OPINIÃO
02/04/2014 11:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Ser feliz está na moda. Ser mulher, também!

Uma conversa com a jornalista Ana Paula Padrão, que está lançando sua autobiografia, O amor chegou tarde em minha vida.

Divulgação

No próximo dia 7 de abril, a jornalista Ana Paula Padrão lança sua autobiografia, O amor chegou tarde em minha vida, pela editora Paralela. Com a São Paulo Fashion Week tendo começado na última segunda-feira e as portas da SPArte se abrindo, você deve estar se perguntando: o que um livro desses tem a ver com uma coluna de moda?

Tudo.

Ana Paula Padrão é bastante conhecida da minha geração - os nascidos ali em meados de 1980 - e também da geração anterior, por conta principalmente dos 18 anos em que participou ou capitaneou muitas das mais importantes coberturas jornalísticas da Rede Globo. De 1987 a 2005, foi repórter, correspondente internacional e apresentadora dos dois telejornais líderes de audiência no país.

Quando atingiu a "maioridade" na mais poderosa emissora do Brasil, a surpresa: Ana Paula decidiu se desligar da empresa e se aventurar na concorrência. Para os colegas de profissão, e também para sua legião de admiradores, a escolha foi considerada absolutamente controversa. Para não dizer... insana. Seu novo destino, o SBT, era - e ainda é - conhecido por não apostar devidamente no jornalismo.

No entanto, tal opção - fruto de uma demorada e ponderada decisão, que envolveu, em suas próprias palavras, planejamento, estratégia, razão e entrega -, ia muito além de uma mera reviravolta profissional. Ao deixar uma das posições mais nobres do jornalismo brasileiro e a maior emissora do país, Ana Paula optava por embarcar em uma jornada de autoconhecimento, que resultou no encontro do equilíbrio para lidar com todos os desafios da condição feminina e ainda vivenciar plenamente as dores e delícias de ser mulher.

E chegamos, então, ao ponto crucial: não há nada mais em voga - vide os últimos debates sobre nós, "as meninas" - quanto a busca incansável por respeito, satisfação, reconhecimento e felicidade. E tudo ao mesmo tempo e agora.

A vida como ela é: feita de escolhas

Durante a conversa comigo na sede de sua produtora, a Touareg, em São Paulo, Ana Paula Padrão abriu-se com a mesma franqueza das páginas de seu livro. "Quando olho para trás, sinto pena da pessoa que eu era. E não apenas porque eu não me vejo ali, mas porque me via pela metade", escreve a jornalista, logo no início da narrativa.

Por essa e outras sensações, o último dia na bancada na Rede Globo foi completamente diferente do primeiro. Enquanto em sua estreia se perdeu nos corredores da emissora depois da maquiagem e quase entrou no ar sem microfone, o tom da despedida pode ser resumido pelas duas palavras que batizaram o primeiro capítulo: "Estranha tranquilidade". "Não era apenas mudar de trabalho. Era um gesto consciente para mudar de vida", explica, ao falar do que, além de uma grande virada profissional, seria uma guinada pessoal.

Em minha cabeça de telespectadora, a grande novidade na vida privada de Ana Paula Padrão havia acontecido um pouco antes, quando em 2002 ela se casou com o consultor financeiro Walter Mundell. A cerimônia simples e bastante intimista e o encontro e o casamento num intervalo de poucos meses foram amplamente noticiados. Os primeiros três anos - da união que já dura quase uma década e meia -, exatamente o período que antecede a saída da Rede Globo, foram vividos "em recados". Por conta dos fusos opostos da profissão de cada um, o jeito foi providenciar um pequeno quadro negro na pia do banheiro, por onde lembravam que ali existia amor: "Aqueles eram gestos de afeto em circunstâncias de dificuldade. Mas não acredito em casamento virtual".

Somada ao casamento, que despertou a urgência em mudar de vida, a retomada do debate feminista nos anos 2000 a fez abrir os olhos para outro aspecto. "Comecei a me interessar pelo universo feminino, quando mulheres começaram a se interessar pela minha história. O fato de eu estar me casando pareceu destacar um traço maior de feminilidade por trás da aparência séria e sisuda da âncora de telejornal", diz. "Passei a me olhar, avaliar o que tinha feito comigo e a me achar estranha e muito só. Depois, observando e conversando com outras mulheres, entendi que esta não era a minha fala, mas a fala de toda uma geração, treinada para aguentar tudo e mais um pouco e ainda ser bacana e adequada".

E então, antes tarde que nunca, veio o amor de que tanto fala no título: o amor próprio e por cada traço de sua personalidade e por cada circunstância que a fez ser o que era.

Ana Paula Padrão: "A decisão de deixar a Globo veio de um forte desconforto emocional e da certeza de que queria entender as mulheres e trabalhar com elas. Estava dando um salto para a felicidade"

Somos todas iguais?

Em dado momento de suas memórias, a jornalista confessa que "estava ocupada demais para prestar atenção na bandeira defendida pela geração anterior". E acredito que, no fundo, todas estamos. Ser mulher hoje é "dar conta do recado", no sentido mais amplo que esta expressão tão simplificada pode ter.

Por isso, com seu "O amor chegou tarde em minha vida", Ana Paula Padrão nos apresenta uma autobiografia, sim, com grande destaque para sua experiência profissional e seu encontro com o romance. Mas a obra é também, e principalmente, uma história sobre o amor - amor sob todos os ângulos e a partir de uma perspectiva tão comum a tantas outras mulheres, que nunca estiveram na bancada do maior telejornal do país, mas que ocupam o centro de universos talvez muito mais hostis e certamente não menos importantes: dentro de suas casas, na educação de seus filhos, nos momentos de reflexão no trânsito caótico enquanto se encaminham ao escritório e por aí vai. E raramente olham para si mesmas.

É um livro por e para mulheres. Que, coincidentemente, se lança justamente no centro de uma das discussões mais importantes que, pelo menos eu, em 33 anos, já acompanhei sobre a condição feminina. O recado é claro: eu não mereço ser estuprada, eu mereço sentir segurança, eu mereço ser menina de vez em quando. Eu mereço ter tempo para meus filhos e um tempo sem eles também. E um bom trabalho e um grande amor. E eu preciso e vou ser feliz. Mesmo que demore ou que chegue tarde.

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