OPINIÃO
27/04/2015 18:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Amar e conviver com Bruce Jenner mudou minha vida para sempre

Ele me disse que se identificava como mulher. Não entendi direito o que ele estava querendo dizer. "Como assim você se identifica como mulher? O que isso significa?" Ele respondeu que, desde sempre, ele se olhava no espelho e via a imagem de um homem, quando na verdade o reflexo deveria mostrar uma mulher. Bruce lamentou: "Estou na pele errada, no corpo errado, a vida inteira. É um inferno para mim, e realmente acho que deveria levar adiante o processo de me tornar uma mulher, a mulher que sempre fui por dentro."

AP Photo
This is a 1980 photo of Olympic gold-medalist Bruce Jenner and his fiance actress Linda Thompson posing in the corn field on the set of the television show

Nota do editor: Apesar de Jenner ter se declarado "uma mulher para todos os propósitos", ele ainda não indicou se gostaria de ser chamado por um novo nome ou se devem ser usados pronomes masculinos ou femininos para se referir a ele, portanto este artigo se refere a Jenner com pronomes masculinos.

A esta altura, Bruce Jenner já revelou sua luta com a disforia de gênero.

Jamais ousaria falar do assunto antes que ele estivesse à vontade para fazê-lo. Trata-se, afinal de contas, da verdade dele, então sabia que ele merecia a dignidade de revelar essa verdade no seu tempo, da maneira que considerasse adequada.

Guardei respeitosamente seus segredos e os teria levado comigo para o túmulo se ele não se manifestasse.

Mas hoje, depois de muitos anos de uma vida notável, ele decidiu falar. Seu legado será adornado como referências como "atleta olímpico", "medalha de ouro no decatlo", "maior atleta do mundo", "filho", "irmão", "marido", "pai", "avô", "amigo" e, espero, "pioneiro" e "desbravador dos direitos civis da comunidade transgênero".

Por mais que esse artigo diga respeito a Bruce, não tem a ver só com ele. Compartilhar minha experiência tem o objetivo de iluminar e informar - oferecer um pouco de conforto e apoio a todas as pessoas privadas de seus direitos, discriminadas.

As histórias de Bruce e de sua batalha são suas; minhas experiências com Bruce são igualmente minhas.

Eis uma breve história do tempo que passei com Bruce - uma experiência de vida que moldou minha existência.

*******

Numa noite quente em Memphis, em julho de 1976, Elvis (sim, aquele Elvis) e eu estávamos assistindo a Olimpíada de Montréal.

Estávamos na cama em Graceland, assistindo à transmissão dos Jogos havia dias. Acompanhávamos o atleta americano Bruce Jenner, que dominava a competição do decatlo. Bruce estava na última volta da sua última corrida, o décimo evento. Quando ele cruzou a linha de chegada para vencer a medalha de ouro e a distinção de "maior atleta do mundo", eu e Elvis comemoramos a vitória para os Estados Unidos! Também comentamos que incrível espécime de homem era Bruce Jenner. Elvis comentou: "Porra, como esse cara é bonito! Não sou gay, mas, porra, ele é bonito!". Concordei e disse, provocando: "Uau! Ele é lindo! Um dia vou casar com esse cara!". Elvis respondeu: "Com certeza, querida, sobre o meu cadáver."

Conheci Bruce Jenner em um torneio de tênis de celebridades três anos depois, na primavera de 1979. O torneio era um evento beneficente para a Clínica John Tracy para crianças surdas. O evento aconteceu na Mansão Playboy. Nunca tinha estado lá, mas Bruce estava morando na mansão parte do tempo, depois de se divorciar de Chrystie.

Eu fazia parte do elenco de Hee Haw, um programa de variedades na TV, e era uma atriz em começo de carreira (pense em programas de Aaron Spelling), então fui convidada a entregar os troféus para os vencedores do torneio. Não foi surpresa quando Bruce venceu a competição, e entreguei a taça para ele. Foi assim que nos conhecemos - numa quadra de tênis.

