OPINIÃO
28/03/2016 17:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Para ser um bom líder, esqueça o tal do 'carisma'

É bem verdade que liderança não é para todos, mas na medida em que questionamos a atribuição divina da liderança nos sensibilizamos para o fato de que os atributos da liderança são bem mais humanos; não necessariamente fáceis de serem desenvolvidos, mas certamente menos místicos do que o senso comum quer fazer crer.

Guido Mieth via Getty Images
Happy pawn figure in a group of faceless pawns, close-up.

Um dos mitos sobre liderança está relacionado com o tal do carisma.

Muitas vezes, ao lermos sobre liderança temos a impressão de que esse indivíduo que é líder é meio super-homem, meio mágico, e sempre capaz de coisas extraordinárias.

Esse líder super herói, em geral, aparece como alguém capaz de influenciar as pessoas de forma tão sutil que tem-se a impressão de que não há ali uma relação de poder.

Esse líder mobiliza as pessoas por meio do seu carisma tão fenomenal que fica difícil descrevê-lo na medida em que faltam palavras capazes de detalhar não só quem ele é mas sobretudo como ele consegue fazer tudo o que faz.

De tudo, o que chama atenção é o tal do carisma que parece ser a melhor narrativa para descrever os feitos do líder. Por causa dessa carisma que parece melhor encerrar aqueles que são os atributos da liderança, diversas pessoas investem em treinamentos de retórica ou mesmo comunicação motivacional para turbinarem o seu "carisma".

Outras pessoas usam de diferentes estratégicas para desenvolvê-lo: passam a adotar comportamentos dos "super simpáticos", sempre com uma expressão facial amigável e condescendente o que não necessariamente reflete empatia, essa sim fundamental para a liderança e também mais delicada e bem mais difícil de ser desenvolvida.

É compreensível esperar carisma de uma liderança política ou religiosa afinal esses casos podem envolver a mobilização de um número significativo de seguidores muitas vezes distantes do líder mas que precisam se sentir próximos (ou mais especificamente, identificados) com aquele que representa (ou deveria representar) o bem maior ou o bem supremo.

Porém, no caso de lideranças corporativas, de organizações sociais, empreendimentos inovadores, dentre outros, a identificação se dá de outras maneiras e o carisma somente irá se configurar como algo relevante quando, diante de uma situação de crise, quando há ceticismo em relação ao futuro, a gente parece mesmo buscar algo mágico que possa reverter a situação.

Segundo o primeiro verbete do dicionário Aurélio, carisma é uma força divina conferida a uma pessoa. Em vista da necessidade e da utilidade do carisma como mencionado, essa definição ajuda na compreensão de que lideres religiosos são mesmo carismáticos. A seguir, o dicionário Aurélio apresenta duas outras definições intimamente relacionadas com o tema liderança.

Carisma é a) atribuição a outrem de qualidades especiais de liderança, derivadas de sanção divina, mágica, diabólica ou apenas individualidade excepcional e b) o conjunto dessas qualidades especiais. No dicionário Houaiss a primeira definição é também teológica sendo carisma denominado como um dom extraordinário que é concedido a um crente. A seguir, carisma é denominado como 1. "autoridade, fascinação irresistível exercida sobre um grupo de pessoas, supostamente proveniente de poderes sobrenaturais" e 2. "conjunto de habilidades e ou poder de encantar, de seduzir, que faz com um indivíduo desperte de imediato a aprovação e a simpatia das massas".

Na medida em que liderança é percebida e descrita como dom ou habilidade de ser ou exercer carisma, coloca-se diante daqueles indivíduos dentro dos contexto organizacionais a tarefa hercúlea de se desenvolver como alguém sedutor, místico e fascinante.

Essa associação de liderança e carisma faz um desserviço para o desenvolvimento de lideres corporativos não só porque sinaliza características inadequadas do líder mas sobretudo porque distrai os interessados daquilo que realmente faz sentido quando se fala sobre o papel e o efeito do líder nas organizações.

Na medida em que muitos parecem continuar buscando desenvolver seu carisma na crença de que assim tornar-se-ão líderes resolvi usar o exemplo do Larry Page, co-fundador da Google e hoje a frente da Alphabet, que certamente não construiu seu legado baseando-se em comportamentos carismáticos. Ao ler sobre o Larry Page não percebo nele qualidades derivadas de uma sanção divina... É bem verdade que ele, assim como vários outros líderes de empresas e organizações são visionários e por isso podem exercer algum fascínio sobre as pessoas. Esse parece ser o caso de Tim Cook da Apple e também de Lars Sorensen da Novo Nordisk apenas para citar exemplos adicionais.

A idéia aqui é mostrar que diversos executivos importantes que diante de seus legados poderiam facilmente passar despercebidos como lideres simplesmente porque carisma não é o que melhor os descreve.

Mais importante, a idéia aqui também é estimular o questionamento sobre o que fazer no que diz respeito a desenvolvimento de lideranças que seja diferente de investimento em retórica e comunicação já que carisma não é exatamente a melhor alternativa.

É bem verdade que liderança não é para todos, mas na medida em que questionamos a atribuição divina da liderança nos sensibilizamos para o fato de que os atributos da liderança são bem mais humanos; não necessariamente fáceis de serem desenvolvidos, mas certamente menos místicos do que o senso comum quer fazer crer.

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