OPINIÃO
19/12/2017 17:05 -02 | Atualizado 19/12/2017 17:15 -02

Lugar de mulher é fazendo cerveja - e onde mais ela quiser

O preconceito relacionado à mulher no meio cervejeiro aparece de diversas formas, das mais claras às mais sutis.

Divulgação/Arquivo Pessoal

O preconceito relacionado à mulher no meio cervejeiro aparece de diversas formas, das mais claras às mais sutis. Já ouvi comentários do tipo:

- "você não tem cara de cervejeira" (fico me perguntando qual será a cara padrão de uma cervejeira);

- "ah tá, você é cervejeira...isso quer dizer que você gosta de tomar cerveja, né?!" (porque é claro que, como mulher, você não pode entender mais de cerveja do que eu que sou homem);

- "para o paladar feminino, qual a melhor cerveja?" (o que seria paladar feminino? Eu sei do meu paladar, não posso falar pelo de todas as mulheres);

- "algumas atividades na cervejaria são pesadas demais para mulher" (mulheres e homens podem ou não ter força para uma função ou outra);

- "mulher tem mais jeito para a área de qualidade, pois são mais detalhistas, e homens para a área de processo, que é mais técnica" (existem mulheres que não são detalhistas e amam a área técnica, simples assim).

Este é apenas um retrato do universo cervejeiro que, assim como todos os outros, é um reflexo da sociedade.

As pessoas que fazem parte dele, seja trabalhando na indústria, produzindo por hobby ou só pelo prazer de beber, contribuem, cada uma do seu jeito, para a construção desse universo no dia a dia. Os valores, opiniões, gostos e, infelizmente, preconceitos de cada um influenciam o meio como um todo. O País ainda é muito machista, e o universo cervejeiro também é.

Eu trabalho com cerveja há mais de dez anos e há sete sou mestra-cervejeira formada. É minha paixão.

Apesar disso, em diversas situações, de conversas de bar a fóruns cervejeiros, fui testada por homens que, quando ficavam sabendo que sou cervejeira, queriam ter certeza de que eu entendia mesmo do assunto.

Perdi a conta de quantas vezes me vi obrigada a atestar a minha capacidade. É cansativo ser desafiada só por ser mulher. Tenho a sorte de trabalhar em um lugar que me respeita por quem sou e onde nunca me senti discriminada, mas sei que situações como essa não são regra.

É chocante ver que, em 2017, ainda não esteja claro que as características diferentes que podem existir entre as pessoas não dependem de gênero. Somos indivíduos; é natural (e bom) que não sejamos todos iguais.

A diversidade, quando respeitada, contribui para o amadurecimento da sociedade inteira. Generalizações, por sua vez, só fortalecem uma cultura de exclusão. Os estereótipos de gênero (assim como outros) limitam as nossas vidas e escolhas ao dizer quais espaços nós mulheres podemos ocupar e quais não podemos.

Por outro lado, vejo cada vez mais mulheres vencendo as barreiras sociais que nos são impostas e os preconceitos que estão arraigados na nossa cultura e na nossa criação.

Mulheres, muitas vezes, são educadas para aceitarem o machismo e, por isso, nem sempre conseguem perceber como estão sendo impactadas por ele. Outras vezes, apesar de sentirem o preconceito, não conseguem espaço para se manifestarem contra ele.

Hoje, vejo muitas mulheres que conseguem não só perceber o machismo, mas também lutar para que cada vez menos outras mulheres sofram por causa dele. Não é fácil.

O pensamento machista tende a ridicularizar as iniciativas daqueles que querem lutar contra o problema. Escuto muitos comentários de pessoas que ridicularizam projetos voltados à inclusão e busca de igualdade entre homens e mulheres, que falam em "vitimização", "frescura" ou "mimimi", mas fico feliz em ver que, apesar das dificuldades, nós estamos nos unindo e liderando discussões sobre o assunto.

Hoje, por exemplo, participo de um projeto incrível chamado "Goose Island Sisterhood". A Sisterhood (como carinhosamente chamamos) é uma confraria feminina feita exclusivamente por mulheres, idealizada pela minha amiga e sommelière de cervejas Beatriz Ruiz. Ela busca falar sobre cerveja e empoderamento feminino, discutindo o nosso espaço no meio e na sociedade por meio da produção da bebida.

Iniciativas como essa são importantes para quebrar os preconceitos que ainda persistem e aproximar cada vez mais mulheres do universo cervejeiro, reafirmando que ele também é nosso.

Sei que ainda temos pela frente um caminho longo a ser percorrido para que a igualdade de condições entre homens e mulheres seja alcançada, mas os primeiros passos já estão sendo dados, e isso me enche de esperança e orgulho.

Nós estamos conquistando nosso espaço e sendo protagonistas na transformação desse mercado. São vitórias nossas não sermos mais objetificadas nos comerciais de cerveja e estarmos cada vez mais presentes na sua produção. É isso que me motiva a seguir na luta pela desconstrução desses preconceitos.

Vai ter mulher cervejeira, sim!

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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