Bruce estava de shorts e camiseta suada. Seu corpo muscular e definido ainda tinha as formas da Olimpíada. Ele era doce, tímido e muito cavalheiro. Perguntou se eu ia sempre à Mansão Playboy, e eu disse: "Não! Nunca vim antes!" Lembro de pensar que não queria dar a impressão errada. Não queria que ele achasse que eu era uma candidata a Playmate!

Ele começou a flertar comigo, então perguntei de cara: "Ei, você não é casado?! Vi sua vitória na Olimpíada e, conforme me lembro, sua mulher estava lá!" A cara dele mudou, e ele respondeu, triste: "Não, estou separado, e não é nada legal". Ele parecia uma criança triste e perdida. Senti muita pena. Disse que sentia muito e continuamos a bater papo, ainda na quadra.

Todo mundo estava se preparando para o jantar depois do torneio. Bruce tinha planejado voltar para casa, para tomar banho e se trocar. Mas ele não ia embora, e finalmente explicou: "Não quero te deixar sozinha aqui nem um minuto. Reparei como George Peppard e os outros estão te olhando, esperando que eu saia para dar em cima de você."

Pensei: "Que charmoso e galante!" Bruce ficou de shorts e camiseta enquanto os outros estavam vestidos para o jantar. E continuamos conversando, nos conhecendo. Bruce me convidou para jantar e eu, claro, disse sim. Assim começou um relacionamento romântico que durou vários anos e produziu dois filhos maravilhosos.

Bruce já tinha um filho adorável, chamado Burt, e durante uma breve reconciliação com Christie eles foram abençoados com Cassandra. Burt e Casey (como a chamo) sempre foram bênçãos em minha vida.

Durante nosso namoro, viajamos para a Austrália para promover seu filme com o Village People, Can't Stop The Music. Alan Carr era o produtor, e logo fizemos amizade. Alan era muito extravagante, engraçado, criativo e generoso. Antes de voltarmos aos Estados Unidos, ele insistiu em nos dar um presente de pré-lua-de-mel: quatro dias na incrível ilha de Bora Bora, no Taiti.

Bruce e eu passamos dias relaxando na ilha. Ficamos em uma daquelas cabanas de teto de palha, sobre a água. Bastava botar o pé para fora e mergulhar na água cristalina, nadando com peixes multicoloridos. À noite ficávamos olhando para as estrelas, falando do futuro e da maravilha que é o universo.

O Bruce que eu conhecia na época era tranquilo, pé-no-chão, despreocupado, romântico, bondoso e carinhoso. Eu estava extremamente feliz por ter encontrado um parceiro tão incrível com quem dividir minha vida. Ele era honrado e, bem, bom demais para ser verdade. Realmente bom demais para ser verdade.

Engravidei pela primeira vez na vida. Quando me ligaram do consultório do médico para me contar o resultado do teste, caí de joelhos tamanha a alegria. Rezei para merecer carregar aquela vida preciosa. É uma sensação que jamais vou esquecer. Senti naquele momento que qualquer coisa negativa da minha vida, qualquer transgressão que tivesse cometido, de alguma maneira tinha sido apagada. Era um novo começo. Claramente estava encantada com a notícia.

*********

Bruce e eu nos casamos em 5 de janeiro de 1981. A cerimônia aconteceu na casa de praia de Alan Carr, no Havaí. Havia apenas umas 35 pessoas presentes, incluindo nossos pais. Burt foi o padrinho de Bruce, apesar de ter apenas dois anos. Ele interrompeu nosso casamento várias vezes dizendo que queria colo. Foi tudo muito doce, uma cerimônia familiar. Minhas sobrinhas, Jennifer e Amy Thompson, carregaram o buquê, e minha cunhada Louise foi minha madrinha. Foi um casamento extraordinariamente lindo. Dissemos "sim" às 18h, com o sol se pondo sobre um Pacífico plácido e azul.

