OPINIÃO
07/10/2014 09:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

O gigante acordou ou estava apenas sonâmbulo?

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Manifestantes concentrados no Congresso Nacional. O protesto tem demandas diversas, como recursos para educação, saúde, passe livre no transporte público e contra os gastos públicos na Copa das Confederações e do Mundo (2014). Foto: Arthur Monteiro/Agência Senado

Olhando de maneira geral e ainda um pouco apressada para os resultados dessas eleições no primeiro turno, eu me arriscaria dizer que o partido que mais tem a comemorar é o PMDB.

Tido como fiador da governabilidade no presidencialismo de coalizão brasileiro e símbolo maior da "velha política", o partido elegeu quatro governadores em primeiro turno e disputa o cargo em outros sete no segundo. Além disso, manteve a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados (66), diminuindo consideravelmente a distância que o separava do PT (que caiu de 88 para 70), e garantiu a maior bancada do Senado, com 18 senadores.

Não deixa de ser irônico que pouco mais de um ano após as manifestações de junho e na eleição que ficou marcada pelo mote da "nova política", tenha sido mantida a "velha" polarização PT-PSDB e que o PMDB tenha sido o grande vencedor.

No Sul e no Sudeste, onde as manifestações foram mais intensamente noticiadas, três governadores foram reeleitos em primeiro turno - em São Paulo, no Paraná e em Santa Catarina -, o Rio de Janeiro caminha para eleger o sucessor do mesmo partido do atual e o Espírito Santo elegeu o ex-governador que havia indicado o atual. Ou seja, dos sete estados da região, cinco elegeram o "velho" para ficar no poder.

Além disso, é preciso destacar a vitória de velhas oligarquias pelo Brasil afora, como dos Calheiros-Collor de Melo em Alagoas, dos Alves no Rio Grande do Norte e dos Barbalho no Pará.

O que aconteceu no Brasil entre junho de 2013 e outubro de 2014? Por que aquele clamor popular por mudanças, com mais de 1 milhão de pessoas nas ruas das nossas maiores cidades, não se refletiu nas urnas?

Essa pergunta certamente está sendo feita por muitos brasileiros neste momento. Creio que a dificuldade em respondê-la talvez esteja mais na própria pergunta do que em possíveis tentativas de resposta.

O ineditismo do que correu em 2013 fez com que grande parte da população superestimasse as mobilizações. Muitos a traduziram como um momento de reivindicação de mais ética na gestão pública, novas práticas políticas e mais qualidade nos serviços públicos.

No fundo, as manifestações se transformaram em um grito contra a forma de fazer política pela via partidária que funciona atualmente no Brasil. Contudo, sem apresentar alternativas e com a desqualificação do campo político como espaço de excelência para o debate dos rumos do país, as manifestações se transformaram em uma ode à despolitização, o que só favoreceu setores conservadores e há muito estabelecidos na política nacional.

Quando não se discute política porque "são todos iguais" ou porque "a política é um antro de corruptos que só pensam em seus próprio interesses", o conformismo e a manutenção do status quo é que saem fortalecidos, uma vez que a população deixa de refletir sobre os projetos em disputas e as alternativas de mudança postas a cada eleição.

De bom exemplo nessa eleição, fica o Maranhão e a Bahia, cujas populações deflagraram um fortíssimo golpe contra as oligarquias Sarney e Magalhães, respectivamente, e mostraram que o debate público, a mobilização social, a politização das eleições, boas propostas e o voto são as melhores armas para mudar a sociedade e a forma de funcionamento da política.

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