OPINIÃO
28/01/2015 10:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Quando o amor - ou a violência - altera a genética

De nada vale a melhor seleção de genes se essa criança não for amada, cuidada e preservada incondicionalmente durante sua infância. Maltratar uma criança é capaz de mudar para sempre sua vida. E isso não é crendice, superstição ou papo de gente alternativa: é a ciência mais atual, publicada nas melhores revistas científicas do mundo.

Blend Images - Jose Luis Pelaez Inc via Getty Images

Há um certo tempo, andou circulando uma matéria muito interessante que diz respeito diretamente a quem tem crianças, cuida de crianças e vê na forma de cuidado que se oferece a elas uma maneira de intervir na sociedade - presente e futura - e que aproxima a genética ao cuidado diário que oferecemos aos nossos filhos.

A matéria, com o título de "Pioneiro da epigenética fala sobre relação entre ambiente e genoma", abordava uma questão fundamental: a qualidade do cuidado parental nos primeiros anos de vida e a exposição a maus tratos na infância perduram, realmente, ao longo da vida. E nos fez refletir sobre que tipo de alterações os cuidados negativos promovem no indivíduo que é maltratado. Nela, são apresentados os resultados e conclusões das principais pesquisas realizadas por um cientista chamado Moshe Szyf, professor de Farmacologia e Terapêutica na Universidade McGill, no Canadá. Ele foi um dos primeiros cientistas a sugerir que "os hábitos de vida e o ambiente social em que uma pessoa está inserida poderiam modular o funcionamento dos seus genes". Em outras palavras: ele foi um dos primeiros a propor que aquilo que o indivíduo vive tem capacidade de alterar sua genética. Não altera a constituição genética em si, mas a forma como ela funciona, e a consequência disso seria um alteração profunda e duradoura, de base genética, em seu comportamento futuro. É de Moshe Szyf, também, a afirmação pioneira de que o processo pelo qual o genoma controla o funcionamento do corpo humano funciona na dependência do ambiente e acontece desde a vida uterina. O que, em última análise, significaria dizer que a qualidade da gestação já seria o primeiro fator de cuidado materno/parental capaz de modificar para sempre o indivíduo.

Em um dos experimentos realizados, Szyf e sua equipe compararam dois grupos de ratas: aquelas que haviam recebido lambidas frequentes de suas mães quando ainda bebês e aquelas que não haviam recebido qualquer tipo de cuidado materno. O resultado: os animais que receberam cuidados maternos sadios transformaram-se em animais adultos mais tranquilos, quando comparados com os que não receberam. E isso porque o bom cuidado materno foi capaz de produzir mudanças cerebrais que permitiram a regulação dos níveis dos hormônios do estresse ao longo de toda sua vida adulta.

Vamos repetir a ordem dos fatores, usando outras palavras: o carinho, a atenção e o cuidado que os filhotes receberam foram alterando a maneira como seu cérebro se formava, se moldava, se organizava. E essa mudança permitiu que, na idade adulta, não desse uma "louca" nos níveis dos hormônios do estresse. Ou seja: o carinho produziu seres mais equilibrados, física e mentalmente.

Você pode estar rindo aí do outro lado, dizendo que isso não tem nada a ver com você porque, afinal, você é um homem e não um rato. Ou uma mulher e não uma rata. E que se você bate no seu filho, ou o humilha, ou o ridiculariza, ou não está nem aí pra sua gravidez, isso é um problema seu e não tem nada a ver com essa coisa de rato. Mas saiba que tem muito de rato em você e muito de você no rato. Sem metáforas. O mesmo para todos os outros animais da classe Mammalia, os mamíferos. Porque, evolutivamente, somos todos irmãos (aleluia!) e funcionamos de maneira muito parecida, principalmente genética e neurofisiologicamente. De forma que o funcionamento biológico de um pode servir como modelo para o funcionamento do outro.

