OPINIÃO
28/02/2014 08:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Carnaval de Olinda e Recife: pequeno guia de sobrevivência

Por fim, está chegando a época do ano que mais dá orgulho aos pernambucanos. O carnaval mais multicultural, mais barato e mais suado desse Brasil. É a época de tirar o saco de fantasias do fundo do armário e ir no Centro comprar os adereços que faltam. De vestir roupas coloridas, encher o cabelo e o rosto de glitter, separar aquele tênis que você não se importa de jogar fora na quarta-feira de cinzas e buscar na gaveta o celular velhinho de guerra que servirá de dublê do seu aparelho oficial. De seguir blocos involuntariamente, levado pelo ritmo da multidão, e desviar ou se aproveitar dos jatos d'água das crianças com pistolas de plástico.

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Tomar cerveja quente numa "camisinha" forrada com chita, sair embaixo do dragão do Eu Acho É Pouco, ir até o chão no ritmo do pó-pó-pó-pó umas oito vezes por hora, rir com a criatividade das fantasias, batucar numa alfaia imaginária no ritmo do maracatu. Sair de troça em troça - porque que grupo de amigos não tem uma? -, subir ladeiras que parecem sem fim (misericórdia!), fazer amizades da vida toda com estranhos, dar início a fulminantes paixões eternas que duram o tempo de dois versos de frevo, dançar ciranda com desconhecidos...

E depois do dia de sol em Olinda, juntar forças para recomeçar à noite, lá no Recife Antigo. Disputar um lugarzinho pra ver um dos shows gratuitos - que são iguais aos do ano anterior, e aos do ano antes dele, mas o bom não é isso mesmo? - e terminar a noite (ou começar o dia, se você for dos fortes) sentado na sarjeta comendo um espetinho/escondidinho/insira aqui uma comida de rua delícia.

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A atmosfera que se forma durante esses dias é tão incrível que mesmo eu, que nunca fui carnavalesca de carteirinha, me emociono só de pensar. Por isso, se você gostar de farra e quiser conhecer de perto boa parte da cultura das bandas de cá, recomendo muito uma carnavalizada por Recife e Olinda. Dificilmente você vai encontrar festa igual por aí. Mas verdade seja dita: é preciso uma boa dose de disposição e estratégia pra curtir a festa ao seu máximo e chegar à quarta de cinzas inteiro. Por isso, seguem algumas informações básicas pra quem vai vir pela primeira vez por aqui. Aceito de muito bom grado sugestões de conterrâneos e visitantes costumeiros pra ampliar a lista!

Como funciona:

Você é totalmente analfabeto em termos de carnaval RecifOlindense? Pois saiba que nosso maior orgulho é ter uma festa mega democrática, com centenas de atrações gratuitas dia e noite, pra todos os gostos - com o perdão do clichê. Por aqui, a gente brinca que depois do Natal, já é carnaval. Desde janeiro, o calendário de prévias começa a se encher, com farras mil se antecipando à festa oficial. Para mim, essa é uma das melhores partes, já que nada fica tão lotado e está todo mundo tão ansioso que a animação bate recordes.

Mas o início oficial mesmo é no Sábado de Zé Pereira, com o Galo da Madrugada, registrado no Guiness como maior bloco de carnaval do mundo, que costuma reunir uma média humilde de 2 milhões de pessoas no centro do Recife (nem me venha com essa de "Cordão da Bola Preta", que nosso recorde é oficial e com pernambucano não se brinca). Tem mais informações sobre o Galo aqui.

Megalomanias à parte, confesso que só de pensar nessa multidão toda me dá claustrofobia, mas se você for que nem eu, não se preocupe: Olinda também ferve nesse dia, de manhã até a noite, assim como nos dias seguintes. Uma parte bem icônica do carnaval de Olinda são os desfiles de bonecos gigantes, que são carregados nos ombros do pessoal e rodopiam ao ritmo do frevo. O mais famoso (que na verdade é considerado um "calunga" pelos carnavalescos) é o Homem da Meia-Noite, criado em 1932, que sai pelas ladeiras da Cidade Alta no bloco de mesmo nome. Para saber mais sobre os mil blocos que sobem e descem as ladeiras da cidade alta, fique de olho no site oficial do carnaval de Olinda.

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A partir do fim da tarde, a vibe é o Recife Antigo, a parte mais histórica e lindinha da capital pernambucana, que se transforma nessa época. São vários palcos - o maior deles no Marco Zero, que sempre recebe atrações de peso como Lenine, Nação Zumbi, Alceu Valença e Elba Ramalho -, muito confete e serpentina e gente feliz (e/ou bêbada, é claro) para todo lado.

Para quem quer curtir algo mais "alternativo", uma boa opção é conferir os palcos descentralizados, que se espalham pela cidade, dando a oportunidade da galera de várias áreas curtir a festa pertinho de casa. E tem também muitas opções diurnas e mais tranquilas, algumas delas voltadas pra crianças. Para conferir todas as atrações que estarão distribuídas em 63 polos pelo Recife em 2014, acesse a programação completa.

