OPINIÃO
26/11/2014 13:13 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

A autonomia do esporte é o fim da malandragem brasileira?

Será que agora teremos que nos submeter a um "país chamado esporte", com "valores universais" e regras independentes? Por exemplo, seria o fim da "malandragem" do atleta brasileiro no esporte?

Bob Thomas via Getty Images

Eu tenho sido um pouco relutante em escrever sobre o assunto, mas confesso que ainda não consegui digerir essa "independência e autonomia do esporte" reconhecida pelas Nações Unidas. Será que agora teremos que nos submeter a um "país chamado esporte", com "valores universais" e regras independentes? Por exemplo, seria o fim da "malandragem" do atleta brasileiro no esporte?

Todos os meus estudos se baseiam na ideia de que o esporte não é independente e/ou autônomo. Muito pelo contrário, se um dia eu realizar um estudo em que o esporte é autônomo e independente do seu tempo e das pessoas que vivem lá, ele não terá nenhuma relevância científica. Então o paradigma "esporte autônomo e independente" não existe nas ciências humanas.

Isso porque o esporte é fruto das pessoas que o fazem e refletem a sociedade em que está inserido. O Barão de Coubertin re-inventou os Jogos Olímpicos baseados no imaginário grego que a europa escavava no século 19. As regras do fair play (jogo limpo), foram baseadas nas noções do "ser nobre" da sociedade inglesa. E assim, com a colonização dos países, o "esporte ocidental" se espalhou pelo mundo.

Contudo o que fez o "esporte" ser reconhecido nos países onde ele foi se introduzindo, é o fato de que ele se misturou com as diferentes "culturas" locais. Com a atual globalização esportiva, é bem verdade que estamos vendo diferentes "culturas esportivas" ficar cada vez mais "universais" - um produto de mercado.

Nesse sentido, a Copa "do Mundo" de futebol foi no Brasil, mas não foi um "produto brasileiro". E é esse jogo de palavras e idéias, que vêm sendo explorado para vender esse produto. Porém o prestígio de receber algo "universal" deixou de ser um grande atrativo. A máscara econômica dos "eventos esportivos universais" se revelou para a sociedade ficando cada vez mais difícil "vender" esse "esporte".

Mas então é somente esse esporte-produto que as Nações Unidas fizeram autônomo? Parece que não. A idea é realmente fazer "esporte" acima de qualquer lei, ou melhor, com suas próprias leis. Assim, essa declaração atinge níveis políticos, sociais e culturais.

Dessa forma, quando as Nações Unidas - leiam bem, "nações" "unidas" - declara o esporte como "autônomo", tem o mesmo sentido de quando declarou Kosovo um país independente? Se naquela época alguns países foram contrários à idéia (Brasil por exemplo), porque agora devemos aceitar o esporte como "autônomo"? Como no caso de Kosovo, isso pode ser visto como uma "ação política".

Política porque o esporte não é uma entidade, muito menos um país. Esporte não deve ser regulado por um grupo de pessoas ou uma instituição. Poderia eu ou qualquer outra pessoa decidir a "natureza do esporte"? Esporte é um "meio", não um "fim". Como a própria UNESCO - uma agência das Nações Unidas - se compromete a fazer: esporte como um meio para as sociedades melhorarem suas condições de vida.

Bem, "esporte" é um termo genérico para práticas físicas regulamentadas por instituições para se competir dentro de um mesmo conjunto de regras. Mas "valores esportivos", não são "valores institucionais" e não podem ser regulamentados. Primeiro porque "valores sociais", ou seja, valores sócio-educativos que são transmitidos dentro de uma determinada cultura, não são "produtos" exclusivos do esporte. No esporte esses "valores sociais" são refletidos, não produzidos.

Assim, se sairmos da esfera "esporte de alto-rendimento", a "sentimento de justiça" numa pelada entre alguns amigos, não está baseado no sentido universal de fair play criado na Inglaterra, mas sim na interpretação de fair play criado entre os amigos, que jogam numa determinada cidade e que tiveram um determinado nível sócio-educacional.

Então, mesmo que o esporte seja autônomo e uma instituição determinar quais são os "valores esportivos", eles nunca serão "valores esportivos absolutos". Eles sempre irão precisar de adaptação ao contexto. Senão vamos voltar a discussão do esporte como um produto europeu-ocidental usado para colonizar e que pouco absorveu os valores de outras culturas - como por exemplo, a filosofia oriental.

Avançando na discussão, vamos chegar na idéia de "instituições esportivas autônomas e independentes" do governo que estão inseridas. Para quem já leu Jean-Loup Chappelet - estudioso sobre governança no esporte - sabe que essa foi uma estratégia das instituições esportivas para se auto-regularem, mas que quase nunca funciona na prática. É impossível afirmar que todas as instituições esportivas do mundo não possuem interferência governamental e política.

Partindo desse princípio, se o esporte é agora autônomo, como uma instituição que não é autônoma pode regulá-lo? As dificuldades vão além. Os membros dessas instituições também devem ser autônomos. Mas vira e mexe, um caso de corrupção aparece entre eles. Por que? Porque existem interesses políticos e econômicos no esporte.

Dessa forma, como a "autonomia do esporte" pretende lidar com isso? Irá mandar os corruptos para a "prisão esportiva"? Vale lembrar que mesmo sendo os patrocinadores esportivos empresas privadas, elas pagam impostos em um determinado país e estão sob jurisdição do mesmo.

Para concluir, vou relembrar o que faz eu e você ser apaixonado por esporte: cultura. Se o local onde você vive e a sua família não possui uma "cultura esportiva", você não entende ou gosta de esporte. Torcer para um atleta ou equipe só é possível quando você sente que eles representam você. Tudo isso só é possível, quando o esporte não é algo "autônomo e independente", pelo contrário, é baseado numa identidade cultural local.

Por mais que algumas instituições tentem fugir dessa noção, a audiência que paga os grandes eventos esportivos quer torcer por atletas que representam o seu país, sua identidade cultural. Então as Nações Unidas podem reconhecer o esporte como autônomo para algumas instituições se apropriar dele. Mas se houver mudanças significativas nessa "fórmula esportiva", essas instituições correm o risco de perder (ainda mais) sua audiência.

Assim, bom ou mau, a "malandragem" do atleta brasileiro no esporte, reflete a "malandragem" do brasileiro na sua árdua tarefa de sobreviver no dia-a-dia. Essa é a nossa "cultura", que tem base nos "valores" da nossa sociedade. Acabar com esse traço cultural, somente no esporte, é impossível. Acabar com o esporte como reflexo da sociedade, também.

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