OPINIÃO
19/04/2018 15:55 -03 | Atualizado 19/04/2018 15:57 -03

Os sinais de Lula para o futuro da esquerda brasileira

"Para renovar a política e voltar a comandar o País com um programa transformador é preciso olhar para os mais jovens e, possivelmente, para fora do PT."

Os únicos presidenciáveis citados por Lula em seu discurso foram Guilherme Boulos (à dir) e Manuela D'Ávila.
NurPhoto via Getty Images
Os únicos presidenciáveis citados por Lula em seu discurso foram Guilherme Boulos (à dir) e Manuela D'Ávila.

É fato que Lula não é mais o mesmo de 2010. Naquele ano, ele deixou a Presidência da República com mais de 80% de aprovação popular e foi capaz de indicar uma pessoa praticamente desconhecida pelo eleitorado para sucedê-lo.

Hoje, o próprio Lula, que muito provavelmente não poderá ser candidato, tem pouco mais de 30% das intenções de voto para as eleições que deverão ocorrer em outubro deste ano. Além disso, parcela expressiva da esquerda tem se afastado do PT nos últimos anos e até mesmo das formas de atuação institucional e partidária, enfraquecendo a posição do ex-presidente petista.

De todo modo, Lula segue sendo a principal liderança de esquerda, no Brasil. Papel que exerce há mais de 30 anos. Não há dúvidas de que ele seria favorito se disputasse as eleições presidenciais. Além disso, sua capacidade analítica a respeito do cenário político, sobretudo do ponto de vista eleitoral, é inquestionável.

Dessa forma, o objetivo deste artigo não é tratar de Lula, de seu governo nem do controverso processo que o levou à prisão. Mas fazer uma breve reflexão a respeito do futuro político do Brasil a partir de sua saída de cena, ainda que temporária.

Mais especificamente, quero tratar dos caminhos para a reorganização do campo político progressista, do ponto de visto do próprio ex-presidente.

Para isso, proponho uma análise mais detida do ato final de Lula antes de se entregar à Polícia Federal, a fim de compreender quais sinais Lula quis passar a seus companheiros de partido e, de forma mais ampla, a todos que compõem o campo das esquerdas.

As ausências presentes

Antes de entrar na fala de Lula, cumpre fazer uma primeira análise da imagem do carro de som sobre o qual ele discursou. A fotografia traz, em segundo plano, os principais apoiadores de Lula. Nela, duas ausências devem ser destacadas: a de Ciro Gomes e de Jaques Wagner.

Ciro não esteve presente em nenhum dos últimos atos de Lula. Não esteve em Porto Alegre, após os atentados contra as caravanas do PT, não esteve no Rio de Janeiro no ato que também homenageou a vereadora assassinada do PSol Marielle Franco e não esteve em São Bernardo do Campo quando Lula passou seus últimos momentos em liberdade.

Não sabemos se Ciro optou por não participar ou se não foi convidado por Lula ou pelo PT. O fato concreto é que ele não estava lá e isso indica que dificilmente contará com o apoio de petistas e simpatizantes mais aficionados de Lula em sua empreitada presidencial.

No caso do ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, sua ausência é ainda mais intrigante, pois há quem diga que ele disputa, dentro do PT, a benção de Lula para se tornar o candidato do partido tão logo a justiça eleitoral negue o registro da candidatura do ex-presidente.

Finalmente, é preciso mencionar a discrição de Fernando Haddad. O ex-prefeito de São Paulo, tido como outro possível substituto de Lula nas urnas, esteve com Lula ao logo dos dias que antecederam sua prisão e conversou com ele em diversos momentos. Haddad foi saudado de forma protocolar na abertura do discurso de Lula e foi, aos poucos, se escondendo no fundo do palco até desaparecer da fotografia final.

Para onde aponta Lula?

Com relação ao discurso propriamente do ex-presidente, creio que ele pode ser dividido em três partes principais.

Na primeira delas, Lula fez questão de citar todos que estavam ali presentes, independentemente do partido ou do movimento que representavam. Com isso, além de fazer um agradecimento ao apoio que recebia, buscava apontar, para as milhares de pessoas que assistiam a seu discurso na rua ou em suas casas, quem estava ao seu lado e quem deveria receber o apoio do eleitorado que o apoia na corrida deste ano.

O segundo momento do discurso foi marcado pela defesa que Lula fez de si próprio perante as acusações de corrupção que lhe são feitas e pelo contra-ataque que o ex-presidente promoveu contra aqueles que o acusam: Polícia Federal, Ministério Público, judiciário – nas figuras de Sergio Moro e do o TRF4 – e a mídia.

Em seguida, Lula listou algumas das conquistas de seu governo, sobretudo nas áreas de educação, combate à fome e à miséria e na melhoria do padrão de vida da maioria da população brasileira.

Com isso, ele buscou apontar que aqueles que o condenam, o fazem justamente por suas principais conquistas políticas: "colocar pobres e negros na universidade", "permitir que o pobre comesse carne", "comprasse carro, casa, viajasse de avião" etc.

Da oposição Justiça vs. Lula, o ex-presidente a reconstrói para colocá-la dentro de uma oposição de classes e de pensamento político. Essa deve ser a linha da narrativa que guiará o programa das esquerdas nesta eleição.

De acordo com esse raciocínio, bastante verossímil diga-se de passagem, a perseguição judicial a Lula, ao PT e aos demais partidos e políticos de esquerda se deve não aos eventuais atos de corrupção, típicos de todo o sistema político. Trata-se, na realidade, de discordâncias de ordem político-ideológica e, mais ainda, ao fato de a "elite" e parte das classes médias não aceitarem o processo de mobilidade social que permitiu que os mais pobres tivessem acesso a bens e direitos que lhes foram historicamente negados.

