OPINIÃO
27/01/2014 18:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Passar dos limites não é mais divertido

Mais uma noite qualquer em Santa Maria, Rio Grande do Sul. As meninas combinaram o ponto de encontro na casa de uma amiga em especial. O encontro é por volta das 21 horas. Lá, pretendem escolher sapatos, vestidos (ou quem sabe uma blusa e uma sainha?) e todas as possibilidades de maquiagens. Umas trocam seus apetrechos com as outras. Uma foto no espelho registrando o momento e desembocando reto em uma rede social e estão prontas pra mais uma noite de balada.

Na realidade este texto deveria começar diferente. Se formos analisar a situação exigindo (mas nem tanto assim) da nossa memória, não há como ser "mais uma noite qualquer" em Santa Maria e possivelmente em nenhuma outra cidade. O contexto é de jovens que estão programando uma balada. Fato cotidiano, natural e saudável da vida das pessoas. Porém, faz-se necessário aqui um momento de reflexão. Por exemplo: por que as meninas encontraram-se às 21 horas e não mais tarde? Sabidamente uma das amigas reforçou para as outras: "Se começarmos a nos arrumar tarde, pegaremos uma fila enorme e não conseguiremos entrar". Claro, a fila. O número de pessoas. O limite de lotação. A precaução de mãos dadas com a segurança.

Depois do incêndio da boate Kiss, na madrugada de 27 de janeiro de 2013, nenhuma próxima noite de balada deveria ser comum. O fato que ceifou a vida de 242 pessoas naquela noite e deixou sequelas físicas e psicológicas em tantas outras deve servir para alguma coisa. Enfatizando aqui que nem estamos levando em consideração outros acontecimentos semelhantes na história. Levanta-se então a questão: a tragédia da boate Kiss repercutiu diferente na conscientização das pessoas envolvendo o entretenimento noturno ou não?

Falo como ex-funcionário da boate Kiss e que, depois de um tempo de recuperação, mesmo nos bastidores, acabei acompanhando o processo e o dinamismo ocorrido na cidade de Santa Maria em relação aos bares, boates e festas noturnas e seus participantes. Depois de um breve tempo em que todos os locais decretaram luto e pararam de funcionar, tenta-se voltar à ativa e a cidade de Santa Maria -- universitária, recebendo pessoas de diversos locais e com uma forte característica de ser uma cidade com bastante entretenimento para os jovens -- precisa voltar à sua rotina. Os bares timidamente começaram a reabrir. As boates tiram a fachada de luto e tentam novamente voltar a funcionar. Não se sabia como seria, mas uma coisa era consenso: o que ocorreu deixou marcas suficientes para não poder se repetir.

Nas primeiras vezes nota-se escancaradamente a diferença: há placas em praticamente todos os bares exibindo um número -- a lotação máxima permitida de pessoas, para que, se necessário uma evacuação, seja feita de maneira que todas as pessoas possam sair em segurança. As estruturas físicas dos lugares também se mostram diferentes. Paredes foram derrubadas, portas adicionadas, sinalizações de saída reforçadas e diversos extintores de incêndio exibidos. Uma das boates em especial, antes da banda atração da noite começar a tocar, chega a passar em seus televisores, pedindo um minuto de atenção de todos os clientes, um vídeo explicando determinadas precauções para segurança (como ocorre quando vamos ao cinema e um vídeo é exibido antes do filme em cartaz). Parece estar tudo funcionando de maneira correta agora. Seguranças, equipes treinadas, os alvarás expedidos, a estrutura física dos locais, a maneira como se apresentam. Muitas pessoas ainda acostumadas com uma antiga rotina acabam ficando horas em fila e acabam por ir embora. Outras tantas mudam seus hábitos e preferem festas e reuniões em locais abertos ou simplesmente deixam de frequentar ambientes fechados. Alguns clientes entram, mas ficam em posições e locais estratégicos caso precisem sair rapidamente. Não é nada estranho perceber que determinado cliente está tomando sua cervejinha há duas horas como que com raízes fincadas muito próximas à saída.

