OPINIÃO
14/02/2016 18:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Nova Hampshire: Trump vence e Cruz demonstra força

Donald Trump e John Kasich não tiveram sucesso em Nova Hampshire apenas porque suas mensagens eram atraentes ao eleitorado local: eles dedicaram notáveis recursos e tempo de campanha no estado. É uma conquista estratégica para o primeiro, mas apenas 15 minutos de fama para o segundo.

Na semana passada, o segundo estado das primárias republicanas foi às urnas decidir qual será a nomeação do partido para as eleições presidenciais de 2016.

Nova Hampshire é um estado bastante diferente de Iowa (cuja eleição abordei em artigo anterior). Enquanto o último é caracterizado por um eleitorado de traços conservadores e religiosos, o primeiro é tido como mais moderado e secular.

A dinâmica das primárias também é distinta: em Iowa, apenas filiados ao Partido Republicano puderam votar. Em Nova Hampshire, tanto republicanos quanto independentes podem participar do processo, algo que tende a fazer com que candidatos mais próximos ao centro tenham vantagem.

Ou seja, NH é um estado de terreno político fértil para Donald Trump, John Kasich e Jeb Bush, candidatos que possuem na sua agenda propostas centristas ou progressistas. É bom relembrar que a retórica explosiva de Trump não se traduz em conservadorismo. Os conservadores americanos são hostis à sua demagogia.

Outro candidato favorecido é Marco Rubio, que apesar de ter uma plataforma conservadora, possui retórica moderada, além de ter obtido um desempenho sólido em Iowa, figurando em terceiro lugar com 6% mais votos do que as pesquisas previam.

As escolhas do eleitorado

Os resultados de Nova Hampshire surpreenderam de as previsões de algumas maneiras. Em uma eleição conhecida pela volatilidade, a intenção de voto das pesquisas tem relevância reduzida, com os índices de rejeição e até a qualidade técnica de uma campanha tendo que ser levada em consideração.

Trump e Kasich não tiveram sucesso apenas porque suas mensagens eram atraentes ao eleitorado de Nova Hampshire: eles dedicaram notáveis recursos e tempo de campanha no estado. É uma conquista estratégica para o primeiro, mas apenas 15 minutos de fama para o segundo: Kasich não tem a militância, recursos ou logística necessária para se projetar fora de NH e Ohio, onde é governador. Seu oitavo lugar nas primárias de Iowa e incapacidade de figurar sequer em quinto nas pesquisas da Carolina do Sul falam por si.

Cruz é a grande surpresa da votação: com uma expectativa de baixo desempenho devido à divergência entre suas propostas e os valores da demografia estadual, o terceiro lugar mostrou a competência do senador texano e de sua campanha. Com Rand Paul, o candidato favorito dos libertários, fora da corrida pela nomeação, Cruz deu ênfase à sua defesa da Constituição americana e do livre-mercado. O fato de ter vencido em Iowa tendo a coragem de se opor aos subsídios do etanol, enfrentando o governador do estado e o cartel do combustível, foi uma façanha inédita nas primárias republicanas e um cartão de apresentação que lhe ajudou a conseguir o bronze inesperado.

Bush e Rubio foram decepções por motivos diferentes. O quarto lugar de Bush mostra a resistência neste ciclo aos candidatos associados ao establishment, a elite política que se perpetua em Washington. Em um estado conhecido pela moderação política, foi o candidato que mais gastou em campanha: US$36 milhões. Ter perdido para Cruz, que é conservador ferrenho e gastou 780 mil dólares, é um vexame. Bush conseguiu um voto a cada US$1200 investidos, Cruz a cada US$18. A inviabilidade do candidato é gritante.

Rubio, por sua vez, viu sua estratégia colapsar. Enquanto apostava que seu terceiro lugar em Iowa resultaria no segundo lugar em Nova Hampshire, e depois o primeiro em Carolina do Sul, a realidade preparava uma desagradável surpresa para ele. Tendo cometido uma gafe no debate dias antes da eleição, onde repetiu uma fala de forma quase robótica três vezes seguidas, ele foi alvo de intensa ridicularização dos rivais, da mídia e de militantes de ruas no último momento, algo que fez a sua perspectiva de ascensão acabar em um amargo declínio, ao menos por enquanto.

Carolina do Sul e além

O desfecho de Nova Hampshire deixa três perspectivas relevantes: Trump é capaz de se mostrar um vencedor fora dos palanques, Cruz é um candidato viável mesmo em condições desfavoráveis, e ninguém emergirá como o favorito dos moderados no curto prazo.

O bilionário precisa realizar uma vitória igualmente ampla na eleição da Carolina do Sul no dia 20, e levar o embalo para Nevada no dia 23. A urgência tem motivo: em 1º de Março, ocorre a chamada Super Tuesday, onde 14 estados realizam primárias simultaneamente. A maioria destes tem viés conservador, sobretudo os do Sul, com Ted Cruz sendo dotado não apenas de uma vantagem natural, como tendo investido vastos recursos e tempo de campanha neles. Caso Trump não se consolide rapidamente, pode estar em segundo lugar num piscar de olhos contra um Cruz ainda mais forte do que o que saiu vitorioso de Iowa.

O conservador provou que se sairá melhor na briga por votos libertários e moderados do que os representantes de sua bandeira política em ciclos passados.

O nível do jogo de Cruz na Carolina do Sul é bem diferente do que ocorreu na segunda disputa: assim como em Iowa, ele pretende desbancar Trump com uma engajada militância porta a porta e seu forte tour pelo estado, mostrando diretamente sua proposta aos eleitores de todos os distritos.

Tanto neste caso quanto em Nevada, o investimento é alto. Virar o jogo contra Trump antes da Super Tuesday o faria ter embalo decisivo para competir nos estados mais moderados que viriam a seguir.

Rubio tinha a oportunidade de vencer novamente Kasich e Bush na segunda eleição, firmando-se como o preferido entre eleitores mais pragmáticos. Seu fracasso dará ânimo revigorado para que os últimos dois permaneçam na corrida, apesar de ficar cada vez mais claro que eles não têm condições de vencer Trump em nenhuma demografia imaginável.

Com um eleitorado indeciso e mais candidatos pequenos saindo (Chris Christie e Carly Fiorina), a tendência é que as próximas pesquisas da Carolina do Sul apresentem números bem diferentes dos de janeiro.

As primárias democratas possuem um socialista e uma investigada do FBI se enfrentando, mas é a disputa republicana que contém o drama desta eleição presidencial.

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