OPINIÃO
18/02/2018 10:47 -03 | Atualizado 18/02/2018 10:52 -03

A Paraíso do Tuiuti desfilou os erros do 'Fora Temer'

A última coisa na agenda da Tuiuti é a luta contra a corrupção. Nisto ela segue à risca a postura do movimento que representa, com sua indignação seletiva.

NurPhoto via Getty Images
Paraíso do Tuiuti critica reforma trabalhista do governo Temer.

Bajulada pela militância petista, a escola de samba carioca Paraíso do Tuiuti mostrou no enredo "Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?" o fanatismo ideológico e cinismo político que explicam por que o presidente Michel Temernunca encarou manifestações populares tão grandes quanto o histórico movimento pelo impeachment deDilma Rousseff.

A agenda militante começa no próprio título do enredo: insinua-se que a fraca reforma trabalhista é a volta da escravidão. O desrespeito com a memória dos verdadeiros escravos, cujo sofrimento é banalizado ao ser nivelado com parcelar férias ou criar empregos de baixa carga horária, é gritante e sem escrúpulos.

Tal defesa rígida da CLT faz ainda menos sentido quando se nota seu fracasso: somos o país com os encargos trabalhistas mais altos do mundo, mas metade da nossa população não ganha nem um salário-mínimo. Nos 70 anos de vigor da lei trabalhista de Vargas, nunca a renda do trabalhador brasileiro foi invejada pelo mundo ou mesmo referência na América Latina. A vergonhosa CLT colaborou foi para mantermos nossas relações laborais engessadas por ideias ruins enquanto países como o Chile apostaram na liberdade econômica e num governo enxuto para ultrapassar nossos indicadores socioeconômicos.

A maior ironia é que a própria Tuiuti fugiu da nossa legislação antiquada, empregando só três trabalhadores pela CLT em 2017.

Em seguida o desfile deu nada mais que um cuspe na cara de milhões de brasileiros, retratando aqueles que foram às ruas pelo impeachment de Dilma como ''manifestoches'' controlados pela Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo).

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​​​​Ou seja, se manifestar contra uma presidente que mentiu para se reeleger, trouxe uma crise econômica sem precedentes e cometeu fraude fiscal para maquiar a situação do Brasil era estar mal-informado?

É uma tese tão furada quanto a que alega que os pró-impeachment foram ''trouxas'', mesmo que inflação e juros tenham caído e a criação de empregos subido após a deposição de Dilma.

A cereja do bolo, aliás, ficou para o final, com o ''Vampiro Neoliberalista'', ícone máximo do desfile da Tuiuti e crítica direta a Michel Temer.

Cabe apontar que Temer não foi chamado de corrupto, ladrão, mentiroso, bandido ou qualquer termo que remetesse à sua falta de integridade moral. A grande preocupação foi o suposto ''neoliberalismo'' de Temer, o que diz muito sobre a real indignação da Tuiuti.

Nas palavras do carnavalesco da Tuiuti, Jack Vasconcelos:

Muito disso tem relação com a troca de governo. Hoje somos oposição e antes éramos parceiros do poder e não podíamos arranhar a relação. Enredos mais críticos não eram incentivados. Agora com uma guerra declarada tem essa abertura maior.

É a mais eloquente descrição das grandes motivações por trás do Fora Temer: o corte de verbas públicas para categorias organizadas pró-PT e a adoção de reformas contrárias aos interesses do Partido dos Trabalhadores e da esquerda em geral.

A última coisa na agenda da Tuiuti é a luta contra a corrupção. Nisto ela segue à risca a postura do movimento que representa, também tendo baixa capacidade para disfarçar que sua indignação seletiva é pura ambição partidária. Seus protestos não mobilizam o povo por este simples motivo: os brasileiros sabem reconhecer e rejeitar pelegos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.