Devo notar que Bruce era um homem muito seguro, pois a música que escolhi para a minha entrada foi "Hawaiian Wedding Song", de Elvis Presley. Sempre foi um sonho meu casar no Havaí. Era um sonho que teve a origem no filme Blue Hawaii, de Elvis. Tinha assistido o filme várias vezes quando era criança, sempre pensando: "Deve ser muito romântico se casar em um paraíso tão lindo!". Bruce aceitou meus planos de conto-de-fada: um casamento cinematográfico, na hora do pôr-do-sol, no jardim japonês de Alan Carr na praia de Waikiki, na linda ilha havaiana de Oahu. Só faltou Elvis.

Brandon Thompson Jenner nasceu em 4 de junho de 1981. Achei que sabia o que era amor antes de dar à luz meu bebê, mas o que tinha sentido no passado não chegava aos pés em comparação com o amor incondicional que senti imediatamente ao ter aquele pedacinho de gente nos meus braços. Burt e Casey foram ao hospital para conhecer o novo irmãozinho.

Foram dias muito felizes para mim. Eu amava Burt e Casey, e Brandon era o sol que iluminava todos os dias da minha vida. Essa história de maternidade parecia ser uma vocação natural para mim. Já tinha treinado com Burt e Casey, pois eles sempre estavam em casa e eram bem pequenos. Me sentia preparada para ser a mãe de Brandon. Adorava curtir e passar meu tempo com essa família.

Bruce e eu éramos um casal incrível. Nos dávamos muito bem e curtíamos fazer muitas coisas juntos. Bruce me ensinou a andar de jet ski, a esquiar na água e na neve, a jogar tênis, a me alimentar de forma saudável, a me exercitar, a perder o medo de molhar o cabelo e a abrir os olhos embaixo d'água. Bom, posso estar exagerando quando falo em perder o medo, mas posso dizer que Bruce trouxe à tona o meu lado atlético. Virei uma boa jogadora de tênis, e Bruce e eu até mesmo criamos nosso próprio torneio de celebridades para levantar fundos para o United Cerebral Palsy in Children. O evento se chamava Bruce and Linda Jenner Love Match.

Bruce e eu sempre aparecíamos em tapetes vermelhos e éramos considerados um "casal glamouroso". Também doamos nosso tempo para causas de caridade. Éramos presidentes honorários da Associação da Diabetes Juvenil e apoiávamos as Paraolimpíadas.

************

Certo dia recebemos uma ligação da Casa Branca perguntando se estaríamos disponíveis para encontrar o presidente Ronald Reagan no Salão Oval, como representantes da Associação da Diabete Juvenil. Ainda estava amamentando Brandon, e o prazo era basicamente: "Precisamos de vocês em Washington depois de amanhã". Não queria perder a chance de ter uma audiência com o líder do mundo livre, então mal tive tempo de armazenar um pouco de leite materno, encontrar uma roupa adequada e embarcar no avião. Foi tudo muito rápido. Estávamos de volta a Malibu em questão de horas, mas a honra de encontrar o presidente dos Estados Unidos é uma lembrança para toda a vida. Fiquei muito feliz de estar de volta a Malibu com meu pequeno Brandon em meus braços e uma memória interessante para contar para ele quando ele crescesse.

Bruce tinha um atleticismo natural em tudo o que tentava fazer. Ele parecia ser ótimo em todos os esportes. Ele era basicamente um espécime perfeito de homem. Os homens queria ser como ele e queriam praticar esporte com ele. As mulheres se sentiam atraídas por ele. O Bruce que eu conhecia na época era muito sincero, afável e muito à vontade em sua própria pele. Ou pelo menos era o que parecia.

