OPINIÃO
23/08/2018 19:38 -03 | Atualizado 24/08/2018 09:31 -03

Parei de beber e agora me sinto por fora da resenha

A ideia generalizada é que beber em excesso é divertido, enquanto ser sóbrio é visto como sinal de falta de humor.

Anchiy via Getty Images
Então por que não beber álcool é visto tão frequentemente como um passo negativo?

Parei de beber álcool três meses atrás. Não sou uma pessoa totalmente certinha e caxias. Sempre gostei de beber: aqueles primeiros goles e o modo como a bebida me faz sentir que estou mais ligada às minhas pessoas favoritas, minhas músicas favoritas, tudo.

Mas tenho um filho de 1 ano que não dorme bem. Estou cansada. Antigamente eu bebia algumas vezes por semana – às vezes com moderação, às vezes não. Eu estava curiosa para checar se passar algum tempo sem álcool me faria sentir melhor. Doze semanas se passaram, e continuo cansada. Mas estou menos ansiosa e mais produtiva. Minha pele melhorou. No meu dia a dia, não sinto falta da bebida. Acho que dei um passo positivo para aprimorar minha vida.

Então por que não beber álcool é visto tão frequentemente como um passo negativo? E por que temos uma visão tão distorcida do consumo de álcool, com ou sem excessos?

Me surpreendi na semana passada ao assistir a uma reportagem no programa matinal BBC Breakfast. O programa dizia que quatro em cada cinco britânicos mentem ao médico quando falam de quanto álcool consomem e que 65% dos britânicos sofrem alguma forma de dependência do álcool. Essas estatísticas são sérias, mas os apresentadores estavam rindo de suas próprias mentirinhas ligadas à bebida enquanto apresentavam a reportagem. Uma delas disse que "só os abstêmios são francos em relação a quanto bebem" e rolou os olhos, indicando ao espectador que ela própria não é abstêmia, nem fala com franqueza sobre quanto bebe.

Eles usaram o mesmo tom leve e despreocupado com que anunciaram a primeira participante do concurso Strictly Come Dancing (algo como "Dançando com as Estrelas") ou que adotam quando mostram imagens divertidas de bichos.

Outro programa de TV recente, Live Well For Longer, da emissora Channel 4, mostrou três grupos de mulheres tentando passar um mês sem bebida alcoólica. A maioria das mulheres bebia muito em excesso do limite recomendado; as integrantes de um dos grupos tomavam pelo menos uma garrafa de vinho cada por noite, todas as noites.

Médicos as avisaram que o consumo excessivo de álcool eleva seu risco de câncer e de morte precoce. Mesmo assim, apenas algumas delas pareciam estar preocupadas com isso. A maioria delas ficava brincando com a apresentadora Kate Quilton, falando de como seria difícil aguentar aquele mês.

Eu mesma senti que não estava entendendo a graça.

Antes de meu jejum autoimposto de álcool, eu costumava rir de minhas façanhas quando bêbada, ocasiões em que me machuquei. Eu assistia a First Dates na TV e pensava que alguém que pedisse um refrigerante ao Merlin só podia ser um pouco estranha ou ter algum "problema".

A ideia que tudo isso passa é que beber em excesso é divertido e engraçado, enquanto a sobriedade é algo sem graça. Os amigos dizem "só uminha, vá lá" ou me perguntam para quando é meu segundo bebê. Eles precisam encontrar alguma razão que justifique minha opção de não beber.

Essa atitude é irritante quanto você não está bebendo. Não apenas isso – é prejudicial. Ela dificulta em muito a sobriedade, quer você esteja tentando se manter sóbria porque tem um bebê que não dorme ou porque beber a deixa deprimida. Ou porque algum dia você gritou com seu companheiro quando estava embriagada. Ou porque tem uma doença hepática e sua vida depende de você não consumir álcool.

Nossos sentimentos em relação ao consumo de álcool e à abstenção de álcool são complexos e profundamente arraigados. Não há dúvida de que são moldados até certo ponto pelas mensagens que recebemos da mídia e da sociedade em geral.

Precisamos começar a encarar a sério o consumo excessivo de álcool. Precisamos encarar suas consequências potencialmente negativas e não ficar rindo disso.

As atitudes estão começando a mudar aos poucos. As pessoas da geração do milênio andam bebendo menos: um estudo de 2016 do Departamento Nacional de Estatísticas britânico constatou que mais de um quarto dos jovens entre 16 e 24 anos não bebem. Como uma pessoa na casa dos 30, acho que minha geração pode aprender com a geração seguinte que beber em excesso pode ser prejudicial e que algumas pessoas não podem ou não querem beber.

Não estou pregando a abstenção total do álcool, mas digo que precisamos facilitar a sobriedade e respeitar as escolhas das outras pessoas.

Um brinde a isso.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.