OPINIÃO
14/01/2015 17:15 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Mundo ao contrário

Tragédias novas vêm sempre substituir as tragédias do dia anterior. Observamos constantemente que a manchete do dia despeja um mar de sentimentos e opiniões fazendo esquecer a que chegou anteriormente.

Paola Farrera/Flickr/Creative Commons

Tragédias novas vêm sempre substituir as tragédias do dia anterior. Observamos constantemente que a manchete do dia despeja um mar de sentimentos e opiniões fazendo esquecer a que chegou anteriormente.

Colocamo-nos sobre determinado assunto, lado A ou lado B, pontuando nossos motivos e recheando a nossa posição com valores que carregamos em nossa história.

É cada dia mais gritante a necessidade de reflexão. Entender o peso que há em atitudes pessoais e cotidianas e fazer nossa parte em um mundo com tragédias evitáveis.

Há uma semana o mundo assistia atônito as notícias sobre o ataque à redação da Charlie Hebdo.

Muitas manifestações tomaram as redes sociais. Algumas defendendo a liberdade de expressão, outras - mais do que eu esperava - questionando até onde a liberdade de expressão permite a liberdade de ofensa, alguns postsvieram em tom ofensivo aos que resolveram pensar que é preciso ética na liberdade de expressão também.

O mundo com os olhos voltados para o acontecimento e o desfecho do mesmo.

Alguns dias antes, na cidade de Baga na Nigéria, mais de duas mil pessoas foram mortas pelo grupo radical islâmico Boko Haram. Pessoas comuns vítimas do mal que a religião que cega causa e do extremismo. Em um local onde o acesso à internet é raro, pouco ou quase nada foi noticiado nos portais de notícias e demais mídias.

E a dúvida: o olhar do mundo se volta somente para onde quer?

Voltando alguns meses, aconteceram as eleições presidenciais no Brasil. Essas eleições mostraram um interesse e engajamento político talvez nunca antes percebido no país. Foi revelado ali que ainda temos muito que aprender sobre democracia. Que liberdade individual é uma de suas características e que o outro pensar diferente não é mal algum.

Ofensas, amizades desfeitas, adjetivações negativas a uma maioria que definiu a direção do país nos próximos anos. Foram também resultado das Eleições 2014.

No mês de novembro houve em Minas Gerais, uma final histórica de Copa do Brasil. Os maiores do estado, Atlético e Cruzeiro, se enfrentaram em busca de um título nacional no futebol.

Nas redes sociais, mais do que a paixão intrínseca dos amantes desse esporte, torcedores dos dois clubes declararam ódio mútuo, contraditório ao pedido constante de paz nos estádios.

Por todo país, mais e mais jovens continuam morrendo pela escolha de uma cor pra vestir e amar, a intolerância se veste também de rivalidade. É mais um ensinamento equivocado para novas gerações que chegam a um mundo que se derrete em sangue por não aceitação as diferenças.

A possibilidade de um mundo melhor se distanciando da realidade, é o que se planta.

Indignamo-nos com um massacre a profissionais da imprensa, mas achamos normal que todo muçulmano seja carimbado como terrorista.

Entristecemo-nos quando um avião é derrubado na Ucrânia, mas não nos interessa os mortos em vilas na África.

Apoiamos astros do futebol que são hostilizados por sua cor de pele. Engrossamos o coro contra o preconceito a negros e pobres, mas achamos coerente que assaltantes entrem em um ônibus e assaltem somente as pessoas de pele branca, usando como justificativa o preconceito a que foram vítimas a vida inteira.

Ficamos chocados quando jovens são mortos por sua orientação sexual, mas ridicularizamos torcedores rivais usando a sexualidade.

"O mundo está ao contrário e ninguém reparou..." como cantou Nando Reis, ou fingimos não reparar? Ou nos é conveniente não reparar?

O mundo é para todos, vida é direito de todos.Sua cor, religião, partido, time de futebol podem te fazer diferente do outro jamais superior.

Que as pessoas escolham o substantivo "humanidade" como característica do melhor que pode haver no ser humano.

E que a lição e aprendizado diários, sejam de como ser melhor com o outro e não maior que o outro.

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