OPINIÃO
03/05/2014 11:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Lea Delaria, de <em>Orange is the New Black</em>: 'Thammy Gretchen é uma versão brasileira de mim'

A atriz está no Brasil para promover o seriado Orange is the New Black, em que interpreta Carrie "Big Boo" Black. Ela vai participar da 18ª Parada do Orgulho Gay de São Paulo - e nós a entrevistamos.

Divulgação

A atriz, comediante e cantora Lea Delaria, 55, está no Brasil para promover o elogiado seriado Orange is the New Black, cuja segunda temporada estreia no dia 6 de junho. Na série, Lea interpreta Carrie "Big Boo" Black, uma detenta lésbica que, apesar de sua aparência ameaçadora, é um poço de amor.

A artista, também gay na vida real, participará da 18ª Parada do Orgulho Gay de São Paulo, no trio patrocinado pela Netflix. Nessa entrevista, ela fala sobre a imagem das mulheres na televisão, como é estar na pele de Boo e também comenta um pouco sobre orgulho gay, além de estabelecer um paralelo interessante entre ela mesma e uma celebridade brasileira...

Uma das coisas mais interessantes sobre OITNB é a abordagem de diferentes arquétipos da feminilidade. Como um homem, foi quase didático ver a série entrar na cabeça de personagens tão diversas como Piper, Red, Miss Claudette, Alex, Morello, Sophia e a própria Boo. Cada uma carrega um aspecto muito particular do universo feminino.

Esse tratamento foi totalmente intencional. E deixe-me contar como aconteceu: mulheres em posição de comando na produção (o seriado foi criado por Jenji Kohan, escritora e produtora norte-americana também famosa por Weeds).

Era muito importante para as pessoas envolvidas que as mulheres desse show fossem intrigantes o suficiente para despertar o envolvimento do espectador.

Mesmo os homens que integram o time de OITNB pensam como você: a diversidade feminina deve ser olhada com fascínio. Na mão de outros diretores, uma personagem como Boo poderia ser facilmente retratada como alguém feia, repulsiva. Não é o caso. Boo é tão linda quanto Piper. Todas as personagens são concebidas para serem atrativas, bonitas.

Não é meio chocante que, em 2013 (ano da primeira temporada), a diversidade de personagens mulheres ainda fosse considerada "inovadora"na televisão?

Sim. Estamos lidando com questões bem grandes. Mas só é chocante porque os homens estão no controle da mídia há muito tempo.

A maior parte das mulheres em OITNB está na prisão. Você acha que a feminilidade também está "presa" na sociedade? Como será o processo de libertação?

O regime patriarcal está sob ataque, isso é inegável. Quanto mais a imagem da mulher é mostrada de maneiras novas e diversas, mais espaço ganhamos. A resposta machista e conservadora se torna cada vez mais histérica, mas vejo isso como uma coisa boa: os críticos se tornam tão ortodoxos que começam a fazer um nicho em volta de si mesmos, cada vez têm menos atenção. É uma batalha perdida da parte deles, na minha opinião.

Outro destaque de OITNB é a capacidade dos escritores em criar roteiros que deixam o espectador pensando "agora tudo vai desandar" a todo momento série. A sua personagem, Big Boo, foi protagonista de um desses momentos onde muita gente achou que a merda ia bater no ventilador.

(risos) Eu me pergunto sobre qual episódio você está falando...

Sim, me refiro ao famoso incidente com a chave de fenda perdida dentro da prisão na primeira temporada.

Cara, foi muito divertido filmar aquilo. Eu sou uma comediante. Para mim, a ideia da minha personagem dar uma de MacGyver e transformar uma chave de fenda em um consolo era simplesmente hilária, deliciosa demais. Até a escolha do som que Boo iria emitir ao atingir o orgasmo foi feita com muito humor. Acabamos decidindo que uma mulher com todo aquele porte iria chegar ao clímax com um modesto e contraditório "miii".

Esse foi o primeiro grande episódio para Boo no seriado. E você migrou entre ameaçar mortalmente outra prisioneira e ser mostrada como uma psicopata em potencial para se revelar como uma mulher que só está solitária. É bastante desenvolvimento para uma personagem em apenas um capítulo. Como foi construir a Big Boo desse jeito?

Está tudo na escrita. Muitas vezes, quando faço shows de comédia, recebo roteiros que me fazem pensar "como vou fazer para isso ser engraçado?". Neste caso, todo o crédito sobre a personagem vai para os escritores. Eles nos entregam documentos muito tridimensionais: o que Boo está sentindo, como ela se porta em determinada cena, como a expressão dela vai mudar. É tudo muito detalhado.

Lea na Rua Oscar Freire, em SP.

Sobre a segunda temporada de OITNB: em quais personagens o espectador deveria ficar de olho? Além da protagonista Piper, claro. Quem é que pode surpreender os fãs na nova leva de episódios?

(após pausa para perguntar aos representantes da Netflix se poderia responder à pergunta) Big Boo e Larry.

Minha última pergunta é mais pessoal. Quando fui convidado para te entrevistar, minha resposta ao telefone para a redação do Brasil Post foi, "ah, vocês querem que eu entreviste Aquela Grande Sapatão?" (That Big Fucking Dike, em inglês)

(risos) E eles entenderam sua resposta, ou te classificaram como um babaca?

Me acharam muito rude! Somente em seguida deixei claro que já acompanhava sua carreira e expliquei que você se apresentava assim nos seus primeiros anos como comediante, lá no começo dos anos 90.

(risos) sim, era isso mesmo.

Pois é, esse diálogo serviu de inspiração para essa próxima questão... desde o início de sua vida pública, você abraçou o estereótipo da lésbica mais masculina...

Abraçar, não. Foi mais como reinvidicar mesmo. Eu me apropriei dele.

Legal. Aproveitando o gancho da Parada do Orgulho LGBT e de debates recentes no Brasil sobre a melhor forma de combater o preconceito, qual é sua opinião sobre a estereotipação de minorias? Do ponto de vista de uma ativista, o que é mais importante para o movimento LGBT? Qual é o equilíbrio entre lutar pela aceitação de toda diversidade e também esclarecer que nem todo gay é afeminado ou toda lésbica é masculina, por exemplo?

Qualquer pessoa deve ser livre para ser o que ela é de fato, isso é o mais importante.

Lutar pelos direitos básicos para as minorias é prioridade. Muitas vezes, sou questionada sobre isso. Mulheres que me fazem parecer uma menininha me chamam no canto, "Lea, você só fala de lésbicas masculinizadas nas suas esquetes".

A minha resposta costuma ser: "querida, você já se olhou no espelho?"

É claro que nem toda garota gay se parece comigo, o que é ótimo. Meninas mais delicadas são meu tipo! Mas precisamos ser orgulhosos do que somos, especialmente quando não há nada de errado com isso. Ao chegar no Brasil, vi essa foto de uma atriz brasileira lésbica, ela é filha de uma cantora famosa... qual é o nome dela? (pausa) Thammy Gretchen. A menina é uma versão brasileira de mim! (risos)

E pensar nisso é fantástico. Ela estava em uma novela de grande audiência, não? Pois é, em algum lugar do Brasil, uma garota como ela vai assistir a Thammy e pensar "ali está alguém como eu, não estou sozinha". Não penso em estereótipo, foco mais em modelos mesmo. Quando cresci, não é como se tivesse alguém para me espelhar. A próxima geração poderá olhar para mim, ou para a Thammy. Esse é mais o espírito.