OPINIÃO
07/03/2014 18:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Por que decidi me assumir feminista

Nos últimos meses, desde que comecei a declarar em qualquer situação (sério, qualquer situação mesmo, não passo um dia sem me ver declarando isso) que sou feminista, comecei a receber reações de todos os tipos. A mais comum é um olhar misto de "olha-essa-maluca-de-esquerda" com desconforto de quem não quer entrar no assunto.

Quero começar com o exemplo de uma conversa que tive com a minha mãe, enquanto eu falava pra ela e pro meu irmão sobre como o mundo ainda é muito duro com as mulheres e quanto eu andava pensando sobre (e lutando contra) isso. A resposta que recebi:

- Ah, filha, eu não sou nem feminista, nem machista.

E aí perguntei pra ela (e, principalmente, pra mim mesma): como uma mulher que se divorciou no começo dos anos 1990, com toda a família contra - inclusive a mãe dela, minha avó, que achava melhor "ficar casada e deixar o marido ter a outra" - pode não ser feminista? Ser feminista pra mim é só isso, é mais simples do que parece: é querer garantir que a gente possa fazer o que a gente quer, do jeito que a gente quer, sem homens e sociedade patriarcal dando pitaco. (Mesmo que a gente acabe precisando, como a minha mãe, de uns cinco empregos pra garantir essa liberdade.) Não é nem tão revolucionário quanto pode parecer.

Por uma daquelas coincidências que de acaso não têm nada, me vi dentro de um grupo de mulheres, entre amigas e amigas de amigas e amigas de amigas de amigas, todas pensando sobre isso. Tentando delinear novos papéis, novas liberdades, rupturas. E ao mesmo tempo não vejo nada de radical no que estamos fazendo e pensando. Honestamente? Pra mim o feminismo virou uma questão de bom senso.

Não estamos sugerindo que ninguém pare de pintar a unha/rosto/boca e de fazer escova. Mas estamos questionando por que você se sente menos bonita quando não faz nada disso.

Não estamos sugerindo que você pare de ir à academia. Mas estamos tentando entender se você faz isso para ser saudável/se divertir ou para agradar aos homens, acreditando que só vai "merecer" um deles quando atingir o corpo perfeito que vive só nas nossas cabecinhas.

Não estamos dizendo que você não pode se sentir envaidecida com uma cantada de um desconhecido. Mas estamos colocando em pauta o medo que muitas mulheres sentem ao ouvir um "Gostosa!" enquanto estão no ponto de ônibus.

Não estamos criticando as fotos que você tira com seus filhos, muito menos o fato de você adorar sair do trabalho cedo pra brincar com eles. Mas estamos defendendo as mulheres que, ué, não querem ter filho - e isso é normal, não comecem com papo de "instinto biológico" universal.

Não estou, enfim, tentando obrigar ninguém a ser coisa nenhuma. Mas estou finalmente me aceitando como feminista. Eu, filha de pais separados e de mãe que me criou basicamente sozinha; eu, que sempre tive problemas de autoestima e ainda não consigo me olhar no espelho e me amar incondicionalmente; eu, que nunca namorei nem tive uma relação que se pudesse chamar estável, e sempre me senti julgada pelos outros e por mim mesma por estar fora desse padrão. Eu, que, mesmo sem ter me dado conta antes dos 28, sempre fui feminista, sim, senhora.

Termino a história da conversa com minha mãe:

- Você tem razão, filha. Acho que eu sou feminista.

(Texto publicado originalmente no blog Tom Feminino)