Assim, essas duas primeiras partes do discurso de Lula apontam para o futuro imediato: as eleições de outubro. E delineiam a estratégia para se obter o melhor resultado possível nelas.

Lula e a esquerda partidária sabem que precisaram formar uma bancada forte no legislativo, eleger governadores e levar um candidato competitivo para o segundo turno da eleição presidencial a fim de pautarem os temas que consideram relevantes para o país e construírem uma narrativa histórica convincente em torno do que tem acontecido no Brasil desde o impeachment de 2016.

A estratégia para além da tática eleitoral

A terceira parte do discurso, contudo, é a mais importante, em minha opinião. Lula, ao contrário do que fez há 8 anos quando ungiu Dilma Rousseff como sua candidata, chamando-a de "mãe do PAC", despediu-se sem explicitar sua preferência para representar o PT na corrida eleitoral.

Há quem diga que ele não fez isso por falta de consenso interno no PT ou por querer dar verossimilhança ao discurso de que inexiste um "plano B" do PT para outubro, mantendo-se como candidato, mesmo preso, até os 45 minutos do segundo tempo.

A estratégia de manter-se como pleiteante até o limite máximo do possível é uma forma de contrapor-se politicamente a uma condenação considerada injusta e de conservar seu capital eleitoral.

O que quero ponderar, contudo, é outro fator subliminar a essa estratégia. Ainda que a preocupação mais imediata de Lula esteja na eleição de outubro deste ano, seu foco principal parece estar em um horizonte de tempo mais largo, no qual a esquerda deverá se reorganizar e construir uma narrativa histórica sobre o sentido dos tempos em que vivemos.

Nesse futuro, vitórias eleitorais seguirão sendo essenciais, mas tão importante quanto ganhar nas urnas é voltar a olhar para a sociedade. E, assim, reorganizar o campo das esquerdas de baixo para cima a fim de construir uma base sobre a qual novas e mais contundentes vitórias poderão ser alcançadas.

Lula fez, bem a seu jeito, isto é, nas entrelinhas, uma dura crítica ao PT e a seus quadros burocratizados e dependentes de mandatos parlamentares. Em dado momento, ele lembrou de sua própria história como constituinte mais votado do país para afirmar que não precisava de mandato para cumprir seu papel e seguir sendo influente na política e no partido. Decidiu que disputaria apenas o cargo de presidente, abrindo mão de participar de qualquer outra eleição legislativa.

Em outro ponto, após dizer que iria se entregar, Lula disse que estava fazendo uma "transferência de responsabilidade" não para algum político profissional ou para seu candidato preferido, mas para o "povo brasileiro". Com isso, ele dizia estar se transformando "em uma ideia", que seria impossível de ser morta ou aprisionada. É assim que o ex-presidente quer entrar para a história, como o varguismo, no Brasil, ou o peronismo, na Argentina. Uma "ideia" em torno da qual qualquer candidato progressista terá que gravitar.

O futuro, aos jovens pertence

Por fim, ao encerrar o discurso Lula afirmou, se dirigindo a Guilherme Boulos (PSol) e Manuela D'Ávila (PCdoB), os únicos pré-candidatos presidenciais explicitamente citados por ele, que "é motivo de orgulho pertencer a uma geração que está no final dela vendo nascer dois jovens disputando o direito de ser presidente da República".

Esse final da fala de Lula não poderia ser mais significativo. Após a bronca indireta nos petistas, demasiadamente apegados aos mandatos, ele apontou para uma transição geracional, mas que não é de 20 ou 30 anos, como seria se ele tivesse apontado para Haddad, Gleisi, Ciro, Wagner, Dilma ou qualquer outro quadro na casa dos 50 ou 60 anos. A transição de Lula (72) é de quase 40 anos, afinal tanto Boulos (35) quanto Manuela (36) são de uma geração bem mais jovem.

Com isso, Lula parece apontar para o rápido envelhecimento político dessa geração intermediária entre a dele e a dos dois jovens candidatos. Uma geração com contribuições inegáveis para a consolidação da democracia e de alguns direitos fundamentais, mas que talvez tenha se apegado em demasia ao Estado e aos cargos, deixando de lado as lutas e a formação política na base da sociedade e, assim, envelheceu antes do tempo.

Como de costume, Lula parece ver mais adiante do que a maioria de seus companheiros de partido. Para renovar a política e voltar a comandar o país com um programa mais transformador, o campo popular-democrático, progressista ou de esquerda – como quer que venhamos a chamá-lo – precisa olhar para os mais jovens e, possivelmente, para fora do PT.

Novas ideias e novos movimentos

A visão de Lula também tem seus limites, como qualquer outra. Faltou a ele citar movimentos que não estavam ali representados porque sequer possuem representantes. São, como ele mesmo pretende ser, "ideias". Falo, apenas para citar alguns exemplos, dos secundaristas, das feministas, dos movimentos antirracistas, dos indígenas, ambientalistas e coletivos culturais que têm sacudido o país nos últimos anos.

Lula deu a senha. É preciso, agora, como ele mesmo disse, "misturar" a ideia dele, isto é o lulismo em sua face de inclusão social, "com a ideia de vocês", ou seja, desses novos e tradicionais movimentos políticos e sociais. Apenas dessa junção de gerações e de anseios será possível retomar a luta, estabelecer novas pautas, novas formas de organização e enfrentar as duras batalhas que se avizinham.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.