OPINIÃO
13/06/2014 10:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Cultura de rua e seu poder de transformação

A cultura de rua atrai o jovem e encanta quem se descobre nela. Ela entra livremente em presídios, chega aos ouvidos e olhos do menor que rouba no farol. Se espalha, tem o poder de gerar e alterar comportamento, sou prova viva disso. Todos os dias estou envolvido com essa cultura, afinal, ela é minha terapia ocupacional.

Nasci no extremo leste SP, região dominada pelo tráfico e violência. Ainda me lembro da noite apavorante em que policiais andavam pelos muros baixos da minha casa, atirando e gritando à caça de assaltantes que planejavam um assalto na casa ao lado. Eu tinha apenas 6 anos.

Meu pai um alcoólatra, minha mãe uma costureira desbravadora que sempre trabalhou fora para nos alimentar. Somos em três irmãos, sendo que os dois mais velhos se viciaram em drogas. Nisso, as brigas dentro de casa eram inevitáveis. O quintal da minha avó, onde brincava com meus primos, era constantemente invadido pela policia, atrás dos meus tios que na época eram bandidos, e nós víamos tudo.

Cresci sem referências. Aos 11 anos de idade, subi pela primeira vez em cima de um skate, foi amor à primeira remada. Aos 13, já competia e tinha patrocinadores. Durante toda minha adolescência não tinha espaço para maldade, o crime e nem para as drogas. Estava tomado pelo sonho de ser um atleta profissional e cantor de soul music.

Aos 16, me machuquei andando de skate, foram longos 4 meses para me recuperar. Perdi o patrocínio e o ânimo de sonhar com a carreira no esporte. Substituí o esporte pela balada, iludido pela bebedeira e farra.

Era noite de carnaval quando experimentei cocaína pela primeira vez -- foi fascinante, tudo colorido, muita euforia, risos e animação. Mal sabia que era o início de um processo de autodestruição.

Senti meu corpo adormecer e faltar o ar. Uma pontada forte no coração indicava uma overdose. Achei que ia morrer, mas fui poupado, acredito que por intervenção divina. Oito anos de dependência foram o suficiente para me tirar tudo o que tinha de mais precioso: a vontade de viver.

Resolvi buscar ajuda, fui para uma casa de recuperação. Quando vi minha mãe vindo pela longa estrada de terra, com uma mochila pesada nas costas trazendo mantimentos para visita, prometi a mim mesmo que viraria o jogo e daria orgulho a minha mãe.

Internado, escrevi minha primeira letra de rap, percebi que aquilo poderia mudar minha vida e ser ferramenta de transformação na vida dos outros.

Três meses depois, fora da clinica e recuperado, comecei a dar aulas de skate e hip hop na comunidade em que moro, Poá. E, através dessas artes, agir na prevenção às drogas, inspirando os alunos a serem devoradores de livros, filhos obedientes e sonhadores insaciáveis.

A sede pela vitória levou-me para o sonho. Hoje, sou coordenador da oficina de skate com literatura no instituto Gerando Falcões, que atende 70 crianças e adolescentes, todos os sábados, em Poá. Participo, também, do show de transformação, outro projeto do Instituto, que leva rap, teatro, dança de rua e grafite, e já alcançou 200 mil jovens. Gravei meu CD num dos cinco melhores estúdios do Brasil, sou conselheiro em prevenção ao uso de drogas pela UFSC e fui nomeado pelo Fórum Econômico Mundial um dos 15 jovens brasileiros que podem mudar o mundo.

Sabemos que educação de qualidade é fundamental para o crescimento do país, redução da violência, criminalidade... mas como educar quem não quer ser educado? Como formar uma geração que pensa além da ostentação? Como fazer alguém se dedicar aos estudos, se sua maior referencia é o traficante?

Um garoto de 12 anos que não sabia ler começou a freqüentar a oficina de skate. Antes da atividade com o skate, temos aula de leitura. Com muito esforço, ele começou a ler suas primeiras palavras usando uma revista em quadrinho. A sua motivação? Andar de skate depois da leitura.

A cultura de rua atrai o jovem e encanta quem se descobre nela. Ela entra livremente em presídios, chega aos ouvidos e olhos do menor que rouba no farol. Se espalha, tem o poder de gerar e alterar comportamento, sou prova viva disso. Todos os dias estou envolvido com essa cultura, afinal, ela é minha terapia ocupacional.

Essa cultura pode educar, mudar o comportamento do assaltante, viciado, traficante, aluno desinteressado, professor desmotivado e causar um grande impacto social.

Certo dia, um pai me disse: "Gosto quando meu filho vai à sua aula. Ele sempre volta diferente". Isso me realiza, e é meu combustível para continuar.

O skate é o segundo esporte mais praticado no Brasil e o HIP HOP está no mundo todo. Potencializá-los como ferramente de educação é marcar um gol de placa. A liderança através dessas artes é eficaz e contribui diretamente na transformação do mundo.

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