OPINIÃO
13/07/2015 17:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Passei minha vida tentando esconder isto

Nasci um pouquinho diferente das outras crianças. Quando eu tinha alguns meses de idade, um grande sinal de nascença cor de vinho veio parar no lado direito de meu rosto e resolveu ficar comigo definitivamente.

Este talvez seja o texto mais difícil de escrever de todos em minha vida. Passei a maior parte de minha vida tentando ocultar algo que está estampado em meu rosto desde sempre. Nasci um pouquinho diferente das outras crianças. Quando eu tinha alguns meses de idade, um grande sinal de nascença cor de vinho veio parar no lado direito de meu rosto e resolveu ficar comigo definitivamente.

Sempre fui uma garota feliz e ambiciosa. Honestamente, até o momento em que a sociedade me fez saber que havia algo em mim que era diferente, eu sequer tinha consciência disso. É claro que eu sei que não fui a única criança do mundo a ter alguma desvantagem estética ou alguma coisa que me diferenciava das outras.

E também tenho plena consciência de que, não fossem essas marcas abstratas rosadas na minha bochecha direita conhecidas em inglês como port-wine stain (mancha de vinho do Porto), as crianças teriam encontrado outra razão para me dar apelidos humilhantes. Os garotos teriam encontrado outros motivos para rejeitar meus convites para o baile de formatura e esquecer de me mandar cartões de Dia dos Namorados. As meninas ainda assim poderiam ter me colocado entre as últimas escolhidas para seus times de kickball. Na minha cabeça, porém, a mancha no meu rosto era a razão de todas as rejeições que eu sofria. O fato de ter a mancha me deixava arrasada, antes mesmo de eu saber o significado da palavra.

Para que fique claro: minha mãe e meu pai - e também o resto de minha família, na verdade - sempre me fizeram sentir que eu era linda. Sempre me amaram pela pessoa que sou, e não apenas por minha aparência. Mas, para ser totalmente sincera, eu sempre enxergava uma tristeza tênue no olhar deles, como se eles quisessem que eu não precisasse passar pelo sofrimento de ter aquela mancha que me deixava diferente. Com certeza tiveram que enfrentar muitas perguntas sobre o que aconteceu com meu rosto.

Devem ter ouvido muitas sugestões e dicas de remédios de inúmeras pessoas. Sei também que, em algum nível, eles tinham o coração partido porque eu teria que aprender a superar uma vida inteira de olhares desagradáveis lançados por uma sociedade superficial.

Quando cheguei à quarta série, estava surgindo uma tecnologia que permitia a remoção a laser de sinais de nascença. Mais tarde, o tratamento a laser virou muito comum, sendo usado para apagar muitas tatuagens com os nomes de ex-namorados. Mas na época ainda era revolucionário, doloroso e caríssimo. Meus pais trabalharam muito e economizaram para poder pagar o tratamento para mim. Acho que eles esperavam que eu pudesse passar pelo mundo sem que nada comprometesse minha beleza.

Quanto ao tratamento a laser, aos 7 anos, desisti depois de uma aplicação. Era dolorido demais, e acho que de algum modo a dor não era apenas física - aquilo me fazia sentir que eu era diferente. Resolvi continuar a viver com o rosto que eu tinha e a conviver com apelidos como Gorbachev ou Cara de Mapa, enquanto rezava pela luz da maquiagem no fim do túnel.

Aos 11 anos eu já me maquiava todos os dias, às vezes usando bases pesadas como Dermablend. Olhando para trás, acho que eu posso ter lançado uma tendência: alguns anos depois já havia muitas garotas sem sinais de nascença que também usavam maquiagem pesada. Com o corretivo estrategicamente aplicado, as pessoas já podiam me atormentar por coisas normais, tipo usar óculos, engordar ou qualquer outra coisa que o atormentador do mês quisesse focar.

Me recordo de ter chegado atrasada para pegar um trem para a cidade (onde eu ia assistir a um show com amigos) quando eu estava no ensino médio. Eu não tinha tido tempo de me maquiar; resolvi fazer isso no trem. Pensei "que se dane, estou entre amigos". Assim que comecei a aplicar o corretivo, que era a muleta de minha vida, um dos garotos falou bem alto: "Agora estou entendendo por que você usa tanta maquiagem". Acho que uma parte do meu coração caiu para o chão daquele trem e ficou lá até hoje. E aquilo foi apenas um momento em uma vida muito longa.

