OPINIÃO
12/02/2014 16:22 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Cinco coisas que aprendi morando fora

Arquivo pessoal

Acredito que a viagem não faz nada sozinha; não dá pra esperar que um deslocamento geográfico mude nossa vida por si só. Também acredito que nem é preciso ir muito longe pra abrir a cabeça; basta olhar com curiosidade pra o que está ao nosso lado. Ainda assim, o movimento entre fronteiras pode ser um excelente pretexto pra sair do eixo e repensar muita coisa. Deixar minha zona de conforto é um dos meus esportes preferidos: foi isso que me fez ir pra outro país cinco vezes nos últimos cinco anos e é isso que me faz querer sempre mais. Aprendi muito morando fora; coisas que podia ter aprendido aqui mesmo, mas que surgiram com muito mais força enquanto construía uma nova vida, ainda que temporária, em solo estrangeiro.

1. Aprendi a ser mais flexível em relação a coisas práticas.

A gente não precisa de tudo o que pensa que precisa pra viver. Nem as roupas, nem os eletrodomésticos, nem os cosméticos (que não cabem na malinha da Ryanair, hein?). A gente pode (e muitas vezes precisa, ao escolher outro país como morada) se adaptar a horários diferentes, comidas diferentes, costumes diferentes. Podemos aprender a viver sem as frescuras/manias/facilidades da vida com a qual estamos acostumados e constatar que toda a tralha que acumulamos durante a vida não é realmente necessária. Viajar com grandes exigências de conforto não está na minha realidade (nem eu quero que esteja), e viajar (ou viver) esperando que nada dê errado é absurdo. Encontrar problemas e se sentir desconfortável faz parte da vida e principalmente da experiência de viver fora da nossa zona de conforto. As coisas não precisam ser perfeitas pra gente ser feliz, viajar não tem que ser caro, perder um ônibus ou dormir num aeroporto não precisa ser ruim. É fácil perceber que em uma viagem, seja ela de poucos dias ou um ano, se você não relevar muita coisa vai aproveitar menos e se desgastar mais. O negócio é levar isso pra vida.

2. Aprendi a ter mais empatia por pessoas diferentes de mim.

Por um lado, vi que diferenças culturais são inegáveis e que alguns estereótipos como o "calor latino" (leia-se afetividade, contato físico etc.) são verdadeiros (passar o aniversário em Budapeste, sem ninguém do hemisfério sul por perto, foi a maior prova disso). Por outro lado, vi e sigo vendo cada vez mais que no fundo somos todos bem parecidos. Em relação a jovens ocidentais, que compartilham muitas das mesmas referências culturais, nem se fala. Mas até pessoas com um background bem diferente do seu podem ter muitas coisas em comum com você, já que o ser humano costuma estar em busca das mesmas coisas. E pra mim é bem legal ler alguma coisa sobre a Polônia, a Colômbia, o Chipre ou a Bósnia, por exemplo, e não ter apenas uma ideia abstrata do país e das pessoas, e sim a ideia daquele meu amigo querido que me contou em primeira pessoa sobre pedaços da sua realidade. Uma amiga comentou uma vez que ter um amigo próximo de uma cultura diferente é muito mais "útil" do que fazer cursos de "comunicação intercultural", e eu concordo. A ideia de fronteiras me parece cada vez mais absurda e ver que somos todos parte de uma coisa só traz um calorzinho pra o meu coração, além de tornar muito mais fácil se solidarizar com o que parece longe, né?

3. Aprendi que existem dois tipos de ignorância.

Já me irritei muitas vezes com pessoas que, ao ouvir que sou brasileira, faziam uma dança bizarra tipo "hummmm, caliente", cantavam a música de "Tropa de Elite" e falavam de drogas, perguntavam se aqui se fala espanhol ou me pediam pra sambar. Mas também já encontrei gente que, sabendo muito pouco sobre o Brasil, me fazia mil perguntas e se interessava por entender como as coisas funcionam além dos clichês. Eu sou a primeira a reconhecer que existe uma quantidade absurda de coisas que eu não sei sobre o meu país e muitos outros, e por isso mesmo não julgo alguém que se surpreende ao saber que não vivemos fazendo topless em Copacabana, desde que essa pessoa demonstre interesse em ultrapassar as noções pré-concebidas que ela tem da minha cultura. Redescobri que o chato não é não saber, e sim se acomodar à ignorância e aos estereótipos. Aprender juntos é a coisa mais linda e eu adoro quando encontro gente disposta a me ensinar.

4. Aprendi a pedir ajuda.

Isso foi especialmente importante enquanto vivi em Budapeste (e olha que tem lugares muito mais "exóticos"). Na Argentina, na Espanha e na França, onde havia morado antes, eu conseguia me comunicar na língua local. Além disso, antes mesmo de chegar nesses lugares já sabia como muitas coisas funcionavam -- ou achava que deveria saber e tinha vergonha de perguntar. Na Hungria, foi ao mesmo tempo limitador e libertador não saber a língua. Precisei contar com a ajuda de mil pessoas na rua, nos correios, no supermercado, no cinema, e tive que aprender a fazer perguntas "bobas" sem pensar duas vezes. E não é assim que tem que ser?

5. Aprendi que a vida é feita de muito mais possibilidades do que nossa rotina costuma sugerir.

Pra maioria dos meus amigos, nascidos numa capital em famílias de classe média, os caminhos parecem um pouco limitados por certas expectativas sociais. Morar pra sempre na mesma cidade onde nasceu, trabalhar com algo bem convencional e planejar uma vida parecida com a dos pais, por exemplo. Não há nada de errado com isso se é o que você quer fazer, mas conhecendo muitas pessoas de "círculos" totalmente diferentes dos meus (o que não acontece com frequência na vida recifense) acabei me deparando com padrões e estilos de vida diferentes. Encontrei também mil histórias de vida inspiradoras, de gente que foge às regras, cria algo pra si mesmo, tem sede de mundo e de contribuir além das suas fronteiras; gente que sonha alto e corre atrás dos sonhos. E a melhor parte é perceber que essas pessoas podiam (podem!) ser eu ou você.

No fim das contas, aprendi que é possível aprender muito se a gente der uma balançada nas coisas, der mais valor a toda experiência nova e olhar pra o outro com mais cuidado. E você, aprendeu o quê se jogando pelo mundo?

(Texto publicado originalmente no blog Janelas Abertas)