OPINIÃO
09/08/2014 19:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Por que o Secret é tão fascinante?

Achei um novo jeito de perder tempo: ele se chama Secret. Os erros de gramática me fizeram gritar de ódio. A cada vez em que me pegava abrindo o aplicativo para ler novas mensagens, me perguntava: o que é que me atrai nesse negócio?

Achei um novo jeito de perder tempo: ele se chama Secret. Como o Twitter, Secret é um aplicativo no meu celular. Amigos, amigos dos meus amigos e desconhecidos postam declarações anônimas, perguntas e comentários sobre as minúcias de suas vidas. Muitas vezes elas me soam como falsos aforismos, afirmações incisivas com um vernizinho de verdade. E claro, estamos na internet, e isso significa que a maioria dos posts se divide em duas grandes categorias: sexo e trabalho. Às vezes é uma mistura: sexo com colegas de trabalho, ou masturbação durante uma call, algo que, eu não sei você, mas eu nunca fiz.

Quando eu li sobre o Secret, imediatamente instalei o app. Não havia instruções, então eu só comecei a deslizar o dedo na tela. Os erros de gramática me fizeram gritar de ódio, e muitas das mensagens eram bem banais, mas eu segui em frente. A cada vez em que me pegava abrindo o aplicativo para ler novas mensagens, me perguntava: o que é que me atrai nesse negócio?

Como eu sei que você já está curioso, lá vai um post:

Meu eu de 14 anos me encheria de high-fives de tão gostosa que é a minha mulher - Portland

Bem pouco humilde pra alguém que mora em Portland, pensei.

Perguntei pros meus amigos fissurados em tecnologia de Nova York. "Você usa o Secret?" A maioria negou balançando a cabeça. Já meus amigos de San Francisco, a maioria dos quais trabalha com tecnologia, como eu já trabalhei, a história era bem diferente. Eles conheciam o Secret e o usavam sempre. Fiquei pensando em quais "segredos" eles teriam postado e se eu tinha "curtido" algum de seus posts.

A timeline do Secret é montada a partir dos meus contatos na agenda do celular ou seus amigos do Facebook. Quando um segredo viaja para além dos dois graus de separação (amigos de amigos de amigos), aparece o local de onde ele foi postado. Essa contextualização, apesar de básica, dá um senso de realidade ao meu mundo no Secret de tal jeito que minha cabeça já começa a especular como é que eu fui conectada com aquela mensagem. Quanto mais as pessoas curtem um post (o que é indicado por um número ao lado de um coraçãozinho), mais o segredo se espalha - tipo uma brincadeira de telefone sem fio. De vez em quando vejo posts de lugares como distantes, mas a maioria deles vem ou daqui ou de lá. Faz sentido, porque vivo em Nova York há três anos, e antes morei outros 12 em San Francisco.

Diferentemente do Twitter, ainda não estava atordoada com a quantidade de segredos, e era culpa minha: meu círculo de contatos era pequeno demais. Deveria evangelizar e convidar mais amigos? Tentar espalhar essa inofensiva maneira de jogar tempo fora?

Demorou um pouco eu pegar o jeito da coisa toda. Meu primeiro e segundo posts foram engolidos sem nenhuma interação: nem comentário, nem coração. Fiquei #chateada. Meu terceiro post recebeu um like. Me senti como uma daquelas crianças na escola que fica procurando um lugar para sentar na hora do recreio. Foi lendo os posts e comentários que comecei a hackear o sistema, tentando ainda assim permanecer fiel a mim mesma. Na minha intensa pesquisa, duas das qualidades mais admiradas nos post pareciam ser o assunto sexo e a perspicácia do texto.

Já era de noite no meu apê quando li um segredo listado como tendo sido publicado a meros 100m de mim. Opa! Olhei pros lados, pro o teto e depois pra janela. Onde estaria o autor do post? Do outro lado da rua? Me senti observada e postei:

"Como eu me sinto quando leio um segredo de alguém a 100m de mim. Tipo naquela "Janela Indiscreta": quem está olhando para quem?"

