OPINIÃO
30/03/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Ah, como era boa a ditadura!

Todo mundo se esquece da porcaria da situação econômica que se vivia. Da situação catastrófica que foi se acumulando e piorando e que se estendeu por mais de 20 anos após o final do regime, tudo para pagar o tal do milagre econômico.

Quando se fala da ditadura atualmente, o assunto principal abordado é sempre a tortura, a censura, a repressão. A questão é que toda a violência perpetrada pelo regime militar não serviu para nada. Todo mundo se esquece da porcaria da situação econômica que se vivia. Da situação catastrófica que foi se acumulando e piorando e que se estendeu por mais de 20 anos após o final do regime, tudo para pagar o tal do milagre econômico. A imprensa atual tem sido muito maniqueísta e até nesse assunto ela mais desinforma que informa. Não admira que a situação atual lembre a de 64, pois a mídia toda mantém o mesmo matiz ideológico. Em termos de comunicação não há equilíbrio algum. Até pior que 64, naquela época havia ao menos um jornal (no Rio) com opinião diferente dos demais. De certa forma, sob este ângulo, ainda vivemos uma ditadura. Nestas circunstâncias, não é nada surpreendente que tenha gente querendo fazer a Marcha da Família e a pedir a volta de militares e, se a coisa continuar, de esquadrões da morte e outras demonstrações de cidadania e civismo.

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A questão que precisa ser lembrada é que o tal modelo econômico da ditadura deixou o Brasil em frangalhos. Quando se chega em 1981, a taxa de juros era da ordem de 150%, a dívida externa já era a maior do mundo e chegaria a quase US$ 100 bilhões no final do regime, e para pedir mais empréstimos (a única coisa que a ditadura sabia fazer para equilibrar as contas) era preciso se alinhar à política do FMI, o que significava uma opção pela recessão. Foi assim que o país alcançou uma situação inédita no mundo, alcançando um dos primeiros títulos no que diz respeito a estagflação (está reclamando da inflação de 6% ao ano?). A inflação que fora uma das razões para dar o golpe já era de três dígitos em 1980, a maior da nossa história e a que foi transmitida ao primeiro governo civil era de 270% ao ano e iria subir para a estratosfera nos anos seguintes (casa dos 2.500%), já que na verdade Sarney era um mero sucessor, não fora eleito pelo povo, tinha sido o presidente do partido do governo. E já que o dele, bem como todos os governos seguintes se mantiveram reféns do FMI e banqueiros internacionais e continuaram mais ou menos a mesma política econômica, a inflação atingiu níveis impensáveis, 2.500% e coisas do gênero (20 trilhões e setecentos bilhões de percentuais acumulados desde 1980. Recorde mundial de imposto indireto e concentração de renda - que foi a maior marca da ditadura). A indústria, apesar de todos os protestos e súplicas dos empresários, foi sistematicamente desmantelada (junto com estatais) neutralizando quaisquer avanços que pudessem ter sido obtidos na época do milagre. E nem precisa dizer que o desemprego explodiu. Os maiores beneficiários dessa dívida foram as multinacionais (sistematicamente beneficiadas durante o regime), que fizeram a maior parte dos empréstimos, que foram por sua vez estatizados e, portanto, pago por nós.

Era só fila no banco, fila nos postos de gasolina às vésperas de cada aumento (a importação de gasolina provocava uma sangria em dólares de uma monta inimaginável), gente desempregada, dá para imaginar o dia-a-dia. Outro fato inédito: a classe média saqueando os supermercados (tem uma charge aqui sobre esse fato). A classe média foi também favelizada. Pesquisas mostravam que grande parte dos favelados tinham tido nível de vida melhor antes. Dá para ver como algumas pessoas seguem o que a mídia fala sem o menor espírito crítico, sem procurar checar outras fontes para poder julgar. O fato é que aqueles empresários que apoiaram o golpe acabaram duramente golpeados por ele. Ninguém, em qualquer nível social, aguentava mais a ditadura. Não era à toa o tamanho dos movimentos como o das Diretas Já e crescente número de organizações presentes em todos os níveis da sociedade. Os militares queriam passar a batata cada vez mais quente que tinham nas mãos. O golpe entregou o país numa situação muito pior do que a anterior.

As charges acima foram feitas para o jornal Folha de São Paulo entre 81 e 84, os últimos quatro anos do regime e estão sendo reunidas num e-book que será lançado pela Cia. das Letras. São uma amostra e testemunho dos acontecimentos daquele período. Entre as selecionadas aqui, a maioria se refere ao que falei acima, a questões econômicas, a situação lamentável que o país foi forçado a atravessar e da qual parece alegremente se esquecer.

Mas há entre as charges duas que tocam ponto hoje relativamente pouco abordado. As forças da repressão que temiam a volta da democracia e consequentemente um possível julgamento pelos seus atos (percebe-se que não conheciam o Brasil...) iniciaram um processo terrorista, colocando bombas, ferindo, matando, destruindo aquilo que diziam defender, como a propriedade alheia, etc. Quando cometeram um erro que custou a vida de um deles, tudo se revelou, eram membros do Doi-Codi (órgão de repressão política). Isso apressou o final do regime, mas eles foram todos rapidamente inocentados por tribunais militares que assim o fizeram apesar de parte dos juízes estarem bastante hesitantes, e a votação final acabar apertada (nem parte dos próprios militares concordava!). Mas foram. Esses assassinos continuam impunes. Fala-se dos torturadores, mas o terrorismo prosseguiu depois da chamada anistia! São crimes posteriores. A impunidade perpetua as mazelas. Esse fato é emblemático do caso de toda a ditadura brasileira. A maioria das práticas e das excrecências continua enraizada e existindo em nossa sociedade. Que tal os membros de Judiciário que colaboraram das mais variadas formas com o regime? Quer dizer, dos que trabalharam contra o Estado de Direito? Contra aquilo que representam e continuaram impávidos? E isso, infelizmente, é apenas um dos exemplos.

Por fim, há também nessa amostra um caso sobre a guerra das Malvinas, lembrando o lado que o nosso grande irmão do norte tomou quando a ditadura por eles imposta (imposta não apenas à Argentina, mas à maioria dos países latino-americanos) entrou em guerra com um país do primeiro mundo - apesar do seu velho e propalado lema A América para os americanos!

O livro se chama Ah, como era boa a ditadura! Os dois principais personagens estão na primeira charge apresentada aqui. São eles: o 'presidente' Figueiredo, sentado, e ao seu lado, de pé com seus pimpolhos, o ministro Delfim Neto. Alguns momentos daqueles tempos idílicos.