OPINIÃO
11/09/2018 11:32 -03 | Atualizado Há 17 horas

Brasil: Um país sem plano, uma nação sem futuro

O próximo presidente da República precisa ter atitude de estadista, priorizar, calcular as perdas e ganhos, para então colher os frutos em 10 ou 20 anos.

Favela Jardim Peri, em São Paulo: Brasil tem uma das piores distribuições de renda do mundo.
NELSON ALMEIDA via Getty Images
Favela Jardim Peri, em São Paulo: Brasil tem uma das piores distribuições de renda do mundo.

O Brasil está em crise. Altos índices de desemprego, déficit das contas públicas e polarização social mergulharam o País em um mar de instabilidade. Estudo recente feito pela consultoria Mckinsey em parceria com o CLP (Centro de Liderança Pública), intitulado Visão Brasil 2030, mostrou que nos últimos 4 anos estamos estagnados em diversas áreas e até regredimos em setores chave como saúde, educação e desenvolvimento econômico.

Este é o cenário desafiador que o futuro presidente da República vai enfrentar, no qual promessas vagas e medidas pontuais não serão suficientes. O novo chefe do Executivo precisará estar disposto a encarar o custo político necessário, e se cercar de um time técnico e capacitado para elaborar, de fato, um plano nacional de longo prazo, que evidencie o sonho de país que podemos ser, com um olhar sistêmico e prioridades bem definidas.

Hoje, segundo os dados apresentados no Visão Brasil 2030, o País enfrenta um déficit fiscal de R$ 124 bilhões, mais de 12 milhões de desempregados e uma das piores distribuições de renda, com cerca de 80 milhões de pessoas ganhando menos do que o necessário para ter acesso a bens e serviços básicos.

Na educação, somos 63º colocado no ranking do Pisa (programa de avaliação internacional de estudantes), consequência dos 43% dos professores sem formação compatível com as disciplinas que lecionam e 46% dos diretores escolares escolhidos apenas por indicação política.

Do ponto de vista da saúde, a situação é ainda mais grave. A taxa de mortalidade infantil é uma das piores da América Latina, similar à da Venezuela, e a expectativa de vida é em média 6 anos mais alta no Sul e Sudeste do que no Norte e Nordeste.

Para executar um plano neste cenário conturbado, de alta instabilidade economia, fragmentação política e uma sociedade descrente da capacidade das instituições públicas, será fundamental restabelecer o diálogo, envolver e engajar atores do do setores público, privado, academia e terceiro setor, além de medir o impacto real de cada proposta. Em paralelo, o novo governo deverá manter um canal eficiente de comunicação com a população, de modo a conter as ansiedades sociais e tornar mais claro o trade off de cada medida a ser tomada.

Há muito que se investir para retormar o desenvolvimento sustentável do País, porém, é preciso antes começar a equilibrar as contas públicas, cortar ineficiências, regalias e privilégios, começando por uma reforma no sistema previdenciário. Afinal, é impossível seguirmos com um sistema que tira dos mais pobres para dar aos mais ricos. No Brasil, a média das aposentadorias dos trabalhadores do setor privado é quase 8 vezes menor do que a média das aposentadorias do setor público. No total, em 2014, cerca de 9% do PIB nacional foi direcionado à cobertura de tais obrigações no Brasil.

No momento de planejar os investimentos, o Brasil deve focar na Educação Básica, na capacitação de professores e aplicar os recursos de forma a garantir a alfabetização de qualidade de todos a partir dos 6 anos de idade.

A saúde também é um setor crítico. Para viabilizar o funcionamento pleno do SUS (Sistema Único de Saúde), é necessário voltar os esforços para soluções que otimizem os gastos e melhorem a qualidade dos serviços prestados. Como, por exemplo, a adoção de prontuários eletrônicos, sistemas de atendimento básico itinerante e ações de educação e saneamento básico para prevenção de doenças.

O Brasil precisa de propostas convergentes, que criem um ecossistema sustentável do ponto de vista social, econômico e político. Ao longo dos últimos mandatos, vimos projetos como o Bolsa Família, o Plano Nacional de Educação, que pela segunda vez não foi cumprido, e a PEC do Teto dos Gastos serem aplicados como paliativos para resolver problemas que possuem características e gatilhos fortemente estruturais.

Entretanto, por falta de planejamento e vontade política, tais medidas mostraram-se insustentáveis do ponto de vista econômico. Para melhorar a qualidade de vida do brasileiro, é preciso um plano de medidas que se sustente a longo prazo, que seja transversal às áreas estratégicas e que seja dialogado com a sociedade, de modo que possa se manter independentemente de partido ou corrente ideológica.

O novo presidente do Brasil precisa ter em mente que os resultados de um plano nacional de desenvolvimento não são imediatos. É necessário ter atitude de estadista, priorizar, calcular as perdas e ganhos e cuidar da manutenção das iniciativas, para então colher os frutos em 10 ou até 20 anos.

Somente assim será possível devolver aos cidadãos a oportunidade de viver uma vida digna e nos tornaremos, de fato, uma nação de futuro!

*O HuffPost Brasil dedica as semanas que antecedem as eleições para se debruçar sobre temas fundamentais para o próximo governante e Parlamento eleitos. Convidamos players relevantes da sociedade civil e especialistas para pensar juntos os desafios do Brasil. Este artigo integra a semana temática de Educação.