OPINIÃO
08/12/2014 17:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O Datafolha para além da Folha

Tem virado prática comum no nosso jornalismo: manchetes que contradizem o texto ou, no mínimo, levam a interpretações que nem sempre condizem com o que de fato matéria diz. Isso é agravado quando a notícia é baseada em uma pesquisa de opinião.

PhotoAlto/Antoine Arraou via Getty Images

Tem virado prática comum no nosso jornalismo: manchetes que contradizem o texto ou, no mínimo, levam a interpretações que nem sempre condizem com o que de fato matéria diz. Isso é agravado quando a notícia é baseada em uma pesquisa de opinião, pois as interpretações às perguntas e às respostas podem ser as mais diversas. Por consequência, o resultado em termos de "o que pensam as pessoas" é muito mais difícil de ser identificado.

A capa da Folha de S. Paulo deste domingo, 7, cravava a manchete "Brasileiro responsabiliza Dilma por caso Petrobras". O leitor desavisado que visse apenas a capa do jornal ao passar por uma banca ou que não tivesse interesse em abrir o jornal e ler a notícia completa seria facilmente levado à conclusão de que o brado de muitos oposicionistas e colunistas da grande mídia de que, "se a eleição fosse hoje, Dilma certamente teria perdido" estaria correto.

Quando olhamos a notícia e os dados da pesquisa Datafolha que a embasavam, vemos que a coisa é um pouco mais complexa. Em primeiro lugar, o índice de aprovação em relação ao governo Dilma segue no mesmo patamar que na véspera da eleição. Em segundo, 50% da população - ou seja, um percentual muito próximo à proporção de votos que a presidenta teve há pouco mais de um mês - acredita que seu próximo governo será ótimo ou bom.

Apesar de não terem sido perguntadas diretamente se votariam em Dilma caso a eleição fosse hoje, o fato de metade da população acreditar que seu próximo governo será melhor que o atual aponta para o fato de estarem dispostas a dar um voto de confiança à presidenta para o próximo período.

Estaria a pesquisa mostrando resultados contraditórios, afinal as pessoas dizem que Dilma é responsável pela corrupção na Petrobras, mas mesmo assim acreditam que ela fará um bom governo? Outra hipótese para explicar esse resultado seria que as pessoas estão cientes da corrupção, associam ela ao governo atual, mas mesmo assim aprovam boa parte da sua conduta ou simplesmente não se importam com a corrupção e acreditam que ele tende a melhorar.

Ambas as hipóteses me parecem equivocadas. O resultado da pesquisa assinala muito mais para o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamava atenção em uma palestra no começo dos anos 1970: não existe opinião pública!

Obviamente, ele estava sendo provocativo, mas Bourdieu apontava, com razão, para o fato de que partimos do pressuposto que todo mundo tem opinião sobre tudo, de que todas as opiniões tem a mesma força e de que haveria um consenso sobre quais são os problemas e questões que deveriam ser colocados para o debate público.

Nenhum desses postulados se revela verdadeiro, uma vez que, para ter opinião e para que ela tenha força, é preciso que as pessoas coloquem-se diante da questão, tal como formulada pelo pesquisador, reflitam sobre ela e, a partir disso, formulem sua visão sobre o tema.

Cabe ressaltar, portanto, que esse tipo de questionamento a respeito "do que pensam as pessoas" pode se revelar extremamente equivocado, seja por querer imputar às pessoas opiniões sobre temas a respeito dos quais elas simplesmente nunca pensaram a respeito, seja pelo fato de uma simples escolha de palavras na formulação da pergunta revelar resultados completamente distintos.

No caso da pesquisa Datafolha em questão, era perguntado ao entrevistado se Dilma tinha responsabilidade sobre o caso de corrupção na Petrobras. A pergunta não fazia referência a culpa, conivência ou cumplicidade com os fatos, questionava apenas se a presidenta da República tinha muita, pouca ou nenhuma responsabilidade e isso pode fazer uma enorme diferença para quem está sendo entrevistado sem muito tempo para refletir a respeito.

Em um regime com tamanha preponderância do Poder Executivo, como é o caso do Brasil, aquele que o exerce é responsável em última instância pela goteira no posto de saúde, pelo professor que falta à aula na escola pública e pela obra de engenharia mal projetada. Por que seria diferente com um caso que envolve a maior empresa estatal brasileira, que é manchete de todos os jornais e esteve tão em voga na campanha eleitoral?

O fato é que a pesquisa Datafolha e a manchete da Folha podem estar em contradição dependendo de quem responde à pergunta e de quem lê a notícia. Ter responsabilidade sobre algo é diferente de ser responsável por alguma coisa. Por isso, o termo pode significar, para leitores e entrevistados, tanto que a presidenta é culpada de tudo que ocorre na Petrobras - logo deve ser punida por isso -, quanto que ela, como ocupante do cargo mais importante da República, tem obrigação de tomar medidas a esse respeito.

Aliás, no que se refere a medidas de combate à corrupção, esse mesmo governo "que tem responsabilidade" sobre o tema, segundo a maioria da população brasileira, é também o que mais investiga a corrupção e o que mais pune corruptos em nossa história democrática recente, como respondeu boa parte dos mesmos entrevistados.

Estaria, então, a presidenta cumprindo sua obrigação e arcando com suas responsabilidades? Difícil responder o que a "opinião pública" pensa sobre isso, afinal não sabemos nem se as pessoas têm opinião sobre essa questão específica.

No caso das pesquisas de opinião, os números frios revelam muito pouco e as interpretações sobre eles podem dizer quase tudo que quisermos. Não se trata de abrir mão de pesquisas de opinião como recurso de pesquisa jornalística ou mesmo política e sociológica, como quem joga fora o bebê junto com a água suja da bacia. Contudo, afirmar categoricamente o que os brasileiros pensam ou querem com base apenas em pesquisas quantitativas de opinião trata-se de mero recurso retórico ou de um grande equivoco sociológico. Um pouco mais de prudência por parte de quem anuncia e vende esses resultado certamente não faria mal ao debate público.

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