OPINIÃO
28/02/2018 16:45 -03 | Atualizado 28/02/2018 16:45 -03

O verdadeiro golpe é a militância com verba pública na UnB

As universidades públicas beneficiam uma minoria enquanto custam caro a todos. O mínimo a se esperar em troca é uma prestação de contas rigorosa.

Em 2016, apoiadores de Dilma protestam contra impeachment, tachando-o de "golpe".
Bruno Kelly / Reuters
Em 2016, apoiadores de Dilma protestam contra impeachment, tachando-o de "golpe".

Não é novidade que a extrema esquerda está encastelada nas universidades públicas brasileiras. Há décadas, por necessidade estratégica, nossas cátedras estão cheias de militantes que ambicionam trazer prestígio acadêmico a ideologias totalitárias, criando assim o pretexto para forçá-las goela abaixo do povo por meio das instituições de ensino.

Graças às redes sociais, tal instrumentalização partidária do ensino superior se tornou mais visível nos últimos tempos. O fim da hegemonia da esquerda no discurso político nacional, em particular a partir das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, também acentuou a histeria entre os acadêmicos revolucionários, que enxergaram como sua nobre missão atacar a Justiça e a Constituição em nome de livrar uma presidente que cometeu fraude fiscal de ser punida conforme a lei.

Os episódios de violência física, como feitos na própria UnB em 2016 e na UFSC em 2017, costumam ofuscar as iniciativas mais sutis de revanchismo intelectual, o revisionismo histórico que se mostra como última cartada dos apologistas do Partido para, derrotados hoje, sonharem com uma vitória amanhã.

É sob essa luz que devemos ver a disciplina ''O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil'', ministrada pelo professor Luis Felipe Miguel e paga com o dinheiro do bolso de todos aqueles que foram às ruas apoiar o impeachment ou expressaram, em casa ou no trabalho, seu apoio pelo processo constitucional que foi seguido à risca pelo Tribunal de Contas da União, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal.

A própria ementa da disciplina é uma mostra, beirando à paródia, da militância universitária que opera sob verba pública.

Destaco alguns trechos:

A disciplina tem três objetivos complementares: (1) Entender os elementos de fragilidade do sistema político brasileiro que permitiram a ruptura democrática de maio e agosto de 2016, com a deposição da presidente Dilma Rousseff. (2) Analisar o governo presidido por Michel Temer e investigar o que sua agenda de retrocesso nos direitos e restrição às liberdades diz sobre a relação entre as desigualdades sociais e o sistema político no Brasil. (3) Perscrutar os desdobramentos da crise em curso e as possibilidades de reforço da resistência popular e de restabelecimento do Estado de direito e da democracia política no Brasil.

PROGRAMAÇÃO DAS AULAS E LEITURAS INDICADAS

2/5 – A campanha pela deposição de Dilma: a mídia. MORETZSOHN, Sylvia Debossan – "A mídia e o golpe: uma profecia autocumprida", em Adriano de Freixo e Thiago Rodrigues (orgs.), 2016, o ano do golpe. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2016

7/5 – A campanha pela deposição de Dilma: o novo ativismo de direita. AMARAL, Marina – "Jabuti não sobe em árvore: como o MBL se tornou líder das manifestações pelo impeachment", em Ivana Jinkings, Kim Doria e Murilo Cleto (orgs.), Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2016.

28/5 – O projeto do governo Temer (I): retirada de direitos. SAKAMOTO, Leonardo – "O governo Temer escolhe o inimigo: os direitos adquiridos pelos mais pobres". Blog do Sakamoto, 17 mai. 2016 (blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/ 2016/05/17/o-governo-temer-escolhe-o-inimigo-os-direitos-adquiridos-pelos-mais-pobres/)

11/6 – A nova direita radical e a ascensão do parafascismo. SOLANO GALLEGO, Esther – "Populismo de direita: guerras culturais e antipetismo", em Barbara Caramuru Teles (org.), Enciclopédia do golpe. Curitiba: Declatra, 2017.

6/6 – O projeto do governo Temer (IV): ataque às liberdades e à democracia. GOMES, Paloma – "Brasil e o infeliz retorno a 1964". Justificando, 28 out. 2017 (justificando.cartacapital.com.br/2017/10/28/brasil-e-o-infeliz-retorno-1964/).

Um verdadeiro comício semanal do Partido dos Trabalhadores, completo com apologistas, livros e revistas beneficiados por seus, digamos, vastos cofres e conveniente influência.

A existência de tal proposta de um docente para a grade universitária mostra a arrogante tranquilidade com que se explora o pagador de impostos em nome de agendas doutrinárias.

É um lembrete da urgência de fazer reformas no ensino superior público brasileiro, hoje repleto de panfleteiros travestidos de professores que abusam do patrimônio público como se fosse parte dos cofres particulares do Partidão, esquema que já estaria sob investigação policial caso fosse feito em qualquer outra instituição federal.

As universidades públicas beneficiam uma minoria enquanto custam caro a todos. O mínimo a se esperar em troca é o respeito pelo sacrifício da sociedade e uma prestação de contas rigorosa que mostre excelentes resultados que justifiquem tal gastança. Se sobra dinheiro a ponto da mais picareta militância ganhar patrocínio institucional, é hora de fecharmos a torneira e nos focarmos no ensino básico.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.