Talvez você pense que o bullying termina quando a gente recebe o diploma de colegial e parte para o mundo maior. A razão por que estou compartilhando este texto com vocês, mostrando toda minha vulnerabilidade, é que quero mostrar que a coisa não acaba depois do colégio.

Hoje já tenho mais de 30 anos, e o dia do meu casamento está chegando. Vou me casar com um homem maravilhoso que me ama e ama todas as manchas, os sinais de nascença e os quilinhos que viu nos sete anos em que estamos juntos. Eu decidi que é hora de dar adeus à mancha, porque eu quero. Estou me tratando com um dermatologista fabuloso no sudoeste da Flórida, e, depois de mais de 20 aplicações ao longo de vários anos, minha mancha de nascença quase ficou para a história. Mas nos dias em que faço as aplicações a laser, a sensação que tenho é que ela é um outdoor.

Veja minha cara depois de cada uma das aplicações a laser:

#acordeiassim

Na semana passada fiz mais uma aplicação agressiva e então fui aos correios e à mercearia. Eu não me cubro mais de maquiagem, nem cubro a mancha com curativos, só para proteger de desconforto as pessoas por quem eu passo na rua. Hoje em dia eu ostento meu rosto com orgulho, porque esta sou eu. Na maior parte do tempo eu esqueço completamente da mancha; afinal, ela esteve aqui minha vida inteira.

Enquanto eu fazia fila no caixa do mercadinho, vi uma colega de trabalho minha esperando para pagar. Eu a chamei em voz alta e acenei para ela com um braço carregado de pacotes. Não houve reação - ela olhou para o outro lado. Voltei a chamar o nome dela bem alto, sem parar de acenar. Finalmente ela olhou para cima. Assim que fez contato comigo olho no olho, ela afastou o olhar rapidamente e saiu da loja quase correndo.

Sem entender o que tinha acontecido, perguntei a uma amiga se ela sabia por que a mulher me ignorou na loja. A explicação que recebi de minha amiga é que minha colega viu "uma mulher estranha" com o rosto todo manchado e não me reconheceu.

Naquele instante percebi que precisava realmente escrever este texto. Fazia muito tempo que eu não sentia como é doloroso ser tratada como se eu fosse invisível, como se eu não merecesse o olhar da outra pessoa. Isso ainda acontece diariamente com algumas pessoas. Se eu tivesse que tatuar duas palavras no lugar da minha mancha de nascença, hoje quase invisível, essas palavras seriam "SEJA GENTIL".

Os olhares, os gestos, as perguntas, os julgamentos, tudo isso são armas que não têm origem no amor.

Passei minha vida inteira me esforçando para ser uma pessoa amorosa e gentil. Minha estética não define meu caráter, e ninguém mais merece ser julgado apenas por sua aparência. Nós, como sociedade, tentamos desculpar esse tipo de comportamento superficial quando vem de crianças, que talvez não saibam que é errado. Mas deveríamos esperar muito mais compaixão dos adultos que criam essas crianças.

Quase todo o mundo tem alguma coisa de que não gosta em si ou tem qualidades negativas sobre as quais se concentra. Todos nós criticamos nossas falhas, mas na realidade são essas críticas que roubam nossa beleza. A beleza genuína é criada pelo orgulho que sentimos de nós mesmos, e a felicidade genuína sempre é maravilhosa. Aprendi que o maior erro que posso cometer é deixar que outras pessoas definam minha beleza.

Àquelas crianças que me tratavam com crueldade e diziam que eu tinha o mapa do mundo em meu rosto, é isto que estou ouvindo em meus fones de ouvido enquanto caminho por este mundo, mais que orgulhosa da vida que me foi dada para viver. Meu sinal de nascença pode acabar sumindo, mas a pessoa que ele me ensinou a ser será corajosa para sempre. Maculada ou não, minha beleza vem de dentro, e pretendo brilhar a partir do meu interior até o fim de minha vida.

"A vida inteira é uma busca pela beleza. Mas, quando a verdade é encontrada por dentro, a busca termina e tem início uma jornada belíssima." - Harshit Walia

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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