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E agora as dicas básicas de sobrevivência:

  • Aprenda os principais frevos, marchinhas e demais músicas carnavalescas. Depois de ouvi-las umas 58 vezes por dia, é possível que você decore-as de todo jeito, mas é legal começar a festa já cantando junto com o pessoal. Aqui tem alguns exemplos, da lindona "Hino do Elefante" a clássicos como "Madeira que Cupim não Rói".
  • Use roupas confortáveis e um sapato fechado, confortável e não muito amado - afinal, ele provavelmente vai terminar o carnaval destruído.
  • Se alimente bem antes de sair de casa, porque beber de barriga vazia não dá, mas evite alimentos pesados.
  • Guarde o dinheiro dentro da roupa, em uma doleira (aquelas mini pochetes que ficam por dentro da calça) ou algo do tipo. Tente levar notas pequenas e se possível distribua o dinheiro em mais de um lugar. Vai que você pega uma nota de 5 pra pagar uma cerveja, deixa cair o resto e não percebe? O álcool faz dessas coisas... (Conselho baseado em fatos reais)
  • Leve também alguns itens emergenciais, que podem ir numa bolsa pequena a tiracolo, como bem indicou a leitora Geraldina: "prendedor de cabelo, lencinhos de papel (porque os banheiros podem oferecer uma ingrata surpresa), pente, protetor solar e algum dinheirinho trocado para não ficar abrindo a doleira o tempo todo. Na doleira, além dos 'dólares', um documento de identificação e a carteirinha do plano de saúde".
  • Leve um celular velhinho, se possível. Perder o iPhone entre um espreme-espreme e outro não vai ser o ponto alto do seu dia.
  • Não esqueça o protetor solar! "Já saia de casa com ele e se possível, leve pra retocar, a não ser que queira terminar o dia fantasiado de camarão!", indica a leitora Helga Vasconcellos.
  • Dê preferência ao ônibus na hora de se locomover. Fora as linhas comuns, há um sistema de ônibus especial pra o Carna, o Expresso Folia, que vai de shoppings da cidade até o Recife Antigo e depois volta, em várias viagens por preços módicos. E a novidade para 2014 é o Expresso Galo, que leva ao Galo da Madrugada nesse mesmo esquema.
  • Se estiver vindo de fora, o ideal é arrumar um pernambucano folião pra lhe guiar pela melhor parte da folia, especialmente em Olinda. Se isso não for possível, não se preocupe: não vai faltar gente disposta a lhe ajudar a chegar nos lugares, nem blocos pra você seguir onde quer que esteja.
  • Tente sair de casa cedo, com seu grupo já unido, e evite procurar amigos por lá. Tentar encontrar gente no meio da multidão, principalmente em Olinda, é receita pra estresse.
  • Combine um ponto de encontro com seu grupo, pra o caso de alguma ovelha se desgarrar do rebanho. Seu celular pode não funcionar, ou seus amigos podem não ouvir suas chamadas. Melhor não dar chance ao azar.
  • Evite andar contra o fluxo dos blocos. É mais fácil esperar que ele passe ou, é claro, entrar na onda e acompanhá-lo, como lembra a leitora Leilane.
  • Beba muita água, especialmente durante o dia em Olinda. Vai ser muito sol no quengo (cabeça, hehe), muita ladeira, muita cerveja (que desidrata, né, gente!), muita dança... Não tem a menor graça passar mal na folia, né?
  • Se for beber cerveja, divida sempre com um amigo, em vez de beber uma lata sozinho até o fim. É preciso estratégia para driblar a impressionante rapidez com que o suco de cevada esquenta nessa ocasião, especialmente com a moda de latões. Outra dica é comprar uma "camisinha" ou "burrinha", aquele envoltório de isopor que dá uma segurada na temperatura - e que nessa época vem até vestido de bumba-meu-boi com chita.
  • Você provavelmente vai se deparar com bebidas de nome e aparência estranhos como "axé de fala" e "jurubeba". Ambas são feitas de cachaça, sendo a primeira produzida artesanalmente e misturada a vários tipos de ervas. Sem esquecer do clássico Pau do Índio, cuja receita secreta é produzida nas ladeiras olindenses há algumas décadas. São todas bebidas doces e fortes, então fica o alerta: consuma por sua conta e risco!
  • Cerveja + cerveja + jurubeba + axé + água... já sabe: apesar do suor, vai bater vontade de ir no banheiro algumas vezes. O leitor Amaro deu uma dica: "ao se deparar com um razoavelmente decente, use-o (mesmo que não esteja morrendo de vontade). Na hora do desespero, o tempo na fila pode virar uma eternidade..." Este ano, vai ter uma novidade tanto em Olinda quanto no Recife: um banheiro químico pago, que se higieniza automaticamente após o uso. Mais informações aqui.
  • No Recife Antigo, um ponto de apoio interessante é a Central do carnaval. Esse ano, um dos polos da Central vai ficar no Cais do Armazém 12, às margens da Praça do Marco Zero. Nele, tem restaurantes, lanchonetes, caixas eletrônicos, fraldários, banheiros, pontos de informações ao turista e estande de achados e perdidos.
  • Se estiver em casal, tente não se estressar com as prováveis investidas de muitos membros do sexo oposto - ou do mesmo sexo, é claro - em direção ao seu/à sua respectiv@. Carnaval não combina com ciúmes e aperreio!
  • Se a instiga deixar, tente sair de Olinda um pouco antes da animação toda acabar. No fim da tarde e começo da noite, muita gente vai embora ao mesmo tempo e pode ser difícil pegar ônibus e táxi. À noite, o porcentual de bêbados por metro quadrado será altíssimo e pode rolar confusão.
  • Tome cerveja, abrace seus amigos, pule, dance, grite e seja feliz.

As fotos que ilustram o post são do fotógrafo Igo Bione.

(Esse post foi publicado originalmente no blog Janelas Abertas)