Um verão fomos convidados a participar de uma montagem de Lil' Abner em Birmingham, Alabama. Parecia divertido, então aceitamos. Bruce era surpreendentemente musical e adorava dançar. Viajamos para Birmingham para os ensaios. Levamos Brandon conosco, e ele se divertiu muito no palco, com sua fantasia de Lil' Abner. As críticas foram ótimas, apesar de eu descobrir que o teatro me deixava incrivelmente nervosa. Tinha participado de peças no colégio, mas esse era um musical de verdade - e muito exigente.

Bruce e eu passamos os dias na praia, andando de jet ski, caminhando na praia todas as manhãs, velejando, jogando tênis e curtindo um ao outros. Achava nossa vida muito idílica.

******

Quando Brandon tinha pouco mais de um ano, achamos que seria legal que ele tivesse um irmãozinho. Logo estava grávida do meu segundo filho, Sam Brody Jenner. O nome é uma homenagem a meu irmão Sam. Brody nasceu no dia 21 de agosto de 1983.

Foram os dias mais felizes da minha vida. Tinha um marido maravilhoso, o homem mais atlético, bem-humorado, energético, tranquilo e masculino que se poderia imaginar. Tinha dois bebês lindos e saudáveis. Tinha dois enteados. A vida não poderia ser melhor. Tínhamos nos mudado para uma propriedade de 4 000 m2, onde plantava rosas e árvores frutíferas e onde foram construídas muitas memórias duradouras.

Bruce viajava muito, dando palestras motivacionais, trabalhando para o NBC SportsWorlds, participando de corridas de carros e fazendo todo tipo de atividades. Muitas vezes eu ia junto, sempre com nossos filhos. Outras, ficava em casa.

Quando Brody tinha cerca de um ano e meio e Brandon, cerca de três anos e meio, Bruce virou para mim com uma cara sombria e disse: "Tem algo sobre mim que eu realmente preciso te contar, algo que você precisa saber". Eu realmente achava que ele iria me contar sobre um caso que teve em uma de suas viagens. Mas não era aquilo que ele queria me confessar. Ele me disse que se identificava como mulher. Não entendi direito o que ele estava querendo dizer. "Como assim você se identifica como mulher? O que isso significa?" Ele respondeu que, desde sempre, ele se olhava no espelho e via a imagem de um homem, quando na verdade o reflexo deveria mostrar uma mulher. Bruce lamentou: "Estou na pele errada, no corpo errado, a vida inteira. É um inferno para mim, e realmente acho que deveria levar adiante o processo de me tornar uma mulher, a mulher que sempre fui por dentro."

As pessoas me perguntam: "Havia sinais ou pistas? Algum sinal de que ele usasse suas roupas?". Não. Nenhuma pista. Nada. Zero. Nunca.

Eu diria que 30 anos atrás pouquíssimos de nós conheciam o mundo da disforia de gênero. Eu certamente não conhecia. Vivia na milha bolha em Malibu, com meu marido lindo, campeão, atlético. Minha reação à declaração de Bruce foi confusão, até desespero. Sugeri que fizéssemos terapia. Precisava entender qual era a questão de Bruce e saber se era algo que poderia ser superado ou "consertado". Fui ingênua. Como disse, não sabia que ser transgênero não é algo que possa ser superado, consertado, resolvido com oração, exorcizado ou obliterado. Ser transgênero, como ser gay, alto, baixo, branco, preto, homem ou mulher, é parte da condição humana que faz cada indivíduo ser único e é algo sobre o que não temos controle. Somos quem somos nos cantos mais profundos de nossas mentes, corações e identidades. Tive de aprender essa lição de vida e aplicá-la às minhas próprias expectativas de futuro e de futuro para minha família.

Encontrei uma terapeuta especializada em disforia de gênero. O nome dela era Gertrude Hill, e começamos a vê-la imediatamente. Ela era uma mulher adorável, que gentil e calmamente me massacrou com informações que partiram meu coração em um milhão de pedaços. Ela me disse em uma das primeiras sessões: "Linda, esse é Bruce. A identidade dele é a de uma mulher, e isso nunca vai mudar. Você tem uma escolha a fazer. Se Bruce decidir mudar de gênero, como ele está planejando, você tem a opção de ficar com ele depois de ele virar ela, ou então se divorciar e seguir com sua vida". Ela nos disse que um quarto dos transgêneros comete suicídio por causa da depressão e da falta de esperanças.

