sam. Um dos representantes da NFLPA -- associação de jogadores profissionais da NFL, que rege os contratos, direitos e benefícios dos jogadores, e formada por ex-atletas -- também foi a público para dar total apoio e suporte. Até o presidente Obama, fã número 1 do Chicago Bears, se pronunciou positivamente.

Entretanto, a reação dos jogadores foi diferente -- e bem menos uniforme. Em alguns meses, um jogador já declarado gay vai passar a fazer parte de um time, e de seu vestiário, em um esporte em que a força física, a virilidade e a atitude "macho" ainda são o tema principal. As instalações dos times profissionais ainda são lugares onde se ouve jogadores dizendo que tem medo que colegas não heterossexuais olhem para eles. Muitos usaram as mídias sociais como válvula de escape, dizendo que não se importam com a orientação sexual, desde que o jogador contribua para as vitórias se seu time, ou dizendo do desconforto, com não saber lidar com o fato.

E esse, talvez, seja o ponto mais relevante da história toda.

Boa parte dos jogadores da liga são de origem simples e são criados sob os preceitos conservadores do sul dos Estados Unidos. Um estudo, de 2012, mostra que a produção de jogadores que um dia ingressaram na NFL por cada 100 mil habitantes é enorme em estados como o Kentucky, Louisiana e Georgia. Nesse cenário, a cultura em torno do futebol americano, vivida nos colégios e universidades -- 41,7% dos atletas escolhidos no Draft de 2013 vêm de universidades do sul, incluindo as do SEC --, ainda é retrógrada.

Mesmo que o sonho de muitos dos meninos que começam cedo suas carreiras seja levantar o Troféu Lombardi, taça de prata dada aos campeões do Super Bowl cujo nome é referência e homenagem ao lendário técnico do Green Bay Packers, Vincent Lombardi, que é uma das primeiras figuras do futebol americano a defender os direitos dos atletas homossexuais.

Analistas esportivos, até o momento, acreditam que Sam deve ser escolhido por um time entre a terceira e a quinta rodada do Draft, baseados unicamente na sua avaliação técnica e física. Ainda existe o risco de ele não ser draftado, podendo ser contratado para um time como um agente de passe livre.

De qualquer forma, essa história vai ter novos desdobramentos ao longo dos próximos meses. Se tudo der certo, um dos últimos bastiões da mentalidade retrógrada em relação à orientação sexual tem chance de cair em definitivo. Tomara.