OPINIÃO
12/03/2014 11:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

A Arena Amazônia é nossa (dos brasileiros)

A melhor observação que li na minha timeline: "Pergunta de jornalista é para incomodar mesmo, extrair verdades incômodas. Não é para bajular autoridades, mesmo porque já tem muita gente fazendo isso por desvio de caráter ou interesse material."

Mário Monteiro foi meu primeiro editor, no jornal Amazonas em Tempo, em 1991, último ano da faculdade, antes de trabalhar uns meses em A Crítica e partir para São Paulo. Ele nunca assinou nenhuma coluna na Folha ou na Veja ou fez comentários na Globo, portanto, não é conhecido nacionalmente. Mas, na timeline da minha vida, ocupa um lugar de destaque: foi um dos mais éticos e competentes editores de quem tive a honra de ser repórter. Monteiro escreveu uma das melhores frases na minha tl do Facebook depois da polêmica resposta do governador do Amazonas a um repórter:

"Nada me preocupa mais do que ver jornalistas criticados pelas perguntas 'impertinentes' que fazem. Pergunta de jornalista é para incomodar mesmo, extrair verdades incômodas. Não é para bajular autoridades, mesmo porque já tem muita gente fazendo isso por desvio de caráter ou interesse material."

É o tipo de repórter que sempre quis ser, o repórter watchdog. Sempre quis e nem sempre consegui, ninguém consegue todo dia, mesmo que queira muito. Num mundo tomado por corrupção, crises de ética e moral desvirtuada, qual seria o papel do jornalismo a não ser cutucar o poder, questioná-lo? Fazer press releases? Depois dessa resposta do governador, o que choca não são os puxas-saco de plantão aplaudindo a resposta atravessada, mas alguns jornalistas comemorando.

Não seus assessores de imprensa, mas jornalistas de outros veículos. A lógica seria que eles (os coleguinhas que acompanham a coletiva) continuassem a questionar o governador, junto com o repórter da ESPN (ô canal chato, cheio de gente fazendo piadinhas infames sobre o calor de Manaus ou Cuiabá e sobre o futebol local), já que ele mesmo parece ter desistido de insistir na pergunta. Porque, na minha humilde visão, a lógica é que se você está num veículo que não te permite fazer essa pergunta (sim, não há liberdade de imprensa, mas sim de empresa), então comemore quando um colega está num veículo que pode dar esse cutucão numa autoridade. E isso (a liberdade de empresa) vale de norte a sul do país, não é privilégio da imprensa regional, convenhamos.

Fui criticada por alguns colegas jornalistas nas minhas redes sociais porque vivo questionando o quase nada que é o tal legado da Copa para o Amazonas, para Manaus, que é o (lindo, diga-se, porém R$ 250 milhões mais caro que o estimado) estádio e o início da ampliação do aeroporto (comecinho mesmo). Só. É acho pouco, vivemos num Estado cheio de carências, queria muito mais.

Se tivessem ao menos resolvido parte do problema de mobilidade urbana: 2% da frota de Manaus é de ônibus e transporta diariamente mais de 50% da população, dados oficiais da Superintendência Municipal de Transporte. Vá no Google buscar as peripécias para não construírem o monotrilho e o BRT, e a piada que é o corredor do pomposo (só no nome) BRS na avenida Constantino Nery, que é tudo muito divertido (especialmente para você que não vive na pele esse trânsito estressante).

Mas vem cá: porque não posso questionar e reclamar? Só posso elogiar? E olha que sou quase nativa, heim? O dinheiro não é público? Não é dinheiro nosso, do Brasil? Sim, claro, e ao contrário do que o governador falou sim, também é problema da imprensa do Sul. É problema de todos nós. Deveria ser problema da imprensa local também. O legado, na verdade tem de ser cobrado por nós, os que moram aqui no Amazonas (e não importa onde nascemos), porque, aí sim, a imprensa do sul não vai estar por aqui depois da Copa para cobrar. Nós é que teremos de cobrar para que a Arena não vire um gordo e inerte elefante branco (branca ela já é). Vamos fazer o amazonense que curte futebol ter time local e deixar desse de ser só Flamengo. Vamos fazer shows de rock, de samba (que seja) e, principalmente, espaço para escolinha de futebol para os meninos que jogam bola na rua atrás da Arena (no bairro Alvorada, bairro pobre e violento da capital).

