OPINIÃO
04/12/2014 15:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O Chaves nosso de cada dia

No livro que escrevi com Fernando Thuler e Paulo Franco, "Chaves: Foi Sem Querer Querendo?", o objetivo era decifrar, com uma série de causas, motivos, razões ou circunstâncias para o sucesso de Chaves, especialmente no Brasil. Treze anos depois, confesso que ainda não sei qual a resposta definitiva.

Reprodução/Youtube

No livro que escrevi com Fernando Thuler e Paulo Franco, Chaves: Foi Sem Querer Querendo?, originalmente publicado em 2005, o objetivo era decifrar, com uma série de causas, motivos, razões ou circunstâncias para o sucesso de Chaves, especialmente no Brasil. Treze anos depois, confesso que ainda não sei qual a resposta definitiva.

É admirável e justa o tamanho da comoção em torno da morte de Roberto Gómez Bolaños aqui no Brasil. Mas é também bastante curioso. É raro ver algo assim por um artista que não é local. Depois do futebol, Chaves é a maior e mais forte união entre os povos da América Latina. O Brasil viu o seriado Chaves sempre com a mesma idade, sempre do mesmo jeito. Pela distância física, pela dificuldade de acesso a informações de antigamente, ou até por descaso mesmo, nosso país viveu boa parte dos anos 1980 e início dos 1990 sem saber como estava a vida de Bolaños e sua turma. Não à toa, existiam tantos boatos sobre como eles estavam após as gravações.

Bolaños é um eterno privilegiado, sem concorrentes em nenhuma esfera no humor brasileiro. Simplesmente por ter o dom da vida eterna. Não envelheceu aos nossos olhos, como vemos diariamente com um Jô Soares ou um Renato Aragão. Nunca sofreu com crises criativas, fofocas, altos e baixos. Sempre esteve intacto, íntegro, na telinha da TV.

Claro que "Os Trapalhões" ou qualquer humorístico nacional também poderiam ser vistos na TV hoje em dia. Mas não são. E aí é que está o grande diferencial da turma mexicana.

Tantos anos de exposição e reprises provocaram um elo de ligação perfeito entre gerações distintas. Uma criança em 1984 viu o mesmo episódio que foi ao ar hoje. Nenhum outro programa conseguiu fazer isso no Brasil - quem mais chega perto são os desenhos clássicos do Pica-Pau, mas sem fazer sombra do herói latino. Os seriados de Bolaños tiveram a felicidade de chegar inteiros a geração conectada - primeiro a geração Y, agora os millenials. Isso significa que, da esfera televisiva, a pobre vila mexicana alcançou um novo panteão ao alçar a era digital. O SBT, maior representante do programa no Brasil, quase uma Televisa brasileira, sabe que já não é mais o dono do seriado: tem de se contentar em exibi-lo na TV aberta, sabendo que canais pagos farão o mesmo e, mais importante, fãs poderão assistir em serviços como Netflix ou em qualquer canal de vídeos na internet ou fórum.

Mas o SBT não vai abrir mão de Chaves mesmo assim. Sim, Chaves se tornou um curinga na programação da emissora, isso é conhecido por muita gente.

Mas é muito mais que isso.

Chaves está tão enraizado à vida dos brasileiros por causa das reprises no SBT que, hoje, qualquer pequena ameaça da emissora de retirar o seriado de sua grade de programação causará um grande problema. Não é exagero dizer que, ao reprisar Chaves à exaustão, o SBT resolveu um problema, mas também criou outro: sua imagem está veiculada em seu âmago com o menino do Barril.

Ninguém sabe o que irá acontecer no dia em que Silvio Santos - outro gênio - nos deixar, mas se nesse dia a emissora decidir quebrar vínculos e romper com o Chaves, é bom que estejam preparados para uma revolução em seus portões na Anhanguera.

Existe uma máxima no mundo da TV que perdura até hoje - a produção televisiva ideal deve reunir três fatores, algo quase impossível de ser feito: qualidade, audiência e publicidade. Um programa na TV Cultura, por exemplo, pode receber boa crítica, mas não vende e nem gera público. Um BBB vende milhões e tem boa audiência, mas é altamente criticado pelo conteúdo. E, claro, quem mais se aproxima dessa façanha é Chaves. Resiste ao tempo das TVs de LED e tela curva, mesmo com a transmissão absolutamente datada. Nada disso importa. Contanto que a dublagem continue igual, as piadas sejam as mesmas, o humor siga intocado, Chaves sempre terá um lugar cativo na nossa audiência - na TV, no smartphone, na nuvem, ou em qualquer nova tecnologia que surgir.

Quando soube da morte do incomparável Bolaños, pensei em que tipo de homenagem prestar. Pois não há melhor maneira de homenagear Bolaños do que assistir Chaves, mais uma vez. Nada muda em relação a isso. Ele continuará tocando nossos corações, nos trazendo memórias afetivas inúmeras. Sim, estamos abalados agora, mas esse sentimento nunca irá superar as incontáveis horas que passamos - e passaremos - rindo e nos emocionando com a pequena vila mexicana.

Vejamos o vídeo abaixo mais uma vez - eu sei que vou chorar de novo. Obrigado, Chavinho. Prometemos nos despedirmos; sem dizer adeus, jamais.

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