OPINIÃO
15/03/2016 16:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O Brasil real recebeu um balde de água suja, e minha mãe estava lá

O caso da minha mãe é triste, mas ao menos ela conseguiu voltar para casa no dia seguinte, às 8h da manhã. É horrível passar a noite na rua, mas a casa estava lá, para ela, quando ela conseguisse voltar. Fora o susto, não aconteceu nada demais. Na régua da Grande São Paulo, nosso drama familiar é leve. A tristeza muda de nível quando é medida por outra régua, a régua de quem morre em deslizamento, de quem vê a casa desmoronar, de quem vai passar duas noites longe de casa porque o bairro está embaixo da água.

Prefeitura de Franco da Rocha

Minha mãe passou a noite de quarta-feira (9), dentro do carro, numa área alta de Caieiras. A chuva forte e contínua alagou as baixadas da cidade muito rápido, e transformou a tragédia coletiva em drama familiar. Como ela não tinha como ir do centro, onde trabalha, ao bairro do Serpa, onde mora desde 1989, ficou ao mesmo tempo sozinha e acompanhada. Dentro do carro, sozinha, com frio, sem banheiro. Acompanhada, em fila, junto com outras centenas de pessoas estacionadas dentro de ônibus e carros sem saber o que aconteceria nas próximas horas. Por sorte, os moradores daquelas ruas altas abriram as portas das casas delas para receber os outros, os ilhados.

Nessas horas, um banheiro e um chá quente, servido às 3h da madrugada de um dia chuvoso, mostram que a esperança é a última que se afoga. Obrigado à família que não sei o nome.

O caso da minha mãe é triste, mas ao menos ela conseguiu voltar para casa no dia seguinte, às 8h da manhã. É horrível passar a noite na rua, mas a casa estava lá, para ela, quando ela conseguisse voltar. Fora o susto, não aconteceu nada demais.

Na régua da Grande São Paulo, nosso drama familiar é leve. A tristeza muda de nível quando é medida por outra régua, a régua de quem morre em deslizamento, de quem vê a casa desmoronar, de quem vai passar duas noites longe de casa porque o bairro está embaixo da água.

Perto de Franco da Rocha, nossa Atlântida bissexta, arquitetada com cuidado pela mistura de descaso indolente e decisões ruins, Caieiras é uma ilha de normalidade. Até agora, não há mortos em Caieiras.

Nesse mundo distorcido, não matar pessoas já te faz uma cidade diferenciada. Nessas áreas da Grande São Paulo, a normalidade, a rotina, é medida em graus de horror. O trem estadual está sempre cheio, é velho e funciona mal.

Durante os alagamentos da semana passada, alguns dos meus amigos caminharam algumas horas entre as estacões de Perus e Caieiras, pela linha de trem, escura e úmida, para chegar em casa. Quando eu era adolescente, nós andávamos 20 minutos por essas linhas de ferro e pedra para cortar caminho.

Já era o suficiente para doer o pé por dias. Imagine com medo, molhado, por horas? Tratamento de esgoto, federal e estadual, não existe. Quando eu era criança, cai num desses córregos fedorentos, durante uma enchente, e fui salvo por um banco de sujeira onde fiquei atolado.

O que nós, que moramos no centro expandido de São Paulo nos espantamos, nos indignamos de vez em quando, é o ponto normal, a rotina de milhões de pessoas. Essas pessoas vivem o mundo como uma tragédia em andamento. E, de tanto viver a tragédia, o desastre se transforma no novo normal. O conforto é a exceção.

"Ah, mas elas moram lá porque querem. Ninguém obrigou as pessoas a viver ali." Já escutei essa frase, ou variações dela, muitas vezes ao longo da vida. Eu tenho dó de quem pensa assim, e tenho vontade de dar um abraço, sincero, nelas.

Uma frase assim mostra o buraco que a falta de empatia faz na alma, a incapacidade de sentir a dor dos outros. Também mostra a distância do mundo real.

Ali, na Estrada Velha de Campinas, que corta Caieiras, passa por Franco da Rocha, atravessa Francisco Morato, as casas estão em construção e já são ruínas (obrigado, Levi Strauss, pela frase alcançada). As escolhas não estão dispostas na prateleira. A escolha é o que tem para hoje. Não é entre 50 tipos de pão. É o que consigo pagar para proteger meus filhos da chuva. Isso tira a responsabilidade das pessoas? Não. Afinal, a vida também é se organizar para conseguir o que você acha importante, e isso inclui se unir aos vizinhos para cobrar o que tem de ser cobrado da prefeitura e do governo estadual, os braços mais próximos do Estado. Mas ajuda a entender o contexto em que elas fazem as suas escolhas.

