OPINIÃO
08/03/2016 10:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Dia Internacional da Mulher, cerveja especial e machismo

O início do mês de março é marcado pelas mensagens e publicidade sobre o Dia Internacional da Mulher. De flores a utensílios domésticos, os "presentes" são os mais variados. E a nossa canseira em ver tanto mais do mesmo e doses cavalares de machismo só aumenta.

O início do mês de março é marcado pelas mensagens e publicidade sobre o Dia Internacional da Mulher. De flores a utensílios domésticos, os "presentes" são os mais variados. E a nossa canseira em ver tanto mais do mesmo e doses cavalares de machismo só aumenta.

Aí vocês me perguntam: e o mercado de cervejas especiais nessa história toda? Contribui de forma relevante ou é mais "vem verão"? E então eu conto para vocês sobre a Pink Boots Society, uma rede de empoderamento feminino no setor cervejeiro.

A Pink Boots Society é uma organização que atua em vários países do mundo e reúne mulheres que têm, de alguma forma, renda originária do mercado de cervejas. A organização também tem como missão oferecer oportunidades de bolsas de estudos em cursos de especialização, desenvolvendo ainda mais a carreira dessas mulheres.

Atualmente, pelo menos uma bolsa de estudos é disponibilizada por mês para que as mulheres do mundo todo se candidatem, esse mês é uma bolsa de estudos em Davis, na Califónia para estudar ciência e produção cervejeira. O Brasil faz parte a um ano dessa importante iniciativa em núcleos separados em: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Campinas.

Para celebrar a forte participação das mulheres no mercado, no Dia Internacional da Mulher a Pink Boots Society realiza a maior brassagem do mundo, a International Women's Collaboration Brew Day, com a presença apenas, claro, de mulheres.

Um único estilo de cerveja é escolhido para todos os países participantes, que podem adicionar ingredientes regionais na criação da sua cerveja. Esse ano, o estilo Gose foi o escolhido, originando cervejas levemente ácidas e salgadas, com uso tradicional de sementes de coentro, maltes de cevada e trigo e lactobacilos. As brassagens acontecem no mundo todo entre os dias 5 e 8 de março, em aproximadamente 100 cidades. Veja mapa.

Para saber como anda o reconhecimento e atuação no mercado de cervejas especiais, conversei com a cervejeira Alex Iunes, embaixadora no Brasil da Pink Boots Society e também com a jornalista e sommelière Amanda Henriques, representante da organização no núcleo Rio de Janeiro.

Atuação e reconhecimento da mulher no mercado de cervejas especiais

Alex Iunes:

"No Brasil temos várias profissionais mulheres em diversos setores, em toda cadeia produtiva. Ainda assim, o meio cervejeiro continua majoritariamente masculino. Existe reconhecimento sim e existe muita oportunidade de crescimento. Nosso movimento cervejeiro ainda está muito imaturo".

Amanda Henriques:

"Acho que falta muita pesquisa e uma abordagem menos estereotipada ao tratar do assunto. Tenho amigos que organizam grandes eventos cervejeiros e me sinalizam que a participação feminina chega a 40, até 50%. Lembro que quando fiz o curso de sommelier 20% da turma era mulher e isso é reflexo de um mercado que já conta com grandes nomes femininos a frente de projetos cervejeiros. As principais escolas cervejeiras têm sommelières em suas diretorias e corpo docente, há cervejeiras como a Fernanda Ueno na Colorado, Maíra Kimura na 2cabeças, em breve a Paula Pampillón vai chegar com novidades na Therezópolis, temos cientistas como a Gabriela Montandon que estuda leveduras genuinamente brasileiras e atua na Grimor... Somos muitas! E sim, há reconhecimento, mas isso não siginifica que não exista preconceito".

Machismo

Alex Iunes:

"Sim, existe machismo no mercado de cervejas especiais. Mas isso não é um fenômeno isolado - nossa cultura também é machista. Ressalto que existe machismo no ramo cervejeiro nos países desenvolvidos também. Duvido que isso seja novidade para as pessoas. Existem dados demográficos sobre a relação de desigualdade de gênero e salário.

O que acontece no ramo cervejeiro que é um retrocesso, tanto para profissionais do ramo quanto para consumidoras, são os rótulos e marketing que objetificam mulheres e o corpo feminino. Isso cria espaços para machismo velado.

Somos mulheres cervejeiras, somos a origem e a revolução. O movimento de cerveja artesanal baseia-se na criatividade e qualidade, precisamos que isso seja transmitido em todo o processo, também no marketing. Destaco aqui o trabalho da Perro Libre, que serve como exemplo.

Eu não sei se existe um setor específico em toda cadeia que tem avançado, mas acredito que por ter a possibilidade de questionar essa realidade e pensar juntos sobre o que queremos criar já é um grande avanço".

Amanda Henriques:

"Eu considero o mercado de cervejas artesanais bem menos agressivo, há um discurso publicitário focado em qualidade dos ingredientes e produção, arte, lifestyle que é bem diferente do discurso da azaração, praia, mulheres seminuas e sexo. Isso facilita um pouco as coisas. Passei por poucas situações realmente chatas, nenhuma constrangedora, mas tenho amigas no mercado - principalmente as que atuam diretamente com o público - que já passaram por situações ruins".

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