OPINIÃO
12/03/2015 16:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Muitos passarão, esse não

Recebi minha irmã em casa, ela estava pálida, com os olhos lacrimejando e visivelmente abalada. Passou pelo portão de casa como um foguete, se dirigiu para o banheiro e ali ficou por um tempo em frente ao espelho. Respeitei o tempo dela, e assim que foi ao meu encontro, perguntei o que havia acontecido. "Eu fui agredida fisicamente na rua por um homem, um senhor. Ele enfiou a mão na minha cara."

community.livejournal.com/artsomofo_2005" data-caption="Mixed Media on cardboard, October 7, 2006Part of 2006 Artsomofo daily art making projectcommunity.livejournal.com/artsomofo_2005" data-credit="Lohan Gunaweera/Flickr">

Recebi minha irmã em casa, ela estava pálida, com os olhos lacrimejando e visivelmente abalada.

Passou pelo portão de casa como um foguete, se dirigiu para o banheiro e ali ficou por um tempo em frente ao espelho.

Respeitei o tempo dela, e assim que foi ao meu encontro, perguntei o que havia acontecido.

"Eu fui agredida fisicamente na rua por um homem, um senhor. Ele enfiou a mão na minha cara."

Logo mil coisas passaram pela minha cabeça, dentre elas, tentei imaginar o que ela poderia ter feito para "merecer" tal ato.

Ela logo começou a se explicar.

"Ao esperar a passagem dos carros para poder atravessar, fui assediada por um senhor de 62 anos que me comeu com os olhos enquanto passava em velocidade de tartaruga com a sua moto. 'P da vida' com mais um momento desconfortável por ser mulher, mostrei o dedo médio. Mostrei e mostraria mil vezes mais. Ser assediada todos os dias por velhos, novos, ricos, pobres, é perturbador. É bizarro ter que ouvir que minha bunda é deliciosa, ou que 'me chupariam' toda. Da cantada mais grosseira aos olhares mais insinuantes eu afirmo: não tem diferença. Assédio é assédio.

Depois de mostrar o dedo médio, este senhor deu a volta no quarteirão e me abordou com a sua moto na calçada. Perguntou-me porque fiz aquilo e eu expliquei:

- Me senti desrespeitada.

Sem me exaltar, perguntei se ele tinha filhas. Ele respondeu que sim. Apenas pedi que ele as questionasse como é passar por isso todos os dias.

Ele começou a gritar. Eu questionei o motivo da histeria. Aos gritos ele começou a apontar o dedo na minha cara e me bateu. Sim. Enfiou a mão na minha cara.

Em choque, gritei por ajuda. Pedi pra chamarem a polícia por ter sido agredida.

Esperto, o homem tentou fugir. Entrei na frente da moto e segurei pelo guidão com toda a força que tinha.

Ele tentou me atropelar. Ligou a moto e a acelerou inúmeras vezes.

As pessoas ao redor olhavam, mas não tomavam partido. Uns sacavam o celular pra gravar, outros pra chamar a polícia, mas somente um homem interviu e conseguiu arrancar a chave da moto, impedindo a fuga desse cara.

Mas e aí, de quem é a culpa?

Do machismo.

Machismo sim!

Desde o momento dele pensar que tem o direito de invadir o meu espaço e me 'degustar' com um olhar nojento, até a agressão física e verbal a mim, uma mulher de pouco menos de 1,60.

Machismo sim, por achar que me comer com os olhos 'tudo bem', mas se rolar afronte da mulherzinha aqui é puro desrespeito.

Machismo sim por ter sido desencorajada por olhares, comentários e bufões dos policiais (todos homens) que atenderam a ocorrência como se aquilo se tratasse de uma birra de criança e não de assédio seguido de agressão física.

Machismo por ver que 'briga entre homem e mulher, ninguém mete a colher', como se a cena não tivesse nada de anormal e tudo bem ser espectador.

Machismo por ainda assim, conseguir identificar em mim um sentimento de constrangimento pela minha histeria frente toda a situação, como se por algum momento fosse minha culpa tudo aquilo estar acontecendo.

B.O. feito. Exame de corpo e delito também.

Não importa o veredito final. Só me importa que agora tem mais um homem no mundo que deve ter aprendido (eu espero) que respeito é pra quem tem. E que nós mulheres, estamos cada vez mais fortes e preparadas para lutar contra o machismo podre de cada dia.

Não passarão.

Esse não."

Ouvi tudo isso imaginando a cena, imaginando o que eu teria feito na hora - é importante ressaltar que nem sempre conseguimos reagir conforme imaginamos. Eu, por exemplo, achava que o dia que eu fosse assaltada eu gritaria, sairia correndo, bateria no assaltante, enfim, mas não. O dia em que de fato tive uma arma encostada em minha barriga, só consegui seguir as recomendações do assaltante e urinar de medo. Poderia enumerar várias coisas onde imaginei que teria uma reação e depois tive outra. O que acontece é que quando pensamos nas supostas reações, temos o tempo para pensar, não temos fatores de influência como pressão, como uma arma, como o temor por perder a vida. - Eu não sei se teria mostrado o dedo ou se teria esboçado alguma reação, porque eu e muitas garotas, deixamos esses assédios muitas vezes passar batido. E isso não é o que deveria acontecer.

Mas não deixamos de fazer alarde por que gostamos ou aceitamos a situação:

"Mas você mostrou o dedo do meio para ele"

Sim, um policial tentou justificar a agressão do homem, mas simplesmente ignorou o fato dele a ter agredido antes, como se fosse um pedaço de carne.

O que vejo é que por mais que tenhamos leis que defendam a mulher, em casos como este e de tantos outros, ainda temos profissionais da área de segurança que não estão preparados para atender este tipo de ocorrência. Estas agressões parecem simples "birrinhas" e não crimes, para pessoas que veem tudo isso como algo normal.

E se o circo não tivesse armado? E se não houvesse testemunhas ou marcas na pele para comprovar o que ocorreu? Certamente seria mais um caso anônimo, onde a mulher é culpada por caminhar sozinha ao entardecer, por usar vestido que marcava seu corpo e coisas assim. E o "pobre" senhorzinho de 62 anos, pai de família - que tem filhas - apenas um coitado, que "só" a agrediu porque ela mostrou o dedo médio.

É nessas horas que vemos que o machismo e os estereótipos ainda convencem a maior parte da sociedade.

LEIA MAIS

- Denúncias de violência contra a mulher crescem 40% no Brasil

- Juiz chama de 'piada' a fala em que Lei do Feminicídio será 'causa própria' de Dilma