OPINIÃO
31/01/2018 19:57 -02 | Atualizado 31/01/2018 19:57 -02

Marcia Tiburi encontra o fascismo no espelho

A filósofa não aborda as ideias de Kim Kataguiri, mas nega sua validade e as demoniza de pronto.

''O fascismo possui inegavelmente uma ideologia: uma ideologia de negação.Nega-se tudo (as diferenças, as qualidades dos opositores, as conquistas históricas, a luta de classes etc), principalmente, o conhecimento e, em consequência, o diálogo capaz de superar a ausência do saber.''

Trecho de "Como conversar com um fascista", de Marcia Tiburi

A fuga de Marcia Tiburi do debate na Radio Guaíba, na semana passada, e sua demonização de Kim Kataguiri expõem quão vazio é seu discurso de tolerância e anti-fascismo, contrariado pela forma como a militante age contra adversários políticos.

No vídeo se pode ver a tentativa de negar a legitimidade do opositor: Marcia diz fugir por estar com medo de uma pessoa ''perigosa''. Mas Kim tem vários debates similares a este, todos pacíficos. O único perigo possível para ela seria ter suas ideias testadas ao vivo.

Após o evento, Marcia fez uma carta aberta que é um exemplo ímpar da hipocrisia dela e da extrema-esquerda que apoiou seu ato.

Vale destacar alguns trechos para mostrar o abismo entre discurso e prática:

"Ao meu ver, debates que desvelam divergências teóricas ou ideológicas podem nos ajudar a melhorar nossos olhares sobre o mundo.

Tenho a minha trajetória marcada tanto por uma produção teórica quanto por uma prática de lutar contra o empobrecimento da linguagem, a demonização de pessoas, os discursos vazios, a transformação da informação em mercadoria espetacularizada, os shows de horrores em que se transformaram a grande maioria dos programas nos meios de comunicação de massa."

Pelo dito, espera-se que Marcia tenha profundo respeito pelo embate com a divergência e boas razões para evitá-lo, certo? Errado.

"Tenho o direito de não legitimar como interlocutor pessoas que agem com má fé contra a inteligência do povo brasileiro ao mesmo tempo em que exploram a ignorância, o racismo, o sexismo e outros preconceitos introjetados em parcela da população."

Marcia não aborda as ideias de Kim, mas nega sua validade e as demoniza de pronto. Como ela diz ser a prática do fascismo.

"Confesso que senti medo: medo de que no Brasil, após o golpe midiático-empresarial-judicial, não exista mais espaço para debater ideias."

A militante utiliza-se da narrativa do "golpe" para alegar que o impeachment criou um Brasil totalitário e apocalíptico. Mas o Brasil real difere do delírio de Marcia; ela não só foi convidada a um debate de ideias como ela foi quem não deu espaço para o debate acontecer.

Ela então nega novamente a legitimidade de Kim, dizendo que divulgadores como ele possuem um discurso pronto que:

"investe em produzir confusão a partir de ideias vazias, chavões, estereótipos ideológicos, mistificações, apologia ao autoritarismo e outros recursos retóricos que levam ao vazio do pensamento".

A Marcia fascista, que desqualifica sem parar, então alterna com a Marcia dita anti-fascista:

"Creio que é importante chamar ao debate e ao diálogo qualquer cidadão que possa contribuir com ideias e reflexões, e para isso não se pode apostar em indivíduos que se notabilizaram por violentar a inteligência e a cultura, sem qualificação alguma, que mistificam a partir de clichês e polarizações sem nenhum fundamento. O discurso que leva ao fascismo precisa ser interrompido."

O cínico convite ao diálogo desaba diante de uma sincera vontade de destruir a oposição, no mínimo, como participante digna de figurar no debate.

Marcia Tiburi esconde sua intolerância ao diferente com uma embalagem de defesa da pluralidade e da tolerância.

É a figura de extrema-esquerda que foge do debate quando sozinha e ataca pessoas quando em bando, a exemplo do que ocorreu nos últimos anos em lugares como a Universidade de Brasília e na Universidade Federal de Pernambuco.

Os ''fascistas anti-fascistas'' pensam que recuperarão sua hegemonia ideológica sob ameaças e agressões, mas essa ação é incapaz de parar a circulação de ideias.

Marcia é um tipo em extinção, que vive dos aplausos de verdadeiros bolsões de fanatismo vermelho que murcham pelo Brasil.

Tanto ela quanto suas tropas de fervor totalitário rejeitam conviver civilizadamente com seus adversários liberais e conservadores.

A verdade é que, na atual condição, não podem. Uma força política que apoia ditaduras brutais como as de Venezuela e Cuba não foi feita para ser polo de poder em nossa democracia, mas no máximo uma minoria excêntrica.

Ou Marcia e o resto dos militantes moderam sua visão e respeitam sinceramente a pluralidade, ou correrão o risco de verem a direita gradualmente dominar a discussão de ideias pelo simples fato de que está disposta a isso.

Afinal, é difícil conversar com fascista quando a fuga ao debate é tão rotineira.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.