OPINIÃO
12/02/2015 15:34 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Você sabe como agir para ter uma boa aposentadoria? Os pesquisadores também não

Em resumo, é muita gente sabida dando palpites sobre como deve ser uma boa preparação para a aposentadoria. O problema é que, ao longo de todos esses anos, poucos efetivamente se dedicaram a construir e testar essas intervenções. E é bom lembrar que esse não é um problema brasileiro, mas mundial.

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Você sabe como agir para ter uma boa aposentadoria? Se a sua resposta for negativa, não se preocupe: os pesquisadores da área também tem dificuldade para responder essa pergunta.

Por isso, decidi trabalhar em um artigo para identificar os fatores que favorecem uma aposentadoria bem sucedida. Por exemplo, se você é casada, isso te ajuda ou atrapalha quando você para de trabalhar? Se a sua aposentadoria é voluntária, sua adaptação é mais fácil ou mais difícil? O objetivo é fazer uma revisão organizada da produção científica na área e identificar com mais clareza onde devemos investir para cultivar um futuro melhor.

O artigo está longe de ficar pronto, mas notei algo muito curioso. Ao contrário do que se acredita, os cientistas também estão sujeitos à Lei Geral do Conselho: muitos oferecem, mas poucos seguem. Revisando estudos realizados desde os anos 50, tenho uma sensação recorrente de déjà vu. Os autores repetem as mesmas prescrições, de novo e de novo, ao longo de décadas. Então, surge uma questão importante: se todo mundo está ocupado dando conselhos, quem está livre para segui-los?

Indo diretamente ao ponto: ao longo de décadas, os pesquisadores recomendaram que suas descobertas fossem utilizadas no aprimoramento dos programas de preparação para a aposentadoria. Como exemplo, selecionei três casos:

- Em um artigo de 1976, indica-se que "os resultados têm implicações tanto para o aconselhamento pré-aposentadoria quanto para programas de atividades institucionais";

- 20 anos depois, em 1997, outro estudo aponta as "implicações para a educação e o treinamento pré-aposentadoria, assim como para intervenções terapêuticas para os aposentados com dificuldades na adaptação ao novo estilo de vida";

- E nesse ano, 2014, recebemos a recomendação de que "é urgente identificar formas de ajudar aqueles que estão resistindo a planejar sua aposentadoria..."

Em resumo, é muita gente sabida dando palpites sobre como deve ser uma boa preparação para a aposentadoria. O problema é que, ao longo de todos esses anos, poucos efetivamente se dedicaram a construir e testar essas intervenções. E é bom lembrar que esse não é um problema brasileiro, mas mundial. As três citações acima, por exemplo, são de pesquisadores de outros países. Fica evidente que temos um grande descompasso entre o que é sugerido e o que é feito na preparação para a aposentadoria.

Isso me lembra um dos recursos pedagógicos da minha mãe, quando eu era criança, para lidar com perguntas inconvenientes: "Faça o que eu mando e não olhe o que eu faço". Me tornei especialmente sensível a esse tipo de situação, por isso me pergunto se estou falando de uma lacuna na produção científica ou de um trauma infantil... Apesar desse conflito de interesses, a recorrência do problema nos artigos escritos ao longo das últimas décadas me leva a crer que estamos falando de uma grande barreira aos programas de preparação para a aposentadoria.

É difícil aceitar algumas coisas na vida. Por exemplo, quando você descobre que seus pais não sabem tudo e também cometem erros. O mesmo acontece na ciência: algumas vezes, acreditar nos pesquisadores é a melhor opção disponível, mas não significa que estamos completamente seguros. Há cada vez mais aposentados, vivendo cada vez mais depois de deixarem o trabalho. Parece que o tempo dos palpites se esgotou e agora precisamos de métodos concretos que tornem a aposentadoria uma fase cada vez melhor.