OPINIÃO
10/10/2014 11:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

A bolha invisível (e prejudicial) das redes

divulgação

Eli Parisier foi um dos fundadores da Avaaz, um dos mais conhecidos site de petições online no mundo, e diretor executivo do MoveOn, portal de ativismo e política nos Estados Unidos. Mas está aqui por conta de ter escrito um livro que vem bem a calhar nesses tempos: "O Filtro Invisível", editado no Brasil em 212 pela editora Zahar. Além de transformar o autor num dos palestrantes mais populares do mundo da tecnologia, o livro provocou um debate intenso nas redes sociais e inspirou pequenas mudanças no sistema de buscas do Google. Mas do que se trata?

"O filtro" defende a tese de que com a crescente utilização de algoritmos para personalização, a internet está se enclausurando em "bolhas" de interesse individual. Quando deixamos de seguir alguém que discordamos frontalmente, ou "curtimos" mais posts de determinadas pessoas, para ficar no exemplo do Facebook, os cálculos do algoritmo da rede passam a mostrar mais ainda estes conteúdos/pessoas, "escondendo" aquilo (ou aqueles) que discordamos. Isso se dá principalmente por questões de mercado: quanto mais souber dos produtos, serviços e interesses de seus usuários - em suma, quanto mais personalizada for a informação - mais estas redes vão vender anúncios. Consequentemente, maior será a chance de compra dos produtos oferecidos. E assim a roda gira pra todos: as grandes empresas digitais (sobretudo Google e Facebook) ganham mais dinheiro com os anúncios, os patrocinadores vendem mais seus produtos, e os usuários ganham a chance de encontrar (e consumir) produtos mais próximos de seus interesses.

Outro exemplo: se estamos logados no navegador Google Chrome, nossas buscam no Google nos direcionam para assuntos que temos mais interesse, e assim conseguimos acionar conteúdos de maneira mais rápida - afinal, o Google sabe o que você costuma procurar na internet porque tem acesso ao seu histórico e por que dá prioridade ao que nossos amigos no Google + (a rede do Google que, se você tem um Gmail, está nela, sabendo ou não disso) estão compartilhando. Se 300 de nossos amigos curtem uma página no Facebook, essa página tem mais possibilidade de ter um anúncio na sua timeline do que aquela que nenhum amigo curte. É o predomínio da personalização sobre a diversidade: ficamos preso na bolha dos nossos amigos, ou daqueles que compartilham de uma mesma ideologia de vida e um mesmo direcionamento político/estético.

Lembrei do livro de Parisier já na noite do último domingo, quando a ressaca da "festa de democracia" começou a bater nas minhas redes (sobretudo Facebook e Twitter). Depois das 19h30, uma onda estupefata de posts surgiram, boa parte deles se perguntando: "mas são estes os vencedores das eleições? na minha timeline eles jamais ganhariam um voto sequer!" Nomes como Jair Bolsonaro, Luis Carlos Heinze, Marco Feliciano, Celso Russomano - todos com casos conhecidos de preconceitos contra minorias e, por conta disso, execrado pela timeline dos meus amigos - estiveram entre os mais votados entre os candidatos a deputados federais no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, respectivamente. Como explicar? É a bolha.

Pablo Ortellado, professor da USP e filósofo dos mais ativos na rede, clareou a questão em um comentário no Facebook: "Nos habituamos muito rapidamente a essa nova realidade social: a divergência intransponível. A lógica das redes sociais já é a da interação entre comunidades homogêneas -- e mesmo neste ambiente desprovido de pluralidade, encontramos grande dificuldade em nos engajar em interações com os divergentes". Se já não conseguíamos dialogar racionalmente com o do "outro lado" numa discussão na rua, imagina agora, que as redes sociais e seus algoritmos tem potencializado ainda mais nossa falta de capacidade de entender e argumentar politicamente ao nos relegar a "filtros invisíveis" onde todos concordam conosco, compartilham das mesmas ideias, candidatos e experiências.

O resultado desse comportamento foi mostrado na urna e causou a surpresa de muitos: um aumento de militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos conservadores entre os candidatos eleitos, fazendo com que o Congresso eleito em 2014 seja o mais conservador desde 1964, segundo a análise do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) em matéria publicada no Estadão. Candidatos que, por demonstrarem abertamente seu preconceito e muitas vezes não conseguirem promover o diálogo de ideias sobre alguns assuntos, foram limados do debate em certas "bolhas" progressistas - da qual a deste escriba se inclui - que defendem a legalização do aborto, as causas LGBT e a descriminalização das drogas.

Seria falta de persistência dos que defendem estas causas em argumentar com o outro lado? Ou será que tendo persistência (e paciência) para debater estas causas não estaria dando ainda mais visibilidade midiática a posições extremistas, fazendo estes deputados demarcarem sua posição preconceituosa também porque assim aparecem mais? Como disse o professor e jornalista Nilso Lage: "Exposição pública significa notoriedade. Responder a imbecilidades como se fosse coisa séria é perda de tempo". Mas como desmistificar um assunto, por mais "imbecil" que seja, se não debatê-lo e torná-lo assunto cotidiano, de "mesa de bar", conversa de ônibus, do corredor da "firma"?

Por ora não há respostas, só (muitas) perguntas. As explicações pra essa retomada conservadora do Congresso vão render muita conversa nos próximos meses e anos, e ainda vão depender do 2º turno, sobretudo o da disputa presidencial. Aguardemos, de preferência fora das bolhas.

*texto publicado também no site do jornalista Claudemir Pereira, com ligeiras alterações.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.


VEJA TAMBÉM NO BRASIL POST:

Você sabe que é viciado em redes sociais quando...