Podemos dizer então que houve conscientização? Delicado responder essa indagação. O fato é que consideramos apenas um lado da questão que se apresenta de maneira muito mais complexa: a segurança proveniente dos locais que se frequenta. Porém, não existe bar ou boate para ser frequentado se não houver clientes. E quem são os clientes? Somos nós. Eu, você, nossos conhecidos, amigos e familiares. E cada um de nós tem sua própria subjetividade e seu modo de ser e analisar as coisas. Aí entra a complexidade. Entram os fatores não possíveis de serem mensurados a priori. Cada um de nós tem uma maneira de se posicionar frente às mudanças ocorridas e como vamos transparecer nessa nova realidade que se apresenta.

Vemos então, passado um ano da tragédia da Kiss, diferentes grupos: há os que mudaram totalmente seu jeito de se portar frente às possibilidades que a noite apresenta; há os que mudaram por um tempo, mas houve um certo tipo de "enfraquecimento" dos costumes e hábitos modificados que agora já nem parecem tão relevantes; e, por fim, há aqueles que impressionantemente parecem que não foram afetados em nada pela tragédia, como se nem soubessem da existência dela.

Vemos então na noite da cidade de Santa Maria e de todas as outras cidades do mundo os mesmos fatos se repetindo: grupos de pessoas que exageram na bebida e o álcool depois de uma determinada hora irá guiá-los sem uma correta percepção dos fatos; há pessoas que saem mal-intencionadas ou acontecimentos da noite mexem com seus nervos a ponto de resultarem nas convencionais "brigas de bar"; há aqueles que vão dirigir alcoolizados mas não deixarão de se sentirem seguros e não abrirão mão daquele lanchinho no final da noite antes do sono tão esperado. Enfim, há diferentes tipos de pessoas e diferentes comportamentos que irão se apresentar. Logo, a consciência é anterior a tudo isso. As festas que continuarão sendo vistas como "as que mais bombaram" serão as que estarão batendo no limite de lotação (ou quem sabe abra-se exceção só pra mais uma ou duas pessoas). As festas continuarão sendo para os jovens poderem beber sem o compromisso de zelar pela segurança, contanto que a diversão esteja em primeiro lugar. Ali naquele canto é aquela pessoa que está com minha ex-namorada? Bom momento para iniciar uma provocação e, se precisarmos rolar pista afora, vamos lá! Há muitas pessoas aqui dentro e o local está apertado? Bom, esfrega-se mais uns nos outros e sempre haverá pessoas que se aproveitarão da situação. Claro que, muito cuidado, isto é uma generalização. As festas não giram em torno disso e nem todas as pessoas que frequentam se comportarão dessa maneira. Mas um determinado grupo pode de alguma maneira se prejudicar dependendo de como escolher agir. Uma hipótese: por qualquer motivo, um local precisou ser evacuado e estava dentro de todos os limites permitidos e obedecendo todas as leis impostas. Mas houve aquele fulano que extremamente embriagado, estava vomitando com a porta do banheiro fechada no momento que se iniciou a saída. Este, praticamente sem conseguir ficar de pé, acabou ficando para trás. Culpa do local? Precisava ter um super-herói naquela boate ou bar que fosse resgatá-lo nessa situação?

Vejam bem, não entro aqui no mérito de quem é culpado, responsável, ou seja lá o que for. Eu estava no incêndio da boate Kiss e tenho a visão de quem precisou lutar pela própria sobrevivência. A questão que quero levantar é que existem muitos fatores envolvidos. Os locais precisam estar bem equipados e preparados para receberem seus clientes e proporcionarem as festas, mas os frequentadores precisam também se equipar de doses de conscientização e reflexão para determinadas possíveis situações. Nós, ao pagarmos para entrar em um local, estamos incluindo nesse pagamento nossa segurança lá dentro. Mas nós mesmos podemos em diversas ocasiões não estarmos seguros nem de nós mesmos, dependendo das escolhas ou atitudes que decidirmos tomar. Assim, com este pequeno texto, convido-os a refletirem por alguns minutos sobre nossos comportamentos e atitudes ao adentrarmos as diversões noturnas nas inúmeras possibilidades que nos apresentam.

Afinal, podemos nos divertir sem precisarmos chegar tão próximo dos limites, deixando o limite que não pode ser extrapolado apenas para o número de lotação máxima das casas.