Meu post recebeu 20 likes! Um número pequeno, mas já era motivo para comemorar. Por que fiquei será tão animada? Isso significava que elas gostavam de mim?

E aí aconteceu de novo.

Almoçando na academia, dei aquela olhada no Secret: "Novo segredo postado"

Quando as minas elogiam meu pau, tenho vontade de agradecer meu pai.

Ri sozinha balançando a cabeça - que mulher agradeceria a mãe por causa dos peitos? Olhei pra onde o autor estaria localizado e diz: "< 100 metros." Meu iPhone quase caiu na hora. Já queria sair correndo, procurando um cara bem-dotado suando pelos corredores da Bio Ritmo, também com um celular na mão.

Comentei então:

"Tô tentada a perguntar onde você tá, pois o Secret me diz que você tá a menos de 100m de mim".

Fiquei tensa esperando ansiosamente pela resposta.

E aí ele comentou de volta: "É você papai?"

Que divertido e inocente mundo é esse? Aquele tesãozinho de estar fazendo algo errado que sentia quando compartilhava ou comentava em um segredo era muito fascinante. O app conseguiu algo que o Twitter nunca tinha conseguido - me fisgar. Era natural e íntimo, ou pelo menos tão íntimo quanto pode ser a tecnologia.

Em 2008 entrei no Twitter para manter contato com amigos enquanto estávamos num casamento em New Orleans. Minha conta era privada, porque tínhamos combinado de usá-lo assim. E não mexi nessa configuração até um ano atrás, quando percebi que já tinha provavelmente perdido algo que me fizesse ter tesão em usar. Tive o mesmo medo com outras redes sociais. Relutantemente, entrei no Facebook, e a maior parte da alegria que eu tenho são as atualizações dos meus amigos de longe. Snapchat? Esquece. Ignorei porque soava como algo usado por adolescentes e políticos - selfies e "fotos do pau".

Em algum lugar naquela minha persona de internet, uma linha dividia o meu eu-verdadeiro e meu eu-secreto. O eu-privado. Eu controlava bem de perto o que eu fazia no Twitter e no Facebook, já que aquilo seria lido pela minha mãe, por ex-namorados, colegas de escola, colegas de trabalho e muito mais gente. Será então que foi o anonimato que me fisgou no Secret?

Não havia nomes, rostos nem marcadores de tempo, e a única maneira de voltar e reler meus posts antigos era se eles recebessem comentários ou likes. Essa natureza transitória tinha de ser um dos motivos. Outros usuários do Secret pareciam mais jovem que eu, mas eu provavelmente era a única a notar. Idade é uma não-questão, o exato oposto do que acontece na maioria das novíssimas redes, cheias de rostinhos novos, sem nenhum cabelo branco à vista. Talvez por isso eu tenha gostado tanto. Eu poderia FINALMENTE expressar a minha voz sem me preocupar com o grande V: de VELHA.

Meu cabelo tá ficando grisalho e bebo uísque pra caralho. Se o Tinder tivesse #daddyissues como filtro, eu queria muito um match

Comentei: "Bebo bourbon e curto caras grisalhos." O comentário recebeu 8 corações. Morri.

No vida real, os amigos vêm me pedir conselhos. Eu sou esse tipo de pessoa. Recomendações de restaurantes, dicas de viagem, ideias de presentes, truques de relacionamento, como se eu fosse metade terapeuta, metade a Veja São Paulo. Eu sou boa nisso, mas não é uma aquela coisa que se possa colocar LinkedIn. Pra aconselhar é preciso de tempo para dar uma boa resposta, e isso me tira um bom tempo para fazer o meu trabalho de verdade. Só que no Secret eu posso dar meus conselhos pra quem nem pediu, sempre que tenha tempo ou esteja me sentindo inspirada - aquele tipo de luxo que você não tem com os amigos.

Finalmente tô na minha melhor forma, e mesmo assim não tenho ninguém com quem dormir agora.

Comentei: "Bem, vamos supor que você tenha ficado em forma só para agradar a si mesmo. Próximo passo: a sua mente". Esse comentário recebeu míseros dois likes. Acho que ficou muito com a cara do Jairo Bauer.

