OPINIÃO
15/05/2018 14:57 -03 | Atualizado 25/05/2018 11:57 -03

Sede do Egito na Copa É Acusada de Violar Direitos LGBT

"Não é a escolha de um país ou de outro como sede que resolverá o problema do preconceito contra os LGBTs no mundo."

O atacante egípcio Mohamed Salah, estrela do Liverpool na reta final da Liga dos Campeões da Europa, ficará hospedado em uma região acusada de abrigar campos de concentração para homossexuais. Grozny, capital da Chechênia, será base da seleção do Egito durante a Copa do Mundo de 2018. No último ano, a república componente da Federação Russa foi alvo de acusações de violações graves aos direitos humanos.

Nem mesmo os protestos de órgãos de apoio aos direitos humanos, como a Human Rights Watch, levaram a Federação Internacional de Futebol (Fifa) a dar uma resposta à altura. À agência de notícias Associated Press, a entidade máxima da modalidade disse apenas que não acredita que "a decisão da associação de futebol egípcia de escolher Grozny como base vá causar impactos negativos aos direitos humanos".

No ano passado, relatos de chechenos homossexuais vítimas de violação dos direitos humanos chegaram à imprensa mundial. Sobreviventes relataram que a polícia chechena instrui pais a matarem os filhos homossexuais no país.

Chechênia não rebate acusações

Espanta o fato de o presidente checheno, Razman Kadyrov — que apoia e é apoiado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin —, não ter se defendido das acusações. Segundo ele, não há campos de concentrações para homens gays simplesmente porque "não há gays no país", conforme disse em entrevista em maio de 2017.

"A sociedade chechena não tem esse fenômeno das orientações sexuais não tradicionais. Por milhares de anos, as pessoas viveram por outras leis, escritas por Deus", disse Kadyrov à agência de notícias Interfax.

Diferentemente da maior parte da Rússia, de maioria cristã ortodoxa, a maioria dos chechenos segue o islamismo. A Chechênia enfrentou duas sangrentas guerras pela separação do território russo nos anos 1990, mas as tensões se acalmaram durante o governo Putin, a quem Kadyrov chama de "super-herói".

O Egito, que escolheu Grozny como base, recebe acusações de violar os direitos das pessoas LGBT. No ano passado, o país passou a punir com prisão qualquer demonstração de afeto entre pessoas do mesmo sexo ou mesmo apoio público à causa.

O que é a Chechênia?

Enorme que é, o território russo se espalha do Leste Europeu até o extremo nordeste da Ásia. A gigantesca extensão territorial do maior país do mundo, portanto, abraça etnias e culturas diferentes do povo eslavo majoritário nas metrópoles Moscou e São Petersburgo, por exemplo.

Por isso, além dos oblasts — o equivalente aos nossos estados brasileiros, em uma comparação simples —, a Rússia envolve 22 repúblicas no território. A Chechênia é uma delas.

É uma região pequena, com cerca de 17,3 mil km², onde vivem quase 1,4 milhões de pessoas. O Sergipe, menor estado brasileiro, é mais de 3 mil km² maior.

Localizada no extremo sul da Rússia, a Chechênia fica em uma região onde Europa e Ásia se confundem: as montanhas do Cáucaso. De lá, as tradições cristãs ortodoxas do Leste Europeu se misturam com o islã de nações como Turquia e Irã, ambas muito próximas.

Comitê Olímpico enfrentou problema semelhante

A mesma Rússia foi alvo de protestos quando a cidade de Sochi — também na região do Cáucaso — sediou os Jogos Olímpicos de Inverno, em 2014.

A competição ocorreu apenas oito meses depois de o parlamento russo passar uma lei que bania "a propaganda a relações sexuais não tradicionais". Na prática, a legislação — apoiada pelo presidente Putin — endossou a violência contra manifestantes dos direitos LGBT no maior país do mundo.

Diante de protestos dos atletas, o Comitê Olímpico Internacional (COI) sentiu o baque. No discurso de abertura, o presidente do COI, Thomas Bach, citou "os valores olímpicos da diversidade". A repercussão do caso ainda levou a entidade a acrescentar, ainda em 2014, o princípio da não discriminação na Carta Olímpica, documento que compila a missão, os valores e as diretrizes do olimpismo.

País sede de 2022 proíbe a homossexualidade

Voltando ao futebol, a Fifa continuará a lidar com acusações de fechar os olhos para a violência contra a população LGBT ao menos até 2022. Em quatro anos, o Qatar, um pequeno país na Península Arábica, receberá a Copa do Mundo. Lá, a homossexualidade é punida com até sete anos de prisão.

Em 2013, quando já se sabia que o país receberia a Copa do Mundo nove anos mais tarde, uma reunião no Conselho de Cooperação do Golfo — organização que reúne os países do Golfo Pérsico, entre eles o Qatar — levantou a proposta de um teste para detectar estrangeiros LGBT. Assim, eles seriam expulsos ou teriam a entrada negada nas nações. Ao que se sabe em 2018, o projeto não avançou.

A Fifa, é verdade, tem tentado punir manifestações preconceituosas da torcida. Em 2017, a organização multou cinco federações de futebol da América Latina — inclusive a CBF, do Brasil — por gritos homofóbicos de torcedores em jogos oficiais

Porém, a vista grossa aos casos do Qatar e da Rússia representam um passo para trás na luta pela igualdade no esporte. A falta de atitudes sólidas das federações contra a homofobia no futebol perpetua o ambiente machista e hostil aos homo ou bissexuais.

Não é a escolha de um país ou de outro como sede que resolverá o problema do preconceito contra os LGBT. Ainda assim, o silêncio da Fifa trava a ânsia da população homo, bi ou trans em fazer parte, jogando ou torcendo, da Copa do Mundo. Sem medo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.