As pessoas não vão para um morro íngreme por boniteza. Numa chuva pesada, nos anos 70, boa parte da casa dos meus avós, em Pirituba, foi soterrada por um deslizamento. Eles sobreviveram -- só que não tinham para onde ir. Tiveram de morar quase um ano com meu tio, no Jaraguá. Eram 10 Pereiras dividindo uma casa feita para 4 pessoas. A família precisou da ajuda dos vizinhos, dos amigos de trabalho da minha mãe e de todo o dinheiro que pudessem acumular para reconstruir a casa.

Dos anos 70 para cá, muita coisa melhorou na vida da minha mãe, dos meus tios. Mas a vida não melhorou igualmente para todas as pessoas que foram nossas vizinhas, gente com quem crescemos juntos. Na nossa régua, dormir num carro durante a noite é um absurdo traumático. Para muitas das pessoas que gostamos, isso é ruim, mas tolerável diante de outros problemas da vida.

Afinal, o alagamento rende imagens dramáticas, mas é só o capítulo mais visível de um dia pós dia dominado pelo cansaço e pela sensação de que ninguém se importa.

Os governos não têm programas eficiente para oferecer um mínimo de dignidade a quem vive na região metropolitana. Mas, a cada tragédia, o Programa de Multiplicação de Desculpas Cheias de Empáfia mostra toda a sua força e desenvoltura. Há uma desproporção entre os investimentos em engenharia e os feitos em publicidade.

No final das contas, só a seca salva da enchente. Ficamos entre a falta de água e o seu excesso. Em 2011, cinco anos atrás, eu estava contando uma variação dessa história que você acabou de ler (ela vai abaixo. Escrevi quando trabalhava no portal iG). O que mudou de lá para cá foi a esperança. Em 2011, o Brasil crescia e e estava otimista.

Os problemas eram grandes, mas pareciam ter alguma solução. Em 2016, a enchente jogou um balde de água suja em milhares de pessoas. A vida delas não só parou de melhorar -- está piorando. Em 2011, talvez a pessoa tivesse dinheiro para trocar a geladeira perdida na água. Agora, não. Toda perda dói mais e cala mais fundo.

Esse é o Brasil real, aquele para quem os governos têm sempre uma boa desculpa, mas raramente uma solução.

***

Esta é a reportagem para o iG, de cinco anos atrás.

Em 1988, fiquei embaixo d'água como as pessoas de 2011

Em 1988, minha mãe sofreu com alagamentos em Franco da Rocha. Ela mudou para um lugar alto, em Caieiras. Em 2011, continua ilhada

Na manhã da ultima quarta-feira (9), minha mãe escreveu na página dela no Facebook.

"Mais um dia ilhada. Agora está pior. Estão abrindo as comportas da represa em Mairiporã. Minha solidariedade ao povo de Franco da Rocha e região".

Liguei para ela e a gente, bem, a gente riu aquele riso irônico de quem está cansado de ver a mesma história. É como piada ruim, mas repetida. De tanto ouvir, uma hora você acha graça. De novo, Franco da Rocha está alagada.

Minha mãe mora em Caieiras, no alto da montanha, bem longe do rio. Eu moro em São Paulo. Mas, há 23 anos, eu, minha mãe, meu pai e minha irmã morávamos em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, junto com os meus avós paternos -- meu avô morreu, mas minha avó ainda mora na cidade.

Eu tinha seis anos e essa talvez seja uma das poucas memórias que eu tenho daquele janeiro de 1988. Eu e minha mãe na janela, vendo a água subir. Primeiro, o rio transbordou. Depois, invadiu o quintal da minha avó. Aos poucos, tomou o porão, que meu avô tinha construído justamente para conter a água.

Então a água tomou todo o porão e continuou subindo. Depois entrou no rancho, onde meu avô guardava as ferramentas que ele usava para cuidar do jardim, subiu a escada e foi parar na cozinha da minha avó. Entre o nível do rio e a cozinha, a água subira cinco metros em poucas horas. O rio que corta a cidade é ligado à represa de Mairiporã. Naquele ano, tal como em 2011, eles também abriram as comportas.

Lembro até hoje de pegar uma canequinha, tentando ajudar, tentando tirar água da cozinha, tirar móveis do lugar, enquanto meu pai e meu avô se exauriam nos balde e minha avó e minha mãe se esgotavam no rodo.

