OPINIÃO
10/11/2014 15:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Mercado de trabalho na Austrália para estudantes

Engana-se quem pensa que ao chegar à Austrália será abordado em todo momento por empresários querendo te contratar, muito pelo contrário. Tem diversas pessoas que vem para cá estudar e trabalhar, porém não encontram emprego tão fácil. No geral é: quem procura muito acha!

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Vire e mexe saem algumas listas de profissionais em falta aqui na Austrália e no Canadá, por exemplo. Minha profissão não está nessa lista e se tivesse dificilmente eu estaria trabalhando com marketing. Não sei exatamente a regra, mas um dos pré-requisitos é ter o Ielts, que é tipo uma certificação internacional de proficiência em inglês. Para prestar essa prova é necessário ter um inglês avançado e neste momento estou tendo aulas específicas para fazer a prova no início de 2015. Sem o IELTS não é possível fazer um curso universitário na Austrália, também determinados empregos requerem e por aí vai.

Quem vem para cá estudar idioma pode trabalhar legalmente por até 20 horas semanais, eu tenho o visto de estudante, o único visto concedido aos brasileiros, além do visto de turismo, é claro, porém, algumas nacionalidades como: chilenos, argentinos, italianos e franceses, entre outros, podem tirar o visto work & holiday, essas pessoas não têm limite de carga horária e não precisam estar matriculadas em uma instituição de ensino.

Engana-se quem pensa que ao chegar à Austrália será abordado em todo momento por empresários querendo te contratar, muito pelo contrário. Tem diversas pessoas que vem para cá estudar e trabalhar, porém não encontram emprego tão fácil. No geral é: quem procura muito acha! Nos meus primeiros dias de Austrália até me assustei, parecia cenário de The Walking Dead, no caso os estudantes eram os zumbis e as poucas vagas de empregos disponíveis eram os seres humanos. Quando aparecia uma vaga todos saiam em direção a ele repetindo para si mesmo "emprego, emprego, emprego!". Quem morder primeiro leva!

Quanto maior seu nível de inglês maior as chances de "get a job". Quem não fala inglês precisa trabalhar com o que necessita o mínimo possível se comunicar, um exemplo é ser cleaner, no bom português, fazer faxina. Também é possível ser dishwasher (lavador de prato) ou pedreiro. Enfim, existe uma gama de opções. Quem tem um inglês melhor pode galgar vagas em Hospitality, isto é, hotéis, restaurantes e bares.

Eu moro em Gold Coast, uma cidade de 500 mil habitantes e cujo principal negócio é o turismo. Por ano a cidade chega a receber 2 milhões de turistas, boa parte da própria Austrália e também da Ásia, mas é possível encontrar gente do mundo todo nas ruas. Trabalhar com Hospitality aqui sempre foi meu objetivo, eu vim preparado para isso. É um choque de realidade não trabalhar sentado em um escritório, como fiz meus últimos anos, todavia é uma experiência e tanto. Como vim para cá a fim de viver novas experiências, ter um emprego bem diferente do meu no Brasil estava nos meus planos.

Atualmente estou trabalhando de garçom em uma churrascaria brasileira estilo rodízio. Fiz uma entrevista por telefone com o dono que mora em Sydney e nunca o vi na vida, ele perguntou da minha experiência e claro, enfatizei o que mais me interessava. Meus pais abriram um restaurante este ano e eu em algumas ocasiões trabalhei com ele, inclusive na inauguração. Falei tão bonito sobre isso que devo ter convencido o chefe que sou capaz de dar um curso de wait staff por conta da minha (in)experiência! Meu primeiro dia foi terrível. A bandeja era minha maior inimiga, meu maior objetivo era não derrubar nada. Aos trancos e barrancos eu conseguia levar na bandeja uma cumbuca de arroz, outra de feijão, uma de vinagrete e uma de salada, que são parte da entrada. Passado quase um mês que comecei a trabalhar lá, hoje eu não tenho dificuldades de equilibrar a bandeja. Por ser um rodízio, no mesmo esquema do Brasil, é preciso ir de mesa em mesa oferecer carne por carne e servindo. Quem me conhece sabe o quanto eu sou desastrado. Minha habilidade com comida + talheres não é nada invejável. Lembro de uma vez que eu estava almoçando em um restaurante bem bacana com meu chefe da época e um colega de trabalho. Eu estava com dificuldades de cortar meu galeto, quando não sei como, meu galeto voou do meu prato e caiu no prato do nosso colega, que estava em um papo super efusivo com meu chefe. Eu apenas abaixei a cabeça e rezei comigo mesmo "eles não perceberam, eles não perceberam, eles não perceberam!". De repente a conversou cessou, silêncio absoluto e gargalhadas. Eles perceberam! Enfim, esse é meu nível de talento relacionado a manuseio de comida preparada. Agora imagine eu servindo picanha para uma mesa apertada com 10 negos? Eu acharia engraçado se não fosse comigo. Eu uso uma bela de uma peixeira para cortar a carne, que muitas vezes não está no ponto e fica difícil de fatiar no espeto. Então com uma mão seguro e apoio o espeto, que deve ter uns 70cm e com a outra eu corto a carne. Pareço que tenho Mal de Parkinson enquanto corto a carne mais crua, é comovente a cara de pavor dos clientes quando estou com uma faca gigante, tremendo a mão e tentando cortar a carne a dois palmos da cara da pessoa. Quer saber? Tem que ter medo mesmo!

