OPINIÃO
29/03/2016 15:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

La Remezcla, um zine sobre remix e cultura livre

Talvez você esteja se perguntando: mas por que um zine e não um livro ou revista? Algumas justificativas são: porque o zine é uma publicação livre, que ocupa o vasto espectro entre simples folhas impressas/xerocadas em qualquer lugar até uma publicação "de artista" com folhas coloridas em altas gramaturas ("grossura" do papel) e formatos ousados.

Depois de falarmos da prática do deturnamento criada pelos situacionistas franceses no zine nº1 do BaixaCultura, ampliamos o número de páginas, textos e artistas convidados para tratar de um dos nossos grandes temas contemporâneos no zine nº2: LA REMEZCLA. Remix. Remistura. Desvio. Plágio. Cópia. (re) criação. (re) combinação.

Várias palavras para abordar um mesmo assunto, sempre presente nestes quase oito anos de BaixaCultura e na vida de todo mundo que tem a internet como habitat. Numa sociedade dominada pela explosão de informações, talvez seja mais conveniente explorar as possibilidades de ressignificação daquilo que já existe do que acrescentar informações redundantes, mesmo quando estas são produzidas por meio da metodologia e da metafísica do "original". Talvez.

A publicação começa com "REVALORIZAR O PLÁGIO NA CRIAÇÃO", texto publicado em 2010 que, para falar de remix e plágio na criação artística, plagia e reedita um capítulo de "Distúrbio Eletrônico", do coletivo Critical Art Ensemble. com trechos recombinados de outros textos, alguns deles destacados ao final da segunda parte como uma espécie de bibliografia, e outros sutilmente citados.

Segue para "NOTAS INÉDITAS SOBRE COPYRIGHT E COPYLEFT", texto de 2005 em que o coletivo italiano Wu Ming se opõe à lógica de defesa do copyright, segundo a qual não é possível conciliar acesso livre às obras e remuneração digna ao artista, entre outros tópicos tratados. É a primeira tradução para o português desse texto, realizada por Reuben da Cunha Rocha (vulgo cavaloDADA) e publicada no BaixaCultura em três partes durante 2009.

"INSENSATO", o terceiro texto, é um comentário de Jamer Guterres de Mello sobre sua dissertação de mestrado em educação na UFRGS, construída e apresentada com colagens, trechos de citação escritas a mão ou datilografados, fotos, colagens fotos-textos, tal qual um zine. Jamer, atualmente doutorando em comunicação e editor do Zinescópio, reflete sobre métodos científicos para uso nas ciências humanas a partir de diversas referências do cinema - em especial Orson Welles, Rogério Sganzerla e Jean-Luc Godard - e da literatura, Burroughs e o cut-up à frente, para trazer a estética dos fanzines como afirmação dos conceitos de Gilles Deleuze de potências do falso e do simulacro. São trechos desse trabalho que ilustram a sobrecapa destacável de "La Remezcla".

Os dois últimos textos são de 2012 e trazem reflexões de dois escritores de hoje sobre criação artística e remix-plágio-recriação. O primeiro é uma "A LITERATURA SAMPLEADA DO MIXLIT", uma entrevista com Leonardo Villa-Forte, criador do MixLit, espaço em que ele remixava autores distintos para produzir novos contos. Depois do MixLit Leonardo ainda faria oficinas de Remix Literário, o Paginário (instalação em espaço público com trechos de livros de ficção), além do mestrado em literatura na PUC-RJ sobre - adivinha o quê? - remix, além de produzir dois livros de ficção: "O Explicador", volume de contos, e "O princípio de ver histórias em todo lugar", romance, ambos publicado pela Editora Oito e Meio em 2015.

E "O FALSO PROBLEMA DA ESCRITA NÃO CRIATIVA" é Reuben da Cunha Rocha refletindo sobre o roubo na literatura a partir da circulação de Kenneth Goldsmith e a propagação do rótulo "escrita não-criativa", num texto publicado no BaixaCultura em 2012: "se a autoria é um fenômeno moderno tal como a conhecemos, o plágio criativo também o é, como atesta a energia que gigantes da modernidade como Lautréamont ou Walter Benjamin nele empregaram, o impulso de nutrição que o roubo representa em suas obras", escreve o poeta, um dos criadores do BaixaCultura e autor de "As aventuras de cavalo Dada em + realidades q canais de TV" (2013) e "Na curva da cobra nos cornos do touro no couro do tigre na voz do elefante" (2015).

A edição de "La Remezcla" é deste que escreve, Leonardo Foletto, e o design de Tereza Bettinardi, que já fez trabalhos pra Cosac Naify, Companhia das Letras e hoje é uma das responsáveis pela A Escola Livre, espaço de discussão sobre novas formas de fazer e ensinar design. O zine tem 30 páginas + sobrecapa. Dá pra encomendar aqui. Nesta página também está disponível o primeiro zine.

Talvez você esteja se perguntando: mas por que um zine e não um livro ou revista? Algumas justificativas são: porque o zine é uma publicação livre, que ocupa o vasto espectro entre simples folhas impressas/xerocadas em qualquer lugar até uma publicação "de artista" com folhas coloridas em altas gramaturas ("grossura" do papel) e formatos ousados.

Porque é uma publicação barata: pode ser impressa em (quase) qualquer gráfica ou fotocopiadora, em qualquer lugar do mundo. Porque tem fácil circulação, podendo ser distribuída em qualquer lugar, não necessariamente bancas ou livrarias.

Porque é artesanal, cada um é diferente do outro (no corte, no grampear, na impressão), e você participa de todo o processo, deixando seu suor em cada página do processo.

Por fim, um último e importante porquê para nós: trazer para o diálogo a cultura livre digital, baseada no copyleft e no software livre, com a cultura do it yourself punk. Ambas são anticopyright e estão querendo ser copiadas, remixadas, circuladas adoidadas por aí.

Fotos: Fotolivre.org

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