OPINIÃO
16/04/2014 15:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Líder do Placebo diz: "as pessoas se editam demais na internet"

BERLIN - NOVEMBER 05: (L-R) Steve Forrest, Brian Molko and Stefan Olsdal of Placebo pose for a picture in the studio during the 2009 MTV Europe Music Awards held at the O2 Arena on November 5, 2009 in Berlin, Germany. (Photo by Dave Hogan - MTV/Getty Images)
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BERLIN - NOVEMBER 05: (L-R) Steve Forrest, Brian Molko and Stefan Olsdal of Placebo pose for a picture in the studio during the 2009 MTV Europe Music Awards held at the O2 Arena on November 5, 2009 in Berlin, Germany. (Photo by Dave Hogan - MTV/Getty Images)

Nesta segunda, 14, o Placebo trouxe para São Paulo o show da turnê de seu disco mais recente, "Loud Like Love" (2013), no Citibank Hall. Um pouco antes da apresentação, a banda cedeu algumas entrevistas à imprensa nos camarins da casa de espetáculos paulistana. Confira como foi a conversa com o vocalista Brian Molko, 41, líder da banda europeia.

No disco novo, é possível perceber uma mudança de perspectiva nas letras. Se nos trabalhos anteriores era predominante a presença da primeira pessoa do singular, Loud Like Love parece focar mais no "outro", alteração evidenciada nas canções pelo uso constante das palavras "nós" e "você". Essa mudança foi consciente?

É uma questão interessante. Não foi necessariamente consciente. Nas letras do Placebo, desde o começo de nossa carreira, mesmo quando a visão em primeira pessoa era usada, o assunto ou o narrador não era sempre o "Brian". Muitas cancões do passado foram baseadas em histórias que me contavam. Eu assumia a persona do narrador e tentava ser confessional nas entrelinhas.

No disco novo, comecei a usar personagens para contar minhas histórias. É daí que surge essa mudança de perspectiva. Na faixa "Too Many Friends", por exemplo, pensei muito em como as pessoas estão se comportando na internet ao criar um personagem de si mesmas.

O sujeito se edita demais, se torna fantasia. O poder de criar sua própria imagem pública te deixa mais autocrítico, consciente de si mesmo. É quando você começa a se censurar. Fui no sentido inverso. Ao criar personas, me tornei mais capaz de sentir empatia pelas humanidade em geral. Você me fez pensar em um paradoxo interessante: quando tentei contar histórias dos outros, acabei expondo mais de mim.

Ainda falando sobre letras: existe, em qualquer música do catálogo, alguma referência que ninguém captou e você desejava que as pessoas tivessem entendido?

(risos) Isso é difícil de responder. Geralmente as pessoas ficam presas na superfície das palavras. Isso sempre acontece. Um exemplo tirado de "Loud Like Love" é a faixa "Rob the Bank" (roube o banco). Já me perguntaram várias vezes se é sobre o Occupy Wall Street ou coisa assim. Na verdade, é sobre obsessão carnal. (pausa) É sobre trepar!

Ok, nesta música você fala sobre "roubar o banco da América, da Europa, do México"... é possível assumir que é uma canção sobre trepar no mundo todo?

(risos) Não! Na verdade, é sobre tempos em que, não importa quais foram as suas atividades durante o dia, se você fez uma boa ação ou cometeu um grande crime, está apenas preocupado em retornar para seu lar e trepar. E da satisfação que sentimos com isso.

O primeiro disco de vocês ("Placebo", de 1996) está completando 18 anos. É claro que o grupo ganhou novos fãs ao longo do tempo (especialmente quando o álbum "Meds", de 2006, alcançou sucesso nos Estados Unidos), mas grande parte da plateia dos seus shows é formada por seguidores que estão lá desde o começo. Qual foi a banda que conseguiu manter seu interesse por 18 anos?

O Sonic Youth foi assim, mas infelizmente eles se separaram em 2011. Desde a primeira vez que os ouvi até o fim da banda, não houve um disco que me desagradou. O SY e o Pixies revolucionaram minha vida, foram os responsáveis por me mostrar técnicas e usos da guitarra elétrica pra muito além do que eu imaginava.

Em 2003, vocês lançaram alguns covers com o pacote deluxe de "Sleeping With Ghosts". Nessa coletânea, algumas versões eram esperadas, como "Big Mouth Strikes Again", do Smiths. Faz certo sentido que o Placebo toque essa música. E também houve a releitura de "Running Up That Hill"(escrita por Kate Bush), que virou um clássico do repertório de vocês. Mas uma faixa como "Daddy Cool" (Boney M) foi uma surpresa. Se o Placebo fizesse um novo disco de covers hoje, quais seriam as inclusões inusitadas?

(risos) Cara, durante as gravações do Loud, tocamos muito "Sign o' the Times", do Prince. E também "Ain't No Sunshine", clássico do Bill Withers. Sobre "Daddy Cool", leve em consideração que somos crianças dos anos 80. É por isso que nossos covers acabam misturando Depeche Mode e Boney M.

Você já falou sobre fazer um álbum focado em samplers e sintetizadores. Contudo, os três últimos discos do Placebo soam mais orgânicos e menos eletrônicos. A pegada mais eletrônica é uma direção que se pode esperar no futuro?

O disco novo conta muito com sintetizadores analógicos. Acho que a última vez que usamos tantos sintetizadores foi no "Sleeping With Ghosts". Essa fusão de uma atmosfera mais orgânica, baseada em performance e menos bases programadas nos interessou mais recentemente, porém os sintetizadores estão lá. Só que todo álbum que lançamos é uma reposta nossa ao trabalho anterior. Então, quem sabe. É um caminho que podemos seguir.