OPINIÃO
20/03/2014 14:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

De novo, cheia no Madeira

Os fenômenos que afetam a Amazônia são inexoráveis e inevitáveis, são desígnios de Deus ou ordem da natureza. A proporção é que é variável, mas sempre fazem estrago. A culpa disso é de quem?

Os fenômenos que afetam a Amazônia, cheias e secas dos rios, são inexoráveis e inevitáveis, são desígnios de Deus ou ordem da natureza (para quem é ateu). A proporção é que é variável, batendo ou não recordes. Mas sempre fazem estrago, grandes estragos. A culpa pelos estragos é de quem? Resposta fácil: dos políticos locais (e daqueles lá de Brasília), claro. Porque o grande problema, maior que as chuvas fortes, a cheia ou a seca dos rios, é a falta de interesse e compromisso político em toda a região para criar meios de ao menos minimizar, com a antecedência que é possível, os efeitos desses fenômenos na vida do homem e dos animais da Amazônia.

Acontecem todos os anos (esses fenômenos naturais) e as áreas de risco são mapeadas também há anos (basta pedir à Defesa Civil do Estado). Por que não mudar as pessoas e os bichos das áreas de risco? Por que todo ano as escolas, igrejas e quadras é que têm de servir de abrigo improvisado? Por que esse prazer em decretar estado de calamidade pública ou emergência nos mesmíssimos municípios todos os anos, nas mesmas épocas? Um prazer, diga-se, muito curioso que permite a dispensa de licitações para compras urgentes de bens ou contratação de serviços, por exemplo.

Aliás, já virou piada de quem trabalha em jornal, rádio ou TV local (jornalista faz piada com desgraça para desestressar, não somos tão maus) a ideia de tirar reportagens sobre as cheias e secas do arquivo e só mudar a data. Porque o cenário não muda: é criança fora da escola porque está alagada (na cheia), é terra alagada que destrói as plantações, é escassez de peixes (na seca), são animais de estimação e gado, patos, galinhas morrendo afogados ou com sede. E sempre: a fome para todos.

Os rios sobem ou descem sem a rapidez das alagações no Rio de Janeiro ou as que cobri na área do Butantã em São Paulo (lembro de uma personagem ótima, que rendeu foto na primeira, pendurando no varal seus livros ensopados). Têm pessoas que são arrastadas pela força da água no meio da rua e morrem, não? Aqui não, a lentidão na subida e descida permite que o ribeirinho fuja de sua casa e, felizmente, não há mortos humanos dessa forma "acidental" (levado pela força da água), mas alguns casos, raros, de doenças que chegam também como herança desses estragos. Ou seja, até essa lentidão na subida ou descida no nível dos rios facilitaria a ação política para minimizar o sofrimento de quem vive por aqui.

A cheia atual do Madeira, é claro, está bem acima do esperado e certamente estaria ultrapassando todas as medidas emergenciais pré-cheia (se tivessem feito). Mas certamente muitos males seriam evitados. A mídia brasileira começou a cobrir a cheia agora, redescobrindo o lado desolador do isolamento da Amazônia. Mas, há duas semanas, vi num site fotos tristes e bem familiares, só que do lado da cheia na Bolívia. Pessoas com água quase no pescoço transportando alimentos, cidades alagadas e fotos chocantes do gado morrendo afogado nas águas do maior afluente do Solimões.

É até difícil ler reportagens onde alguém lembre dessa parte considerada pela maioria como "menor", o sofrimento dos animais. Mas há textos mais sensíveis, como a de A Crítica, onde a repórter Carolina Silva relata cena déjá vu muitas e muitas vezes: "Antes de chegarem à área de terra firme, muitos animais acabam morrendo. A enchente coloca em risco até animais ameaçados de extinção. Na comunidade Liberdade, um tamanduá-bandeira acabou sendo morto por um ribeirinho após ser encontrado debilitado devido a tentativa mal sucedida de procurar a terra firme. O morador alegou que não havia condições para tentar salvar o animal. Os cães também tentam se salvar como podem. Ficam dentro de canoas, em cima de marombas ou dentro das casas de seus proprietários. (...)De acordo com a prefeitura, 100 patos, 300 galinhas e 250 porcos não conseguiram sobreviver à grande enchente."

Lembro quando cobri para o Estadão a maior seca pós 1963, em 2010, de observar pedaços de ossos de gado e cachorros, andando pelo leito de um igarapé seco, que lembrava bem mais o cenário de Vidas Secas do que o clichê da fartura eterna de água e verde da Amazônia. A seca de 2005 também foi cruel, sempre é. E também lembro da cobertura da cheia de 2006, de 2011, e da mais terrível que cobri, a de 2009, a segunda maior cheia da história do Amazonas, só superada pela de 1976. Muitas, muitas palafitas só com o teto de fora d´água, ou pela metade, no meio do nada, ilhadas. Eu acho que a cheia dos rios é sempre mais cruel que a seca. Ou não, difícil de dizer, mesmo assistindo de perto às duas.

Nas cheias, vi cachorros mortos afogados, inchados, boiando, galinhas também. Uma vez, numa dessas coberturas de cheia, procurávamos personagens em uma canoa, quando passamos por uma choupana no meio do nada e da água. Quatro cachorros latiam loucamente. O canoeiro disse "é fome, sabe lá há quantos dias estão aí sem os donos". Na hora, eu e o fotógrafo (não lembro se Alberto César Araújo ou Jonne Roriz) pedimos para o canoeiro voltar à sede do município para comprar uns quilos de jaraqui para alimentá-los.

Eu, pensando nos gorduchinhos de ração em casa, imaginava que eles iriam se engasgar mastigando as espinhas. O canoeiro riu de minha preocupação. Eles devoraram os peixes, sem mastigar, abanando os rabos de satisfação. Eu não sei se foram resgatados pelos donos, se os donos voltaram lá, se eles sobreviveram, e deu angústia de não poder fazer nada além de alimentá-los naquele momento.

Todo esse cenário de desolação agora no Madeira é familiar para quem cobre ou cobriu a região. E, repito, ele não muda, é sempre o mesmo: os nomes dos políticos que agem com o mesmo descaso aos ribeirinhos e seus animais de estimação ou alimento é que mudam.

P.S. Excelente artigo, aqui, do arqueólogo Eduardo Góes, com descrição do cenário desolador em Porto Velho e as possíveis causas para a cheia estar mais cruel do que outras passadas (as barragens, uma ajudinha à cruel natureza, para piorar ainda mais a cheia desse ano). "Não é possível ainda afirmar que a construção das barragens tenha uma relação com as cheias e o aumento da erosão do rio Madeira, mas, dadas as características hidrológicas do rio, é bem possível que se verifique essa correlação. O que é inegável, a essa altura, é o abandono em que se encontra a cidade de Porto Velho: esqueletos de viadutos, prédios inacabados, ruas esburacadas. Aparentemente o legado das usinas tem sido a criação de ruínas, além do aumento da violência e, agora, esta inundação."