OPINIÃO
18/03/2015 14:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

É parto, política ou jogo de futebol?

DanielVilleneuve via Getty Images
Outline of a crowd of angry people,

- Essa polarização do brasileiro é muito limitadora. No país do futebol, tudo anda virando futebol: em vez de debater ideias, as pessoas querem bater umas nas outras por causa das suas ideias!

A fala acima não se refere ao atual cenário político no Brasil. Veio de uma amiga minha, médica. Ela não estava tocando na questão direita versus esquerda, mas na cesárea versus o parto natural.

Na mesma hora, entendi o que ela estava dizendo. Lembrei de quando eu estava grávida e, no elevador, uma vizinha com quem eu só havia trocado cumprimentos até então, uma vizinha que nem sabia meu nome... Olhou para a minha barriga e disse, com uma indignação que eu não esperava: "Vai ser parto normal, né?!".

Murmurei que achava que sim e, no fim das contas, acabou que meu parto foi normal, mesmo. Não foi natural, mas, ao menos, não foi cesárea (entre direita e esquerda, fiquei na posição centro-esquerda, talvez?). Mas a questão levantada pela minha amiga e reativada na minha memória pela fala da vizinha é: temos mesmo que ser tão preto no branco, se algumas questões estão mais, com perdão do trocadilho, para cinquenta tons de cinza?

- Hoje, com o avanço da medicina, é inadmissível que uma mulher morra no parto - minha amiga continuou. - Muitas morrem pelo mundo afora, em áreas de pobreza, sem acesso a hospitais. Você sabe quantas mortes a cesárea evita? Por que demonizar a cesárea?

Tomo as dores da minha vizinha e falo que não se demoniza a cesárea, mas o excesso de cesárea. Ela responde:

- Criticar o excesso de cesarianas, criticar médicos que, por comodismo, fazem praticamente só cesáreas... Isso é uma coisa. Aí, assino embaixo. Acho, inclusive, que ninguém deveria fazer cesariana com hora marcada: faz muito mais sentido ver como o trabalho de parto evolui, e então fazer a cesárea só se necessário. Mas, Lili, não é disso que estou falando. Estou falando desse radicalismo que transforma o momento do nascimento do filho em um ato político. Estou falando dos seguintes casos para você:

1) De uma gestante que deu entrada no hospital há alguns meses deixando claro que seu parto seria normal. Não houve dilatação, não houve nada, e ela insistindo pelo parto normal. Até aí, entendo. Mas veja: num determinado momento, os exames começaram a indicar mal-estar fetal. Ou seja, o bebê já estava sofrendo dentro da barriga da mãe. E o que essa mãe fez, mesmo dispondo de todos os recursos? Continuou insistindo pelo parto normal. Ela só desistiu quando o obstetra disse que traria um termo de responsabilidade para ela assinar, porque o bebê corria risco de morte. Ela autorizou a cesárea. O bebê nasceu. E ela, em vez de ficar feliz porque tudo tinha dado certo, ficou mal-humorada, triste, chorou e nem olhava direito na cara do médico, o terrível fazedor de cesáreas que tinha salvado a vida do filho dela.

2) Gestante número dois. Parto em casa. Horas de trabalho de parto. O bebê não saía. O marido falou em ir a um hospital próximo; a mãe, apesar das dores, não aceitou. Contrariada, depois de tentarem mais um tempo, ela aceitou ir ao hospital. Adivinha? O bebê nasceu morto. Um bebê que estava perfeitamente bem no ultrassom feito no dia anterior, um bebê que poderia ter nascido perfeitamente bem em uma cesariana, nasceu sem vida.

Voltando para casa, depois de conversar com minha amiga, fiquei pensando: se falamos tanto em direito de escolha quando o assunto é aborto, por que tantas mulheres pelos elevadores afora querem mandar no parto umas das outras? Por que tanto julgamento, na maioria das vezes raivoso, muitas vezes sem conhecimento?

Mais que isso, fiquei pensando: por que a polarização parece ganhar cada vez mais espaço entre os brasileiros? Por que optar pela simplificação do binário em vez de assumir a complexidade do múltiplo? Acima de tudo, por que canalizar tanta energia raivosa para tomar um posicionamento, em vez de perseguir termos que andam soando quase ultrapassados, como "equilíbrio" e "ponderação"? Por que tantos de nós estão se deixando cegar pelo radicalismo?

Não sei. O que sei, ou acho que sei, é o seguinte: o discurso de ódio é perigoso. Por melhor que seja um argumento, ele não é nada quando despido da sensibilidade. Por mais inteligente que alguém seja, a raiva nubla essa inteligência. E sobra um olhar limitado da vida, do mundo, dos seres humanos e das mais diversas situações. Estejamos falando de partos ou de partidos.