Esse meu desejo de "ajudar" me frustra também no Secret, porque não dá pra comentar nos posts fora do meu círculo de amigos. Por outro lado, parece ao mesmo tempo ser um mecanismo de segurança bem inteligente.

Assim como nós não prestamos mais atenção quando os comissários de bordo fazem a demonstração dos itens de segurança do avião, essa restrição é uma jogada inteligente do Secret, porque, se todos pudessem comentar, mensagens picantes iriam explodir como acontece com os piores artigos da internet sobre o Instagram da Lena Dunham.

Por causa do anonimato, quando você posta no Secret, no lugar de seu nome de usuário você ganha um avatar. Os comentários de quem postou são indicados por uma coroa. Comentários do resto das pessoas são indicados por outros ícones bonitinhos e aleatórios, como um foguete, um alien, uma peça de quebra-cabeça ou um veleiro, por exemplo. Quando um post gera uma conversa, os usuários te chamam pelo seu ícone, o que significa que também há ícones que não são bonitinhos, como um cocô.

Me sinto atraído por mulheres inteligentes, que têm cara de terem estudado. Professoras, bibliotecárias, programadoras. Pessoas que lêem, pensam, têm dois seios e uma vagina.

Eu TIVE que comentar: "Eu não tenho certeza que essas mulheres que você curte vão se interessar por você que escreve frases que terminam com vagina"

O autor do post e o comentaristas deste Secret foram pra cima de mim! Meu ícone era um veleiro. Discutimos pra caramba sobre o que era considerado linguagem vulgar ou não. Um usuário cujo ícone era um ventilador comentou: "Oi? Se não curtiu não comenta, veleiro".

Claramente a "ventilador" não entendeu que, no mundo virtual, é exatamente nessa hora que você entra na briga. O autor do post original também não entendeu o que eu estava tentando dizer. Meu argumento era que se por um lado ele estava exaltando as virtudes das mulheres inteligentes, por outro, ele objetificava as mulheres - nós, eu, as minhas amigas - como meras partes do corpo. (Ícone que eu queria ser: um soquinho.)

Com dois meses usando o Secret, ele ainda era super especial, provavelmente como os usuários do Twitter se sentiam ainda em 2007, quando ele foi lançado no SXSW. Sem falar nos outros clubinhos que antes eram apenas poucos usuários: Instagram, Flickr, Facebook etc. Será que a minha empolgação tinha a ver com o fato de que fazia parte de um clube exclusivo, conhecido por pouca gente? Finalmente entrei para o clube dos early adopters!

Uma das grandes alegrias de viver em Nova York é ter seus esbarrões aleatórios com estranhos. Conversas à toa, uma mão amiga ou apenas um sorriso na rua, e todo o seu dia pode mudar. Eu posso nunca mais ver essas pessoas de novo, e o encontro pode nem ficar guardado na minha memória de longo prazo, mas por alguns minutos eu me transporto para um mundo perfeito. Ter alguns desses poucos instantes fugazes usando meu iPhone certamente não entregava o mesmo tipo de energia, mas será que é para esse mundo mesmo que estamos caminhando?

Apesar do meu prazer em usar o Secret, ele é como outros apps e sites de mídia social: não são conexões reais. Eu não posso encontrar essas pessoas online, saber seus nomes ou ter uma conversa significativa. Continuo voltando a pensar no porquê de ter gostado tanto do Secret e me pego contando para os amigos sobre outro segredo que li, postei ou comentei. Isso tem um quê de proibido. Eu ainda estou fascinada com esse recém-descoberto meio, esperando que ele continue a me envolver e a me dizer algo novo sobre o mundo ou sobre mim mesma. Aceitei isso como resposta: o Secret me permite ser quem eu quiser. Posso sair quando quiser e, se for achar pesado ou ruim, eu peço pra remover.

Conhecendo melhor meu público, posto algo de que eu acho que eles vão gostar:

Por que todos os amigos dos meus amigos têm segredos tão pesados? Quem de vocês me colocou nessa porra?

Recebi 5 comentários e 21 likes. High fives para todo mundo.