OPINIÃO
29/08/2014 15:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Apenas mais uma de desamor

Novamente perdemos a razão e nos igualamos por baixo. Um mês e meio depois da Copa do Mundo, de maneira triste, confirmamos que só mudamos o personagem nas manchetes.

Reprodução/ESPN Brasil

Fiz minha estréia aqui em maio deste ano. Falei sobre o impacto da presença da bandeirinha Fernanda Colombo nos gramados do Brasil, mais precisamente após cometer um erro no clássico do futebol mineiro. Uma avalanche de piadas machistas tomou conta das redes sociais. Preconceito.

Antes, porém, do texto sobre Fernanda, assistimos a uma grande indignação pela atitude preconceituosa de um torcedor do Barcelona que arremessou uma banana em direção ao brasileiro Daniel Alves uma banana.

Em cinco meses, nos manifestamos com repúdio, três vezes, dentro do ambiente futebolístico. Tinga, Daniel Alves e Fernanda Colombo - talvez em menor escala com ela por ser mulher.

Copa do Mundo no país do futebol, no país da miscigenação. Recebemos gente de todo mundo e nos mostramos com a cara do mundo. Brancos, pardos, mulatos, índios, múltiplos.

Um mês e meio depois da Copa do Mundo, de maneira triste, confirmamos que só mudamos o personagem nas manchetes. Só redirecionamos a nossa decepção com a maneira de ser do ser humano.

O goleiro Aranha, do Santos, na noite do dia 28 de agosto, recebeu de um grupo de gremistas, em Porto Alegre, insultos que em nada têm a ver com a rivalidade que é aceitável no futebol. Termos pejorativos como "preto fedido", "bando de preto", vieram mais uma vez manchar o que deveria ser somente lindo e imaculado: o futebol.

Mais uma vez, um profissional, sendo relativizado, por sua cor. Mais uma vez a mais idiota sensação de superioridade, fundamentada na diferença.

Infelizmente não é caso raro, nem no dia a dia e nem no futebol.

Ainda dentro de todo esse contexto, uma torcedora filmada proferindo xingamentos ao arqueiro santista se tornou vítima também de nossa intolerância. Sendo mulher, recebeu adjetivos relacionados à sua aparência física, algo tão comum na vida das mulheres, que seleciona e classifica melhores ou piores de acordo com os traços físicos que se carrega.

Sexismo declarado e retuitado por milhares que ainda riram das ofensas como se fosse nosso direito sentenciá-la; como se fôssemos juízes de alguma coisa. Novamente perdemos a razão e nos igualamos por baixo.

Revoltamos-nos, mas na primeira oportunidade agimos de maneira tão pequena quanto aqueles que condenamos. Fazemos da diferença pecado e condenação.

Escrevi durante a noite, que enquanto o ser humano se sentir superior ao outro, usando quaisquer que sejam os argumentos, seremos obrigados a assistir cenas deploráveis como as de ontem. Cenas que se tornam apenas mais uma cena de desamor.

Criamos o caos e propagamos o caos. Afastamos a possibilidade de um mundo melhor quando desrespeitamos as particularidades e tentamos impor ao outro o que pensamos, gostamos e somos.

Há beleza no diferente! Há riqueza no diverso! Bonito mesmo é ver no diferente o que colore o mundo, o que faz o mundo ser mais aprazível e menos monótono.

Precisamos amadurecer e nos reconstruir. Reencontrar a essência; reavaliar-nos. Não somos mais que o outro; somos iguais. O que nos diferencia é bônus para o mundo e não estorvo.

O filósofo francês Jean-Paul Sartre, bem escreveu, "Um homem não pode ser mais homem do que os outros, porque a liberdade é igualmente infinita em todos."

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