OPINIÃO
14/06/2018 01:21 -03 | Atualizado 14/06/2018 01:21 -03

Torcer ou não pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo?

Já ouvi muito a seguinte afirmativa: "Não compro ou coloco a camisa amarela da Seleção por causa do golpe".

Paulo Whitaker / Reuters
Milhares de brasileiros foram às ruas contra Dilma Rousseff e o PT usando a camisa da Seleção.

Ultimamente, tenho lido pelas redes sociais uma série de "argumentos" para justificar uma não-torcida pela Seleção Brasileira na Copa da Rússia. Em resumo, eles giram em torno desses três:

1. "A Seleção perdeu sua identidade com o brasileiro."

2. "Não compro ou coloco a camisa amarela da seleção por causa do golpe."

3. "Seleção da CBF corrupta só leva jogador de empresários."

O primeiro e mais profundo remete a uma questão sociocultural, na verdade engessada num pensamento do século passado. Não existe mais "identidade" e sim "identidades". A pós-modernidade nos flexibilizou ao ponto em que eu posso ser brasileiro, mas sentir-me torcedor de um clube europeu. Logo, a geração dos millenials pouco se importa com essa "identidade nacional", ela está ali para ver juntos Neymar do PSG, Coutinho do Barcelona, William do Chelsea e Gabriel Jesus do Manchester City; e acreditem, esse é o sonho dos brasileirinhos torcedores também da seleção belga.

O segundo argumento atesta falta de memória. Não comprar ou usar a camisa amarela da Seleção porque as pessoas a utilizaram em manifestações políticas mostra uma falta de entendimento histórico. Desde que a canarinho começou a ser usada, ela tornou-se um instrumento político por meio do futebol. A extinta Confederação Brasileira de Desportos (CBD) tratou de trazer a "amarelinha" para o lado do governo com Pelé e cia em 1970; ou já esqueceram que o orgulho de sermos os únicos tricampeões teve como pano de fundo o período da ditadura? Assim, não vestir a camisa canarinho devido às manifestações atuais é tirar a historicidade do que ela representa. O "certo" nesse caso seria você nunca tê-la vestido e sequer ter cogitado tornar-se um torcedor de futebol — um esporte capaz de unir uma nação ou destruí-la.

O último argumento listado até parece piada. Ele une a falta de entendimento histórico com uma completa alienação do que é o futebol atual. A dona do futebol, a Fifa, ainda busca limpar sua imagem diante dos casos de corrupção que levaram à queda do seu presidente, Joseph Blatter, em 2015. Ele foi o sucessor do brasileiro João Havelange; juntos, orquestraram o atual modelo comercial-político do futebol em que os direitos de transmissão da Copa do Mundo e a escolha do país sede tornaram-se uma máquina de fazer dinheiro.

Os seus afiliados (confederação, clubes etc) apenas seguem o modelo em nível nacional que inclui a valorização de atletas (ativos do clubes) ao vestir a camisa da seleção. Portanto, ou você abandona a torcida pelo seu clube, ou aprende que os "empresários" com licença Fifa e contatos na CBF (Confederação Brasileira de Futebol) são quem faz essa máquina chamada futebol girar.

Então, não querem torcer para o Brasil na Copa do Mundo? Sem problemas, ninguém é forçado a torcer. Mas selecionem melhor os argumentos. E olha, há vários. Por exemplo, manifestações homossexuais são proibidas na Rússia e no próximo país-sede, o Catar, em 2022; e o legado da Copa de 2014, para o Brasil, foram um 7 a 1 em todos os quesitos.

Entretanto, se você olhar bem no fundo, irá perceber que a Seleção Brasileira ou seu clube do coração são apenas a ponta do iceberg de tudo que há de ruim (e bom) no esporte profissional. E mesmo que os brasileiros abandonem a Seleção, ainda haverá uma legião de torcedores dos jogadores que vestem a camisa canarinho espalhados pelo mundo e que sustentarão essa "paixão".

Eu irei torcer para a Seleção Brasileira ganhar o hexa, assim como torço todos os dias para que as discussões sociais e políticas se tornem um hábito salutar no nosso cotidiano.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.