Tudo bem. Se você ainda não está convencido, saiba que esses pesquisadores se uniram a um grupo de neurocientistas do próprio Canadá e a outro de Singapura, com o objetivo de analisar os cérebros de pessoas vítimas de suicídio. Buscaram o histórico dessas pessoas, entrevistaram membros da família e conseguiram identificar quais deles haviam sofrido abuso severo na infância (verbal, físico ou sexual). E o que observaram foi que entre os que sofreram abusos, os genes que regulavam a expressão dos hormônios do estresse estavam 40% menos ativos do que os demais ou de pessoas que morreram por outras causas. A conclusão você mesmo pode supor: maus tratos vividos na infância deixam o cérebro mais vulnerável ao estresse... E se é o cérebro quem controla e regula o comportamento emocional dos indivíduos, pode-se supor, portanto, que a reação das pessoas que viveram maus tratos quando crianças, frente a episódios de estresse, será muito diferente das que não foram maltratadas. Além disso, o pesquisador e sua equipe mostraram, também, que o mesmo acontece quando a mãe vive situações de estresse durante a gravidez...

Isso tudo significa que, mesmo que seu filho ou filha tenha a melhor seleção dos genes de seus pais, que tenha herdado somente genes que em condições normais o ajudariam a ser física e mentalmente equilibrado, de nada vale isso se essa criança não for amada, cuidada e preservada incondicionalmente durante sua infância. Que maltratar uma criança é capaz de mudar para sempre sua vida. E que isso não é crendice, superstição ou papo de gente alternativa: é a ciência mais atual, publicada nas melhores revistas científicas do mundo.

Por que divulgar algo assim? Para que, como disse o próprio pesquisador, tenhamos mais consciência da consequência de nossas escolhas. Para que a ciência, mostrando os reais efeitos da violência, possa ajudar pessoas a mudarem suas escolhas, suas alternativas e a adotar novas formas de viver e de lidar com outros seres, principalmente as crianças, que estão se formando e que podem ter uma vida plena e saudável pela frente quando cuidadas com amor, desvelo, cuidado e não violência.

Ressalto também uma frase dita pelo próprio pesquisador:

"Quando eu era um jovem pai, a ideia predominante era deixar a criança chorar para ela aprender a se virar sozinha. Hoje, não fazemos isso porque temos medo do estresse que isso vai causar e de suas consequências. Da mesma forma, temos feito fertilização in vitro, barriga de aluguel, cesarianas desnecessárias, sem pensar muito sobre as consequências disso para a criança. Precisamos começar a avaliar o custo-benefício e tomar decisões conscientes, com base em informações".

Então, se você acha que tudo bem dar palmadas para ensinar (palmadas que assustam, humilham, envergonham e ferem, dia a dia, a autoestima de uma criança); se você acha que tudo bem deixar chorar até dormir (e produzir aflição e sensação de abandono e desamparo em um bebê que acabou de chegar ao mundo e que, tão cedo, está aprendendo que não adianta chamar porque sua mãe e seu pai não o atenderão); se você acha que tudo bem trocar o peito por mamadeira ainda que você tenha total condição de amamentar (deixando de permitir que seu filho se alimente de você e tenha momentos da mais pura intimidade, cumplicidade e conexão); se você acha que tudo bem marcar sua cesariana antes que seu bebê esteja pronto para nascer, se você acha tudo bem tudo isso, saiba: você está no seu direito. Mas isso não faz desaparecer tudo o que sabemos hoje. Isso não anula o futuro. Isso não protegerá seu filho de algo importante: as consequências das escolhas. Não feitas por ele, mas por seus pais.

Se queremos filhos responsáveis, conscientes da relação causa-consequência de seus atos, de nada adiantará falar: é de exemplo que eles precisam. Já passou da hora de abandonarmos as desculpas e assumirmos os efeitos de nossas escolhas.

Filhos saudáveis não brotam no jardim. É a gente que planta e cultiva.

*Texto originalmente publicado no blog Cientista Que Virou Mãe

Ligia Moreiras Sena é cientista. E mãe. Autora do blog Cientista Que Virou Mãe e do livro "Educar sem violência - criando filhos sem palmadas".

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