OPINIÃO
04/06/2015 16:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Recado para a FIFA: não descuidem do jogo

Quando era criança, os jogadores eram meus ídolos. O espírito do futebol e do fair play me influenciou muito, tanto em minha carreira de jogador como em minha vida pessoal. Os jovens impressionáveis de hoje receberam a seguinte mensagem na semana passada: é perfeitamente aceitável desrespeitar as regras, jogar sujo e escapar da punição. Senti vergonha pelo esporte, não só como jogador, mas mais ainda como torcedor.

Feng Li via Getty Images
SHANGHAI, CHINA - APRIL 15: Former footballer Louis Saha of France attends the 2015 Laureus World Sports Awards at Shanghai Grand Theatre on April 15, 2015 in Shanghai, China. (Photo by Feng Li/Getty Images for Laureus)

No sábado acontece o jogo mais esperado do futebol mundial. Barcelona e Juventus vão se enfrentar na final da Champions League, em Berlim. Alguns dos melhores jogadores de suas gerações - e, em alguns casos, de todos os tempos - vão tomar parte em uma das finais mais disputadas em alguns anos. Torcedores de todas as idades e nacionalidades estarão unidos nas emoções que vão se desenrolar ao longo de 90 minutos no estádio Olympia.

Mas o foco da mídia está quase exclusivamente nos eventos de Zurique. É uma catástrofe quando a conduta dos políticos chama mais atenção que o esporte. Torcedores e comentaristas estão mais uma vez juntos exigindo lisura na conduta do órgão que governa o futebol. Eles querem a punição daqueles que mancharam a reputação de um esporte acompanhado por 2 bilhões de torcedores. E é difícil culpar os fãs.

Estou entre os bilhões de torcedores de todo o mundo que não puderam acreditar que os 209 países-membros da FIFA reelegeram um presidente que durante 17 anos comandou uma delegação acusada de corrupção em escala massiva. A reeleição passou uma mensagem trágica. Quando era criança, os jogadores eram meus ídolos. O espírito do futebol e do fair play me influenciou muito, tanto em minha carreira de jogador como em minha vida pessoal. Os jovens impressionáveis de hoje receberam a seguinte mensagem na semana passada: é perfeitamente aceitável desrespeitar as regras, jogar sujo e escapar da punição. Senti vergonha pelo esporte, não só como jogador, mas mais ainda como torcedor.

Muitos dos delegados da FIFA compartilharam das minhas emoções e se sentiram compelidos a questionar sua filiação a uma associação em que corrupção e propinas se tornaram praticamente corriqueiras. David Gill, o ex-vice-presidente da FIFA que renunciou em protesto à reeleição de Blatter, foi um deles. Tive o prazer de conhecê-lo quando jogava no Manchester United. Ele é de longe um dos melhores executivos de futebol do mundo, e presumo que ele acreditou ser capaz de levar transparência e responsabilidade à FIFA quando substituiu Jim Boyce, da Irlanda do Norte, no Comitê Executivo. Ele trabalhou incansavelmente para ter seu status atual no futebol mundial e é uma figura altamente respeitada em sua profissão. O fato de uma pessoa do seu calibre tenha de renunciar para proteger sua própria integridade.

É precisamente essa integridade que a FIFA precisa injetar em toda a organização. Ela precisa de uma profunda reforma cultural, mas em silêncio. Quero que as câmeras estejam apontadas para o campo em Berlim e não para as salas de reunião de Zurique. A enormidade da tarefa que se apresenta à FIFA exige apoio de todos os envolvidos com o esporte, sejam jogadores, técnicos, agentes ou sindicatos. Minha nova empresa, Axis Stars, tem o objetivo de promover transparência na profissão e dar aos atletas profissionais um ecossistema protegido para contratos e aconselhamento financeiro. Espero que essa busca pela transparência, liderada pelos jogadores, transcenda os que governam o esporte.

O futebol mundial precisa desesperadamente que indivíduos como Gill, Figo, príncipe Ali e Platini assumam as rédeas da organização e tragam uma cultura de equidade, transparência e práticas éticas. É imperativo, para o bem do esporte, que essas mudanças sejam executadas com rapidez. A mudança cultural de uma organização é uma tarefa monumental, mas, com a saída de Sepp Blatter, acredito que o processo possa finalmente começar.

Esperamos que haja uma transição tranquila para quem quer que seja eleito novo presidente da FIFA. O príncipe Ali teve a coragem de se candidatar contra Blatter. Para o bem do esporte, precisamos dele ou de alguém com sua mentalidade e diligência para liderar a organização nesse período difícil. A profissão precisa integrar novas tecnologias para entrar nessa nova era. As delegações da FIFA, sempre envolvidas em mistérios, precisam se envolver mais proativamente com todas as partes interessadas. Nessa nova era pós-Blatter, a FIFA deveria fazer jus a seu mote: Pelo Jogo. Para o Mundo.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.