OPINIÃO
25/11/2014 11:00 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Novela mexicana, quem dera

Barack Obama é mensageiro de números grandiosos: mais de dois milhões de migrantes deportados, desde que tomou posse em 2009. Recorde incômodo para um presidente rotulado como humanista e filho de pai africano.

The Washington Post via Getty Images
FALFURRIAS, TX - JULY 24 : A Mexican illegal immigrant, left, and a Honduran lllegal immigrant, right, sit in the back of Brooks County Deputy Rolando Gutierrez's patrol truck after being detained on July 24, 2014 in Falfurrias, TX. The two had given up on their quest to make it to Houston and were simply waiting at a roadside shelter hoping to be picked up by the U.S. Border Patrol. The Brooks County Sheriff's Office with its small staff of 5 deputies is responsible for patrolling a county close to 1000 sq. miles. The deputies work twelve hour shifts and have recently been inundated with the illegal immigration crisis plaguing south Texas. While the county is not a border county, they still operate as if it were due to the U.S. Customs and Border Patrol checkpoint on highway 281. Unlike border counties, Brooks County does not receive federal funds to help fight the uptick in illegal immigration. They are one of the poorest counties in the country with limited resources to help stop illegal immigration. The deputy's shifts are spent chasing suspicious vehicles believed to be carrying illegal immigrants to domestic calls, rounding up runaway livestock and collecting dead bodies from the vast Texas bush. (Photo by Ricky Carioti/The Washington Post via Getty Images)

Barack Obama é mensageiro de números grandiosos: mais de dois milhões de migrantes deportados, desde que tomou posse em 2009. Recorde incômodo para um presidente rotulado como humanista e filho de pai africano. Com os cinco milhões de potenciais beneficiados pelo decreto da semana passada, Obama estaria tentando desfazer parte do dano causado pela política dos anos anteriores? Tarefa árdua para quem deixou o rastro de milhares de famílias devastadas, dos dois lados da fronteira.

Mas os números contam apenas parte da história. Eles não conseguem transmitir a realidade brutal pela qual passa muita gente, todos os dias, e cuja perversidade se apresenta de diversas formas. Presenciei parte desse drama de perto, protagonizado pelo sistema de justiça americano, em viagem à fronteira do México com Estados Unidos.

Eram cerca de 50. Todos algemados pelas mãos e pelos pés e olhando para um púlpito distante onde ficava o juiz. Sala cheia. Mármore por todos os lados e mesas estrategicamente posicionadas com potes de gel antisséptico. Assim foi o cenário de um julgamento de imigrantes mexicanos que atravessaram a fronteira, pelo estado do Arizona. Uma das cenas mais grotescas a qual assisti nesses quase vinte anos trabalhando com direitos humanos. Quem dera fosse novela.

Enfileirados, os mexicanos eram chamados de 5 em 5 para serem questionados coletivamente pelo juiz. A primeira pergunta era se estavam cientes que, ao optar por esse tipo de julgamento chamado "operation streamline", estavam abrindo mão de todos os seus direitos constitucionais. A resposta unânime era "sí", traduzida em auto-falantes para o inglês. A barganha seria para atenuar o número de dias que passariam na prisão. A resposta do juiz também não variava muito, prisão por no mínimo 100 dias e deportação para a cidade de Nogales do lado mexicano da fronteira.

Depois de saírem com o andar afetado pelas algemas e pelo olhar dos curiosos da sala, o destino era certo: uma prisão privada a poucos metros dali. A prisão é de propriedade e administrada pela CCA, empresa que em seu site declara ser o orgulho da nação - "We are America's leader on partnership correction". A CCA recebe por mês, dessa única corte do Arizona, cerca de 17 milhões de dólares. Sem dúvida uma parceria lucrativa. E muito.

Ao final do julgamento coletivo - que ignora a vida, história e motivações para atravessar a fronteira de cada um dos julgados - o juiz se aproxima dos presentes e pergunta se gostamos do que assistimos. Ao meu lado, estudantes de Harvard. Espero eles responderem, tensa de que diriam "yes", em bom inglês. Felizmente me equivoco. O não foi unânime. Aproxima-se do grupo outro juiz, de origem "chicana" como ele mesmo se definiu e seu sobrenome, Juarez, confirmava. Os dois juízes confortam o grupo de curioso dizendo que também não gostam do que viram e protagonizaram ali. Alegam tranquilamente que estão apenas cumprindo a lei e que a culpa de todos que ali estavam e elegeram os líderes e políticos do País.

Passo alguns minutos sentada, confusa sobre o ideal de Democracia. Grotesca como uma novela mexicana, mas também libertadora por propiciar um diálogo franco, no mesmo palco onde cada ator tinha seu papel milimetricamente pensado. O guarda nos lembra que é assim toda semana, mas que dessa vez "eram só 50". E todos lavam as mãos. Afinal é essa a função dos litros de gel antisséptico em cima das mesas de mármore.

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