OPINIÃO
28/01/2014 19:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Para começar do começo

Para explicar a ação da Prefeitura de São Paulo na região da Luz, ocorrida neste mês de janeiro, é preciso contar a história do começo. Na rua Helvétia, quase esquina com a Alameda Dino Bueno, centro da região conhecida como cracolândia, funcionava um equipamento da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, para atendimento de famílias, mas que estava sem frequência nenhuma, pois estas há muito tinham sido espantadas pelo fluxo da droga. Diante deste fato, a gestão municipal entendeu que aquele deveria ser um espaço da Secretaria de Saúde. A princípio pensou-se em um Centro de Atenção Psicossocial - CAP álcool e drogas, mas uma avaliação mais cuidadosa nos fez ver que, diante da gravidade do quadro consolidado, um CAP naquele lugar seria de pouca valia. Percebemos que o primeiro passo era estabelecer um vinculo entre aquelas pessoas e o poder publico, tarefa difícil depois das últimas ações na região, responsáveis por graves confrontos entre usuários e Estado. Iniciamos assim um trabalho coordenado pela saúde, mas com participação das demais secretarias. O objetivo inicial era atrair os usuários de crack e outras drogas para dentro do espaço. Para isso oferecemos, além do atendimento da saúde e assistência, atividades de esporte, cultura e... sopa, água, chocolate, e um lugar seguro para eles deitarem no chão e dormirem.

No inicio, não foi ninguém. Ao contrário, eles se afastaram da frente do equipamento. Aos poucos, foram ficando curiosos e, em 2 meses, a saúde tinha o registro de mais de 400 usuário fidelizados, o que significa que apareciam por lá em algum momento do dia, para buscar ajuda ou apenas para comer, dormir, conversar, ou jogar basquete na rua com a Guarda Civil Metropolitana. Foi em uma roda de conversa que se discutiu como deveria se chamar aquele lugar, e eles resolveram que deveria ser "De Braços Abertos". Era isso, eles tinham assimilado exatamente o movimento querido pela Prefeitura de São Paulo, atraí-los sem exigência alguma, de braços abertos.

Vencida a primeira etapa, de construção do vinculo de confiança, era hora de avançar. Demos início então as conversas com as lideranças locais, para saber o que eles queriam, que proposta seria atraentes para ajudá-los a superar o vício. E eles pediram: local para ficar e trabalho.

Assim, coletivamente, constituiu-se o segundo passo: "De Braços Abertos" deixou de ser apenas o nome de um equipamento para ser um programa de combate ao uso do crack por meio da reinserção social e acompanhamento da saúde.

Foi assim que, no dia 14 de janeiro, começamos, junto com eles, a desmontar as barracas que ali estavam e encaminhá-los aos hotéis da região. Em contrapartida à vaga no hotel e três refeições por dia, o compromisso de trabalhar na varrição de ruas e praças por 4 horas e participar de capacitação por 2 horas diariamente, com a remuneração de R$ 15,00 por dia trabalhado.

Em três dias, 147 barracos desmontados. Sem uma ocorrência policial. E mais importante que isso, uma adesão muito maior do que a esperada no primeiro dia de trabalho. Uniformizados, eles compareceram orgulhosos ao local combinado.

O programa não tem um mês, e os desafios são imensos, mas já percebemos mudanças sensíveis de comportamento em alguns dos integrantes. Eles sabem que não são mais invisíveis. Tem onde dormir, o que fazer e estão sendo supervisionados. Quem é enxergado se comporta melhor. Quem é tratado dignamente, responde a altura. Acreditamos que só assim, com condições mínimas de dignidade, eles desejarão tratamento e mudança em suas vidas.

É nisso que essa gestão municipal acredita e aposta. Começamos do começo.