OPINIÃO
16/12/2014 11:34 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O sofrimento adora companhia

A conclusão de que a comparação social pode regular nosso bem-estar é conhecida há alguns anos. Mas um estudo retratou, em tempo real, como isso pode afetar trabalhadores em fim de carreira.

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O que faz você feliz? Esta é uma das perguntas mais importantes da atualidade, pois a maioria das pessoas tem o mesmo objetivo na vida: a felicidade. Concentrados nessa tarefa, nem sempre notamos que o bem-estar também depende da resposta a uma pergunta bem menos popular: o que te faz infeliz?

Infortúnios muito distintos podem se candidatar: trânsito engarrafado, molhar o cabelo escovado, coentro misturado no feijão etc. Além das variações pessoais, no entanto, há respostas universais e problemas que afetam a todos nós, como a comparação. Isto mesmo, o contraste com nossos semelhantes pode nos fazer mal. Mais especificamente, a comparação com aqueles em melhores condições nos faz infelizes, assim como a comparação com aqueles em desvantagem nos tranquiliza.

Um estudo publicado há poucos meses no Journal of Economic Behavior & Organization mostra o fenômeno entre trabalhadores prestes a se aposentarem. A conclusão de que a comparação social pode regular nosso bem-estar é conhecida há alguns anos. A novidade deste estudo é retratar, em tempo real, como isso pode afetar trabalhadores em fim de carreira.

Em 2006, o regime de aposentadoria holandês foi alterado. Os trabalhadores que nasceram depois de 1º de janeiro de 1950 foram obrigados a trabalhar 13 meses a mais para receber os mesmos benefícios que os trabalhadores que nasceram antes daquela data.

No Brasil, estamos acostumados a essas mudanças de regra e não precisamos de uma pesquisa para evidenciar como isso deixa as pessoas indignadas. O que poderia passar despercebido, no entanto, é o impacto das comparações sobre o humor: quanto maior a disparidade, pior o indivíduo se sente.

Os resultados mostraram, por exemplo, que trabalhar em empresas onde muitos funcionários foram afetados amenizou o desconforto pessoal, pois a maioria dos colegas também sofreu prejuízos. Por outro lado, trabalhar em grupo ou nos dois turnos provocou maior sofrimento, pois esses funcionários tinham mais chances de observar colegas em situações melhores. Na verdade, o mero pensamento foi suficiente para promover infelicidade: quem conhecia melhor seus direitos previdenciários - e, consequentemente, podia fazer comparações mais detalhadas - sofreu mais com a mudança.

É horrível admitir isso, mas, considerando que o homo sapiens é uma espécie coletivista, os resultados fazem sentido. A sensibilidade social foi determinante na história da nossa evolução. A partir dessa habilidade, várias outras competências se tornaram possíveis, como a comunicação refinada e complexa de que dispomos hoje. O problema é que isso teve um preço: ao mesmo tempo em que nossos pares nos inspiram, também podem nos tornar miseráveis, caso estejam em uma situação superior.

Mais do que uma questão existencial, esta é uma constatação. Se quisermos sair do papel de vítimas da evolução, precisamos aceitar as regras do jogo. Assim, podemos usar a comparação social como um método de progresso, e não de retrocesso. Agradável ou não, é o desafio que nos cabe.

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