OPINIÃO
21/05/2014 08:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Lembranças da Copa

Estadão Conteúdo

Venho me preparando há alguns dias, para escrever sobre este tema polêmico. Quis colocar nesse espaço minhas percepções sobre o assunto, aquilo que percebo observando as redes sociais ou assistindo noticiários.

Vou começar trazendo de volta lembranças de quando era menina. Lembro com precisão da Copa de 1986, a primeira camisa de futebol que vesti foi a amarelinha. Meus pais compraram para mim e meu irmão Juninho; Mateus ainda era pequeno, e não me lembro se ele também ganhou uma. Não era a camisa oficial, imagino que já naquela época camisas oficiais eram muito caras.

Lembro do sentimento de sempre de minha mãe, torcendo muito e ensinando a torcer pela seleção brasileira. Lembro da frustração causada pela eliminação nas quartas de finais, em que Zico perdeu um pênalti. Um enorme sentimento de tristeza, pois da seleção poderia vir a redenção de tempos difíceis em que nos assombrava o famoso dragão da inflação, falta de produtos nos supermercados e a instabilidade em todos os segmentos da sociedade.

Já em 1990, na Itália, quando tínhamos o primeiro presidente civil eleito, Sebastião Lazaroni não era o mais popular dos técnicos. A seleção passou pela primeira fase e, no seu melhor jogo, foi eliminada pelo time de Maradona. Ficávamos sem o tetra e com um país afundado na recessão, confisco de poupança, empresas falindo e o desemprego gritando.

Dois anos mais tarde um movimento apaixonante tomou as ruas do país. Jovens com a cara pintada saíram vestidos de preto em protesto e pedindo o impeachment do presidente. Uma manifestação pacífica em prol do país.

A inflação pós impeachment alcançava em 1993 a marca de 2.708%. Em 1º de junho de 1994, veio a nova e atual moeda, o real. Uma moeda estável que permitiu que a economia se recompusesse. Era ano de Copa, o país havia perdido um ídolo da F1 e o tetra-campeonato chegava após 24 anos de jejum. Uma festa maravilhosa, uma emoção que me fazia amar ainda mais o futebol e que me enchia de orgulho, pela superação de uma equipe em que não botavam muita fé e pelo significado da conquista após a perda de Senna.

Após o tetra, não consegui mais fazer festa pela seleção. Veio 1998 e a decepção sem precedentes, 2002 e o penta, 2006, 2010 e agora 2014.

Estamos há menos de um mês do início da Copa 2014 no Brasil. O que me incomoda é a falta de percepção clara sobre o que está acontecendo. O que me incomoda é o aparente estado de alucinação. Como se estivessem sob efeito de estimulantes, não percebendo os interesses por trás das manifestações e a probabilidade de sermos usados.

Quantas e quantas obras superfaturadas existiram e existem por aí? Basta fazer uma pesquisa na internet pra saber que há anos educação, mobilidade urbana e saúde são deixadas de lado nos fazendo viver das migalhas de tudo isso, sobrevivendo em precariedade. A alta nos preços dos alimentos, mas há aquecimento global. A inflação é algo preocupante, mas é também inferior a outros momentos de nossa economia. Não devemos ser conformistas, jamais nos conformar com a triste realidade do país, mas é preciso atenção ao que acontece e todo cuidado ao nos posicionar.

Entristece-me que um movimento que poderia ser feito com sabedoria, focado não em um evento, mas em toda a história, aconteça com aparente manipulação de um conjunto de pessoas. Me indigna vandalismo e violência, como justificativa para que se faça uma "revolução". Saímos da posição de vitimados que lutam por seus direitos e nos tornamos tal como os que acusamos de opressão.

Aqueles que superfaturam, que não fazem seu papel político - papel que atribuímos a eles, vale lembrar -, não recebem bala de borracha ou foguetes e bombas. São pessoas comuns, trabalhadoras, que transitam em nossas ruas, que lutaram para conquistar seu patrimônio e que são prejudicadas com as manifestações.

A Copa do Mundo é uma festa de integração dos povos. Todos os países-sede bem recebem os visitantes e conosco não deveria ser diferente. Mas resolvemos nos mostrar como agressores, que não poupam quem quer que seja, para atingir aqueles que estão no poder e alcançar aquilo que chamamos de direitos constitucionais.

A melhor manifestação deveria acontecer com consciência política, nas urnas e no dia-a-dia, quando não nos corrompêssemos em situações cotidianas. Quando, a cada obra superfaturada, exigíssemos prestação de contas e punição aos que nos assaltam.

O direito de liberdade e manifestação é sagrado, tal como o direito de ir e vir, de optar por participar de um evento e amar o futebol. A validade do movimento se esvai quando se perde a razão e desrespeita o direito do outro.

E se não houvesse a Copa, estaríamos nas ruas pedindo por um país melhor? O grito de "não vai ter copa", enfiado na goela das pessoas, programado para se repetir a cada fala, discurso pronto, decorado e cansativo, deseja realmente o quê? Somente a não realização do evento, como punição há anos sem atender os anseios do povo? Ele será alterado em julho?

Que ao invés do grito "Não vai ter Copa" houvesse o grito de "Vai ter Brasil", um Brasil melhor para brasileiros melhores. Não devemos esconder nossas limitações, mas lutar com coerência para que não continue a acontecer o que sempre aconteceu.

Eu quero mesmo é ver "depois da Copa". Parece que, dessa Copa, não vamos querer lembrar.

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