No meu segundo dia, quando eu estava sendo avaliado por um dos sócios, eu derrubei um espetão com um abacaxi e um presuntão (aqui as pessoas gostam de presunto no churrasco!) nos pés de um cliente, nós usamos uma chapa de ferro para apoiar o espeto na mesa, o barulho dela caindo no chão parou até o restaurante ao lado. Vergonha absoluta! Fiquei desestabilizado emocionalmente e 20 minutos depois derrubei de novo, mas desta vez apenas a chapa. Não fui demitido e hoje em dia isso dificilmente acontecerá de novo, eu já peguei a prática. Inclusive meu Mal de Parkinson quando corto os espetos diminuiu significadamente. Outro dia eu cometi um acidente, fui servir um cara e espetei a peixeira na mão dele. Eu enfiei com gosto a faca, claro que sem querer, eu não vi, apenas senti pressionando uma carne que não era a do boi. Naquele momento não sabia se tinha arrancando um dedo da minha vítima, quando olhei estava lá o dedo inteirinho e nenhuma gota de sangue. Eu pedi perdão do fundo do meu coração, ele perdoou, eu pedi novamente, ele perdoou, eu pedi de novo, ele pediu para eu parar por ali que ele estava ótimo e que nada aconteceu.

Eu não sou o melhor garçom, mas devo ser o mais simpático! Às vezes eu chego a ser até amoroso demais, tem vez que empaco em uma mesa porque desenvolvo conversa com os clientes e por aí vai. Eles até perdoam quando me pedem uma bebida, eu entendo outra e quando trago eles aceitam! Pedem-me uma cider, eu trago uma soda e está tudo em casa! O povo aqui tem nojo de coração de frango, normalmente eu os convenço a experimentarem. Coração de frango para os australiano é sinônimo de comida de cachorro ou de culturas excêntricas.

Eu trabalho 10 horas semanais, o suficiente para pagar meu aluguel. Há dias que vou trabalhar às 18:30 e 20:30 pedem para eu voltar pra casa por falta de movimento. Por conta disso, estou procurando um emprego que me pague mais e me dê mais horas, afinal de contas eu não vivo apenas de aluguel, mas de vinho branco também! Há duas semanas eu fiz um teste em uma pizzaria que vende pedaços de pizza ou inteira. Trabalhei 3 horas com dois indianos desgraçados. Sofri assédio moral desde que cheguei ao local, nos 40 primeiros minutos eu ouvi calado e me senti muito mal. Depois eu passei a responder e já nos minutos finais o fogo cruzado estava no limite. Esses indianos não eram donos ou gerentes, eram funcionários e deveriam apenas me ensinar o trabalho. Desisti de trabalhar lá, não estou necessitado para me sujeitar a isso. Deveria também ter denunciado ao dono que é roubado pelos indianos que inclusive têm péssimos costumes de higiene, mas preferi não me meter com eles.

Para conseguir um emprego existem basicamente duas formas: pesquisar em um site de anúncios muito popular na Austrália chamado Gumtree ou ir de empresa em empresa entregar currículo. Nos meus primeiros dias de entregar currículo eu estava bastante inseguro e envergonhado, já esta semana que passou não me importo mais, entro em qualquer lugar, peço para falar com o gerente e entrego meu currículo em mãos. Sinto que terei novidades boas em breve, agora é só esperar.

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