Naquela época Bruce considerou sair do país, talvez para a Dinamarca, para se submeter à cirurgia de confirmação de gênero, voltando aos Estados Unidos como mulher. Perguntei para Bruce: "E as crianças?" Ele disse que talvez pudesse reentrar na vida delas como a "tia Heather".

Eu estava devastada, mas também sentia demais por Bruce e por tudo o que ele teve de enfrentar durante toda a vida. É impossível para nós que estamos à vontade em nossos corpos entender plenamente o que significa nascer no corpo errado. Sei que é difícil de entender no nível emocional e também no racional. Foi extremamente difícil para mim, assim como foi difícil ajustar minha vida à ideia de que o homem com que me casara - o homem ideal, masculino, maravilhoso - não existiria mais. A entidade humana estava viva, mas era como chorar a morte da pessoa que eu tinha conhecido e aprendido a amar.

Bruce e eu nos separamos depois de cerca de seis meses de terapia - depois de esgotar quaisquer esperanças de manter nossa família unida. Ficar casada com uma mulher não era o que eu enxergava para minha vida.

Estava tão desencantada que entrava no carro e dirigia para cima e para baixo na Pacific Coast Highway, chorando. Chorava pela morte do meu casamento, do meu homem, do meu sonho de passar a vida inteira como uma família unida. Mas também sentia empatia, e luto, pela dor que Bruce sentia a cada dia de sua vida. Apesar da dor que senti, de literalmente ver o chão sumir sob os meus pés, a luta de Bruce era ainda mais difícil. Eu tinha de criar coragem: apoiá-lo em suas decisões com relação a seu corpo, cuidar dos meus filhos e levar adiante minha vida.

Bruce foi ver um certo médico chamado O'Dea e começou a tomar hormônios femininos. Há 30 anos, a única maneira de remover pelos de forma permanente era a eletrólise. Até onde eu saiba, não havia o método a laser. O pobre Bruce começou o processo de eletrólise no rosto, que tinha muitos pelos. Depois passou a remover os pelos do peito. Cada pelo era removido individualmente com corrente elétrica. A dor era terrível. Inimaginável. Bruce começou a formar seios por causa das injeções de hormônios femininos. Minha vida, minha psique, minha feminilidade, minha sexualidade, minha sanidade: tudo estava bagunçado. Entrei em pânico pensando no que dizer para meus filhos sobre seu pai medalhista olímpico. Atravessava ondas de tristeza profunda, não só por mim ou por meus filhos, mas também por Bruce.

Talvez eu seja a única mulher do Estado da Califórnia a abrir mão da pensão para mim e para os meus filhos. Mas, quando me divorciei de Bruce, foi o que fiz. Estava triste e confusa, e Bruce também. A dra. Hill havia me dito que um em quatro transgêneros comete suicídio. Sabia que não queria que isso acontecesse. Bruce podia visitar seus filhos quando quisesse. Brandon e Brody iam para a casa dele às vezes, mas nunca dormiam lá.

Certo dia, depois de passar um tempo na casa do pai, os meninos entraram na cozinha e disseram: "Mãe, vimos o papai saindo do banho pelado, e ele tem peitos!". A partir daquele dia, comecei a proteger Bruce e a mentir sobre o que acontecia com ele. Disse: "Bem, meninos, vocês sabem como seu pai era supermusculoso e treinava muito duro para a Olimpíada? Ele tem músculos grandes, e alguns deles se chamam 'peitorais'. Quando você para de treinar e para de levantar peso, alguns músculos viram gordura. Os músculos dele devem ter ficado meio flácidos e parecem peitos". Estava tentando proteger Brandon e Brody da verdade, e ao mesmo tempo estava tentando proteger Bruce. Era muito cansativo.

