OPINIÃO
20/06/2014 10:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Eugene e a Copa do Mundo

Muitos consideram que Eugene não "pensa" no sentido cognitivo dos seres humanos e é "apenas" um chatbox, um simulador de conversação rodado através de um script sofisticado. Mas que convenceu 33% dos jurados.

Reprodução

Desde 12 de junho só se fala em Copa no Brasil. Pra quem não gosta fica difícil fugir do assunto, por que ele está em todos os lugares, TVs, redes, rádios e ruas. E pra quem gosta fica difícil fazer outra coisa, já que a onipresença futebolesca estimula a overdose de informação, que as mesmas redes, e também o jornalismo, têm tratado de suprir com mais e mais doses infinitas.

Do assunto que tem sido o meu objeto principal de interesse no momento, a tecnologia e a comunicação nas redes, poderia comentar sobre as belas visualizações de dados que tem sido produzidas sobre a #Copa2014, que se aproveitam dessa ser a primeira do big data e da ação efetiva em tempo real de milhões (bilhões) de pessoas nas redes sociais - estou juntando algumas numa série de tweets no @baixacultura. Ou dos memes quase instantâneos que circulam pela rede - como este, fruto da expulsão de Pepe na goleada da Alemanha X Portugal, ou os do primeiro jogo do Brasil, compilados pelo YouPix, e outros vários que surgem a cada jogo e você esquece no dia seguinte - colocando o Twitter como companheiro indispensável (e mais divertido) para acompanhar uma partida da copa.

Dava para falar também do uso decisivo da tecnologia na marcação do segundo gol de França X Honduras, realizado no Beira-Rio, em Porto Alegre, e que provocou reações das mais interessantes nos comentaristas do jogo, considerando o chip presente na "Brazuca" - e por consequência o ente "tecnologia" que ele representa - como uma entidade infalível, superior, quase um Deus todo-poderoso, se esquecendo que ela também é produto humano e, como tal, também pode falhar (embora menos que os juízes da primeira rodada da copa).

Mas não vou falar sobre Copa hoje, porque pra isso vocês tem zilhares de opções nesta internet e aqui no Brasil Post. Vou comentar, sim, sobre tecnologia, e peço licença para contextualizar um causo. Ano passado, no doutorado que faço em comunicação, cursei uma disciplina na pós em computação da UFRGS chamada "Mentes e Máquinas". Entre diversas conversas e leituras sobre o que de fato seria inteligência, o "Teste de Turing" sempre aparecia como o clássico paradigma da inteligência artificial - quando que um computador teria a esperteza e a criatividade para enganar diversos seres humanos?

[Criado pelo matemático Alan Turing, um dos "pais" da computação, o teste funciona assim: um julgador humano entra em uma conversa, em linguagem natural, com outro humano e uma máquina projetada para produzir respostas indistinguíveis de outro ser humano. Todos os participantes estão separados um dos outros. Se ao final a máquina conseguir enganar os 30 avaliadores em 30% das interações, num chat de 5 minutos, diz-se que ela passou no teste.]

Pois bem, parece que no último 7 de junho, no aniversário de 60 anos da morte de Alan Turing, um computador chamado Eugene Goostman passou no teste. Criado por um time russo, ele convenceu 33% dos juízes que era humano, segundo disseram os pesquisadores da Royal Society da Inglaterra, onde o teste foi feito. Entre os que comentou sobre a vitória do robô russo estava Kevin Warwick, um dos maiores especialistas em cibernética do planeta, cara que já controlou um braço mecânico com diversos eletrodos na cabeça e escreveu sobre essa (e outras experiências) num livro chamado "I, Cyborg".

Existe ainda muita controvérsia sobre o que, de fato, passar no teste significa - e se este foi realmente o primeiro caso na história a isso ter acontecido, como afirmou a Universidade de Reading. Muitos consideram que Eugene não "pensa" no sentido cognitivo dos seres humanos e é "apenas" um chatbox, um simulador de conversação rodado através de um script sofisticado. Critica-se também o fato de que os criadores do robô foram malandros ao fazerem Eugene como um adolescente de 13 anos, o que tornou mais "aceito" para os jurados que ele não respondesse tudo, ou respondesse dizendo que gosta de hambúrgueres, livros, tem um pai ginecologista e ouve Eminem. "Our main idea was that [Eugene] can claim that he knows anything, but his age also makes it perfectly reasonable that he doesn't know everything", respondeu Vladimir Veselov, um dos criadores do robô.

Por essas e outras questões, muitos acreditam que o fato dele ter vencido o teste não responderia a questão "as máquinas podem pensar?", que estaria na base do exercício proposto por Alan Turing. Testaria, sim, a capacidade dos pesquisadores de desenvolver um sistema capaz de responder perguntas do que propriamente um sistema pensante. A revista Wired, por exemplo, testou o sistema e deu nota F (equivalente a 0) para Eugene.

Perguntado sobre o seu feito, Eugene disse à Independent que se sente tranquilo em bater o teste, que não é "nada de mais". Resposta típica de um guri de 13 anos.

P.s: Eugene voltou à rede e pode ser acessado. Confira também esta entrevista (em inglês) com o guri.

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