Criança é meio besta mesmo e, nesta minha tentativa um tanto destrambelhada, eu tomei uma bronca e um banho de álcool da minha mãe. Minha mãe comprou uns 10 litros no mercado e me submergiu neles, para evitar infecção. A classe C, em 1988, não tinha nenhum glamour.

Naquele ano, minha mãe e meu pai decidiram que nunca, nunca mais iam morar perto de um rio. Até porque o pior da enchente vem depois -- e, nesse caso, eu também estou falando do fogão enlameado e da geladeira fedorenta, mas isso é o de menos.

Naquele ano, minha irmã tinha pouco mais de 10 meses de idade. A poeira fétida, que fica quando a água vai embora, deixou a minha irmã com problemas respiratórios durante 15 anos. Ela desenvolveu bronquite alérgica.

Em 1988, meu pai ganhava muito pouco e minha mãe estava desempregada. Morar com os meus avós era a única solução para juntar algum dinheiro e dar entrada na casa própria. Depois da enchente, meu avô fez um sistema para evitar que a água entrasse em casa, que envolvia muretas e canaletas. Durante boa parte daquele ano de 1988, todas as casas dos vizinhos fizeram muretas no portão. Era feio, mas era útil.

Como meu avô abominava coisas feias, ele fez o sistema daquele jeito todo cheio de caminhos _mas funcinou e não ficou parecendo um remendo. Meu pais ajudaram e, em paralelo, começaram a trabalhar muito para juntar mais dinheiro e mudar de lá o quanto antes.

Meu pai começou a fazer inúmeras horas extras (eu não tenho memórias dele durante aquele ano de 1988 -- ele trabalhava quase todo final de semana, minha mãe me contou muitos anos depois) e minha mãe, professora, foi fazer bicos como manicure. Objetivo: no verão de 1989, a gente estaria morando muito longe do rio.

Deu certo. No dia 17 de janeiro de 1989, nós nos mudávamos para o alto de uma floresta de eucaliptos, bem longe do rio, no alto da montanha, em Caieiras. Não tínhamos muita coisa em casa. Tínhamos geladeira, fogão e mesa, mas estávamos morando longe da água. Dava para ver o rio, mas o rio nunca chegaria lá em casa.

Os anos passaram e, de fato, a água nunca chegou em casa. Nas piores enchentes, tomou toda a área de várzea -- até este ano. Em 2011, a água tomou a área de várzea e invadiu a pista. Minha mãe não consegue sair do alto do morro porque a estrada, lá embaixo, virou um piscinão. Por isso que minha mãe está ilhada.

Já em Franco da Rocha a situação mudou muito pouco. Os anos passaram. A cidade elegeu prefeitos do PT, do PTB, do PSDB, do DEM. O governo do Estado, nestes 23 anos, passou pelo PMDB de Quércia, o PTB de Fleury, o PSDB de Covas, Alckmin, Serra. Seria injusto dizer que nada foi feito. Foi. Durante alguns anos, os alagamentos de Franco da Rocha diminuíram muito.

O rio continuou a subir, mas a cidade nunca mais alagou, como em 1988. Era muito mais controlado, e nunca como nesta semana. Meus tios, minhas tias, minha avó desistiram dos planos de mudar de Franco da Rocha. Afinal, é difícil deixar um lugar onde você morou a vida inteira. E, além disso, não é todo mundo que, como meus pais, consegue juntar dinheiro para mudar de casa.

Até que neste ano a situação voltou ao que era há 23 anos. Ontem, da TV aqui na redação do iG, eu via as imagens do Jornal Nacional. Hoje, eu vi as imagens da TV iG.

A igreja onde meus avós se casaram, meus tios se casaram, onde foi a missa de sétimo dia do meu avô estava alagada. Na avenida que cruza o bairro da minha tia, as pessoas só se locomovem de bote. Minhas primas não conseguem sair de casa para trabalhar.

De fato, obras contra enchentes não ficam prontas em 24 horas. De fato, as pessoas poderiam morar em lugares distantes dos rios (embora eu não saiba exatamente como você pode transferir uma cidade inteira de lugar, como é o caso de Franco da Rocha). E, de fato, é difícil de engolir que 2011 seja um repeteco de 1988.

Não há obra que resolva, para sempre, um problema. Seria a mesma coisa que esperar de um computador rodando Windows 95 uma conexão rápida à Internet. E, por fim, se a moda agora é citar Guimarães Rosa, então fica a dica: Não dá para ficar esperando que o nada vire alguma coisa.

*Texto originalmente publicado em Medium.

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