OPINIÃO
08/02/2014 14:42 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Woody Allen, Coari e o que importa: suas vítimas

Reprodução/TSE

Um dia Woody Allen escreve um artigo no New York Times negando ter abusado sexualmente da filha Dylan. No outro, o prefeito de Coari, Adail Pinheiro (PRP), tem prisão preventiva decretada por acusação de crimes de pedofilia e prostituição infantil. Coari, rio do ouro, que agora o Brasil conhece pelo Fantástico não porque é o município que mais ganha dinheiro no Amazonas com royalties de petróleo, mas por esse filme triste que mais parece vida real. Parece e é real para quem vive por aqui. É distante, é inspiração para roteiro de novela ou minissérie para quem vê pela tela da Globo.

Em comum, as histórias tem o mesmo centro: crianças machucadas na alma para sempre. Dylan, tendo sido abusada pelo pai ou manipulada pela mãe para mentir, é a maior vítima. O tal prefeito sendo culpado ou não, não encobre a ampla rede de crianças e adolescentes alvos de lobos de meia idade ávidos por "carne tenra" (termo disgusting que ouvi certa vez em uma das gravações da polícia), sempre vendidas por pais sem moral, sem escrúpulos e sem meios de prover às famílias ao menos a terceira cesta básica mais cara do país (que no interior do Amazonas duplica o preço).

Nessas histórias todas de abuso sexual contra crianças e adolescentes, até por efeito do Estatuto, nós, jornalistas, raramente temos acesso e conversamos com as crianças em on. Se podemos publicar, é sempre sob pseudônimo, fotos desfocadas e, claro, tudo isso põe dúvida sobre a veracidade da entrevista (com certeza extremamente necessário para preservar a criança já tão violentada). Mas muitos repórteres extremamente curiosos, que ousam investigar mesmo sabendo que não vão publicar uma ou outra história, sempre conseguem um jeito para isso. Para conversar e olhar nos olhos de uma criança que foi molestada. É importante esse contato, é duro, mas é importante para um repórter. Talvez essa seja a entrevista, a conversa mais dura que uma pessoa (sendo ou não pai ou mãe) possa ter na vida.

Um dia, tive uma dessas conversas com uma criança aqui em Manaus, sob o acompanhamento de uma psicóloga. A menina tinha 10 anos e tinha sido resgatada praticando sexo oral num monstro na Praça da Polícia, em Manaus. Ia receber 5 reais. Aparentava mais idade no corpo, mas não nas perninhas finas, balançando na cadeira enquanto eu conversava com ela. Tinha sido abusada sexualmente pelo padrasto desde os 4 anos. Claro, a mãe sempre jurou não perceber nada, embora a casa tivesse apenas um cômodo. Um.

Na maior parte da conversa, ela olhava para o chão e eu buscava o seu olhar. Foi quase uma hora de entrevista, ouvi detalhes sórdidos dos sussuros dele, da menina sendo estuprada e a mãe olhando calada para ela da cama, do irmão bebê ao lado, da menina crescendo e saindo de casa dizendo que ia para a escola, mas desviando para a Praça para praticar em estranhos e por dinheiro o que já fazia de graça para o padrasto. Tanta coisa que não sai da minha memória. Durante esse tempo, consegui cruzar meus olhos com os dela só três ou quatro vezes. E eu não tenho nenhum adjetivo exceto "vazio" para descrever aquele olhar. Eu tive uma vontade muito grande de abraçá-la no fim da entrevista e ela deixou, mas ficou dura, sabe, como quem não aprendeu a abraçar? Às vezes me pergunto por onde andará essa menina.

Uma criança abusada sexualmente, especialmente as menorzinhas, não tem ideia se aquilo que estão fazendo com ela é certo ou errado. Dói, então deve ser errado. Mas o primo, o tio, o pai, o padrasto, não costumam seguir aquela dor com tapas, mas sim com carinho e o sussuro que aquilo é um segredo. E criança gosta de brincar de guardar segredos e procurar tesouros. E a cabecinha da criança fica muito confusa. Quando o crime é descoberto (se é), ela começa a entender que aquilo, não, não era certo. Mas sendo ou não descoberto, essa criança ficará machucada para sempre. Toda sua vida, seus relacionamentos, seu modo de encarar as dificuldades e os nãos da vida, serão ditados por aquela mancha da infância.

Quando leio essas histórias sobre Coari, o município mais rico do Amazonas (ganham royalties de Petróleo, relembro para vocês), recordo a cidade desoladora que conheci, onde fui umas duas vezes. Uma lembro bem que para o início do risível gasoduto Coari-Manaus, quando Lula foi inaugurar o início das obras. Uma cidade com muitas ruas sem asfaltos, sem prédios, escolinhas tímidas, sem um supermercado decente (também lembro que à época ainda tomava refrigerante e estava em falta coca zero e eu quase pirei). Hotéis, uau, um capítulo à parte que não cabe aqui.

Lembro de morrer de pena (cada qual tem o olhar mais sensível a estímulos, os meus são esses) de tanto cachorro errante e...tantas menininhas de calcinhas pelas ruas. É, é muito quente e aquilo parecia "natural", um colega de um outro jornal comentou quando eu lamentei. Menininhas de calcinhas, outras de sainhas curtas e sem camiseta. As que já tinham seios, com microblusas. Não, não estou dizendo que quem usa minissaia pede para ser estuprada. Estou falando de menininhas sem cuidado de pais ou mães, sem a mãozinha dada com pais ou mães, para ficarem ali, no meio de adultos suados e fumantes, espiando o presidente da República.

Essas crianças não deveriam estar na escola? E se não na escola, de mãozinha dada com adultos que as protegem, que cuidam delas? A mãozinha dada a um adulto que cuida, que protege, que nunca machuca.... Eram menininhas de olhares vazios, que me confundiam pela pureza e dureza ao mesmo tempo, cheios de desesperança, ou haveria um brilho de esperança de ganharem um troquinho para comprar um biscoito ou uma bala? E ganhariam também um afago que podia ir para algo mais além? Isso me dá calafrios. E nojo. E raiva. E um terrível sentimento de impotência.

A realidade cruel de meninos e meninas nas ruas é comum em qualquer capital (e alguns interiores). Mas sinto, vejo, apuro, que no interior da Amazônia ainda é muito obscuro, secreto, ignorado mesmo pela grande mídia. Ainda precisa sair muito no Fantástico para a Justiça chegar até aqui. Já se vão mais de vinte anos, por exemplo, que eu e minha amiga Wilsa Freire entrevistamos o Gilberto Dimenstein para o jornal A Crítica quando ele veio, em 1991 ou começo de 92, apurar sobre os meninos e meninas de rua daqui da selva ao seu ótimo "A Guerra dos Meninos", livro-reportagem lançado em 1994. A guerra continua e eu asseguro que piorou. Muito.