Não queria essa Copa aqui, mas não tive escolha. Sou toda apoio à festa, a futebol e carnaval, para quem gosta. Deixa o povo se "opiar". Se não tiver briga de torcida então, fico feliz até. Mas, e depois da Copa? Insisto: e depois? Eu não gosto de futebol, ok, mas o problema do legado da Copa é meu também, de todos nós. O dinheiro que ergueu a Arena é nosso, dos brasileiros, repito. O que é quase criminoso (se vem de um formador de opinião) é promover um apartheid preconceituoso de dizer que só porque você não nasceu numa determinada cidade, você não teria direito de opinar sobre ela.

Que ufanismo, no mínimo, infantil é esse? Marmota (amazonês) essa mania de perseguição mais besta: a imprensa inteira está cobrando o tal do legado da Copa em todas as cidades-sede, basta se dar ao trabalho de procurar informação na grátis internet.

Percebo aqui esse tipo de comportamento, de não aceitar críticas sobre Manaus que venham de quem é "de fora", num bairrismo desmedido (e por vezes agressivo, se vocês pudessem ler o que li na minha tl) ou outro (comportamento) tão ruim quanto, tão bem descrito nesse artigo do professor Sérgio Freire (http://amazoniareal.com.br/a-dupla-fundacao-de-manaus/), da supervalorização do que é "de fora", em detrimento dos talentos locais. Dentro da civilidade, todos devemos cobrar o que fazem do dinheiro público por aí, Brasil afora, seja para a Copa ou não.

O Amazonas, digo os 61 municípios esquecidos do interior, carecem de "tudo um muito": saneamento básico, médicos, postos de saúde, escolas. E eu, que não apito em nada, se apitasse, friso, jamais aprovaria a Copa aqui se soubesse que nada desse quadro aí acima iria mudar. Meu Deus, e se pudesse evitar a morte dos quatro operários, mortos no frenesi apressado para sua construção....Mesmo não gostando de futebol, contudo, acreditei quando me contaram, a imprensa local e do sul, que ia ter um legado, melhorias à cidade-sede.

Ok, a maquiagem rolou nos arredores da Arena, há more and better restaurantes em Manaus e o turista que vier assistir aos jogos aqui vai ter belos passeios a fazer, não nego e faço até propaganda porque o verde é o melhor da minha terra. Mas, na real, quem tem leitura crítica também consegue ver que derrubaram árvores, que mataram a nascente de um igarapé e outras barbaridades.

Mas agora Inês é morta, certo? Mais ou menos, ora, porque agora, o estádio está aí e eu estarei daqui, cobrando ação para dentro daquela Arena (e convido todos a cobrarem, do Oiapoque ao Chuí). O Teatro Amazonas não é um elefante branco, a ponte milionária sobre o rio Negro não é um elefante branco, assim como a arena Amadeu Teixeira e a Vila Olímpica. Foram obras caras, na maioria criticadas e alvo de denúncias de irregularidades e superfaturamentos, mas estão aí, servindo, não são obras inúteis.

Portanto, como diz uma manjada propaganda política local para levantar a autoestima do povo daqui (a minha já é muito bem resolvida), eu tenho e sempre tive orgulho de ser amazonense (embora não tenha nascido aqui), mas sempre com a liberdade de poder cobrar politicamente o que fazem dessa terra os políticos daqui (alguns que eu ajudei a eleger, portanto, mais que legítimo meu direito de cobrar). Cobrar os daqui é mais fácil, porque, fora a ação do Mais Médicos, o governo federal só lembra (desde FHC) que o Amazonas existe quando mencionam a Rain Forest em algum evento internacional.