OPINIÃO
03/08/2018 13:37 -03 | Atualizado 03/08/2018 13:37 -03

A ciência pede ajuda

"Se você pensava que o Brasil ainda poderia respirar, chegou o golpe final."

Westend61 via Getty Images

Imagine um emprego que te pagará pouco, além de exigir sua dedicação máxima e exclusiva. O trabalho, muitas vezes, só poderá ser realizado com produtos que não estão no mercado nacional. Para importá-los será uma guerra contra a burocracia. Lutará muito para começar a receber um salário. Extensos relatórios serão necessários, além de um texto com centenas de páginas explicando, detalhadamente, tudo o que você fez. Superiores farão pressão constantemente para que tudo saia certo e rápido.

Você aceitaria se recebesse esta proposta de serviço? A realidade na vida de quem faz pesquisa no país é muito semelhante. Algumas diferenças são essenciais a serem ressaltadas: não é um emprego e não tem salário. Aqui cientistas não têm reconhecimento profissional. Pós-graduandos e pós-doutores de universidades públicas, os responsáveis pela maioria da produção científica, podem optar entre trabalhar junto com a pesquisa, ou disputar uma bolsa.

Como são demasiadamente sobrecarregados pelo trabalho acadêmico, não é viável ter emprego simultâneo, nem legalmente possível caso você tenha bolsa. O que acontece, de fato, é a maioria desses alunos atrás de financiamento estatal para pesquisa. Os maiores responsáveis pelo fornecimento são órgãos federais, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e estaduais, como as Fundações de Amparo à Pesquisa ("Faps").

Estas agências lançam editais periodicamente e recebem propostas de projeto. São extremamente importantes para que sejam financiadas as pesquisas de base. A maior parte, se não a totalidade das grandes descobertas científicas, advém delas. É indispensável para fornecer sustentação às pesquisas de ponta, aquelas que testam diretamente a aplicação das descobertas científicas em contextos tecnológicos e farmacêuticos, por exemplo.

É raríssimo que uma empresa comece uma pesquisa que não tenha sido iniciada na academia, pois não interessa financiar algo que não otimize seus investimentos a curto e médio prazo, como são as pesquisas básicas. Por isso os investimentos federais e estaduais às instituições de fomento são essenciais, estratégicos e não devem sofrer com cortes emergenciais.

Para que um país seja independente na tecnologia a ciência deve ser vista como investimento prioritário. O corte destinado ao Ministério da Educação para 2019, denunciado pelo ofício da CAPES, afetada diretamente, é a oportunidade que a comunidade científica tem para levantar a voz de vez. Mostrar ao país sua relevância e sua força de engajamento. Tentando encontrar um lado positivo, surgiu a pauta que tanto faltou nas últimas décadas para uma união total.

Em menos de 24h do lançamento deste documento surgiram grandes atos independentes pelo Brasil. Nesta sexta-feira (03/08) acontecerão manifestações científicas puxadas, de maneira inédita nos últimos tempos, por estudantes de graduação e pós graduação. Somaram-se rapidamente com professores e divulgadores científicos. Destas organizações surgiu a hashtag #SOSCiência, que promete ocupar durante a tarde os trending topics do Twitter.

Confirme presença, e esteja conosco pela ciência:

São Paulo

Sexta 03/08

Em defesa das Bolsas - MASP - 16h

Domingo 05/08

Ato em defesa da ciência - MASP - 15h

Quinta 09/08

Contra os cortes na CAPES. Não vamos recuar! - FFLCH-USP - 19h

Rio de Janeiro

Sexta 03/08

Contra A Suspensão Das Bolsas Capes! - Ato na Cinelândia - 17h

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.