OPINIÃO
13/02/2018 17:32 -02 | Atualizado 13/02/2018 17:39 -02

Eu decidi passar o Carnaval sem Instagram

Com o app no celular, haveria uma janela de cobiça e sofrimento que eu buscaria incessantemente durante os 5 dias de folia.

Reprodução

Há algum tempo eu já vinha cogitando fazer isso. Sexta de Carnaval, sentada no sofá de casa, temperatura negativa lá fora. Eram 11 e meia da noite quando pressionei o ícone e deletei o Instagram do celular. O ícone quadradinho se foi, e com ele uma janela de cobiça e sofrimento que, eu sabia, eu buscaria incessantemente durante os cinco dias de folia.

São várias as motivações por trás dessas férias forçadas de Instagram, mas volto para explicá-las depois. Por agora, vou me limitar a relatar aqui minhas reflexões sobre a experiência de eliminar, até a Quarta de Cinzas, aquilo que sem sombra de dúvidas é o que mais suga tempo da minha vida.

Nada no meu celular me faz desperdiçar tantos minutos do que a rede das fotinhos quadradas. Estar pelo quarto ano seguido em Nova York, longe dos confetes e serpentinas e passando frio, só pioraria o cenário. Alô Sapucaí, a hora é essa.

Primeiro dia

Sábado, 10 de fevereiro, de manhã, frio e chuvinha lá fora. Abri os olhos, catei o celular e li as horas. A tela marcava pouco antes das 8 - consequências de acordar entre 6 e 6h30 durante a semana. Abrir o Instagram é meu primeiro impulso depois de ler as notificações do WhatsApp. Outra desgraça, mas sem a qual não consigo viver por pura praticidade - consequências de morar longe de quem é mais importante para a gente.

E agora, faz o quê? Meu ritual matinal de ver quem curtiu, quem seguiu, quem visualizou... PLOFT! Resta-me o Facebook. Rolo a tela um pouquinho no feed, bocejo. Dá mais vontade de voltar a dormir do que o próprio fato de ainda estar na cama.

Peguei meu livro e antes das 9 terminei de ler os três últimos capítulos que me faltavam. Fui fazer uns ovos mexidos e um chá. Impressionante como toda atividade corriqueira foi preenchida de vazio. Aquela olhadinha no feed enquanto a chaleira esquenta e a manteiga derrete? Não há.

Já ao computador, checo emails, assisto a vídeos no YouTube, respondo mensagens. Entre uma atividade e outra, a olhadela no celular é incontrolável. Contei e houve um momento em que fiz menção de abrir o aplicativo deletado umas quatro vezes em cerca de 45 minutos.

Como forma de rir do meu próprio triste estado de abstinência, no lugar onde antes o Insta ficava coloquei de propósito o LinkedIn, a rede mais tediosa de todas (alguém aí entra lá sem a intenção de fazer uma ação muito clara, tipo pesquisar um contato ou responder alguém? Zzzz). Abri umas cinco vezes e me peguei rindo em todas. Porque abri sem intenção. Por puro hábito.

Recorrer a outras redes foi minha primeira válvula de escape na ausência da minha favorita. Sou usuária bem frequente do Twitter, mas confesso que acesso em ocasiões pontuais. Arrisco dizer que é porque a probabilidade de ver conteúdo interessante ali no topo do meu feed não é tão grande quanto no Instagram, que é tão visual e atraente aos olhos, um negócio quase hipnótico — apesar do algoritmo que insiste em mostrar logo de cara fotos postadas dois dias atrás.

O Facebook, com seu algoritmo também esquizofrênico, ainda é a segunda rede que mais acesso - unicamente porque é por onde ainda mantenho contato com muita gente. Checo notificações, dou uma olhada no feed, respondo o Messenger (que é um app por si só), tchau.

Foi numa dessas que na manhã deste sábado de Carnaval vi a matéria compartilhada por um amigo que noticiava a entrada de Ivete Sangalo na maternidade em Salvador. Na página estava embedado, adivinhem, o vídeo compartilhado pela própria cantora no Instagram anunciando a notícia. Foi por ali que o mundo foi informado que a gêmeas da rainha do Carnaval estavam para nascer. Pelo INS-TA-GRAM. E vejam só que demais, eu não preciso nem estar nele para saber o que acontece por lá. Estou vencendo!!!

Durante a tarde me distraí colando frutas de plástico a uma bandana de tecido, minha tentativa de Carmen Miranda para o baile de carnaval tapa-buraco (produzido por brasileiros e, portanto, ainda assim memorável) de mais tarde, aqui no Brooklyn.

Certamente o processo teria rendido belos Stories. Em vez disso, mandei selfies do progresso para as amigas e para os meus pais.

À noitinha chega aqui em casa uma trupe de brasileiros expatriados que, assim como eu, amargava estar longe da maior festa de todas. Todo mundo fantasiado, cerveja, glitter, axé e funk na caixa de som animavam o esquenta.

Minha decisão soou ainda mais certeira quando um desses amigos, logo após entrar na cozinha de casa e abrir a latinha, me perguntou: "E aí, tá sofrido, né? Também passou o dia olhando o Instagram hoje?".

Eu?

Por sorte, não.

(Continua...)

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.