Comecei a sair com David Foster, com quem me casaria anos mais tarde. Bruce saiu com várias mulheres, apesar de ter começado sua transição e mostrar sinais dela. Ele não tinha barba nem pelos no peito. Tinha feito uma plástica no nariz e no pomo-de-Adão. Claramente ele ainda estava confuso em relação a uma mudança completa em sua vida.

Se Bruce tivesse me contado sobre a questão do gênero quando começamos a nos envolver romanticamente, não teria me casado com ele. É simples assim. Mas, olhando para trás, sou grata a Deus, ao universo e a Bruce por não saber. Também sou grata pelo papel que Bruce teve em minha vida. Que tragédia para minha existência seria saber da verdade em 1979! Jamais teria tido a honra e o privilégio de ser mãe das duas maiores dádivas da minha vida. A vida se desenrola como deve, e aprendi a confiar nela.

Senti uma obrigação tão grande de manter em segredo a disforia de gênero de Bruce que só contei para meus filhos quando eles tinham 31 e 29 anos, respectivamente. Queria que Brandon e Brody tivessem vivência, conhecimento, confiança e compaixão suficientes para lidar com a verdadeira identidade de seu pai. Não somos definidos pelos nossos pais, mas não sabemos disso quando somos crianças. Tentei criar meus filhos para que eles tivessem coração aberto e fossem capazes de perdoar. Eles têm bons valores e são notavelmente nobres.

************

Não estaria sendo inteiramente honesta se não escrevesse que, depois do casamento de Bruce e Kris, houve vários longos períodos em que ele não entrou em contato nem visitou seus filhos. Ele não ligava no dia do aniversário deles, não desejava Feliz Natal. Nem ligou para saber se estava tudo bem depois do terremoto de Northridge. Brandon e Brody não terão essas memórias de momentos especiais com seu pai. Eles ficaram tristes com a ausência de Bruce em suas vidas, e isso parte meu coração. Quando Brandon perguntou: "Mãe, que tipo de pai não vai à formatura do próprio filho?", respondi sem jeito: "Seu pai pode ter sido o maior atleta do mundo fisicamente, mas emocionalmente ele precisa de cadeira de rodas. Se ele tivesse pernas emocionais, ele viria até você, mas ele não consegue. Tente entendê-lo, amá-lo e perdoá-lo". A analogia funcionou na época, e acredito que o perdão é uma bênção - ainda mais para quem perdoa. Guardar ressentimentos só serve para nos machucar. Acredito que tudo pode ser perdoado; certas coisas são indesculpáveis, mas ainda assim perdoáveis.

Quando Brandon e Brody era crescidos e revelei as questões de seu pai, eles conseguiram entender um pouco melhor a ausência de Bruce. Eu certamente tive de racionalizar muito.

************

Depois de guardar esse segredo, e sentir no meu coração e na minha mente que tinha de protegê-lo esse tempo todo, agora respiro aliviada. Sei que ele encontrou a força e a coragem para alcançar seu sonho. Ele finalmente poderá ser quem é de verdade, quem ele nasceu para ser. Isso exige uma coragem tremenda. Eu o louvo por isso.

Bruce já sofreu demais. Foi prisioneiro em seu próprio corpo. Certamente não é nosso papel julgá-lo ou a outros que se sintam presos, ostracizados ou solitários.

Espero que a humanidade tenha evoluído o suficiente e tenha sido adequadamente educada para demonstrar bondade para com quem sofre ou é percebido como "diferente". Nossa individualidade nos faz seres fascinantes. Espero que aceitemos isso. Rezo para que achemos no fundo dos nossos corações a compreensão, a tolerância, a aceitação e a compaixão. Estamos juntos nessa vida.

Como aconselhou sabiamente Henry James, as três coisas mais importantes da vida são:

Seja bondoso.

Seja bondoso.

Seja bondoso.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.